RIVOTRILL E MUITO CORRE-CORRE
Sexta temporada estreia sem elucidar maioria das questões dos fãs que acompanham a série. Não tem problema. O interessante em Lost, mais do que assistir, é jogar

Por Thiago Neves
Colaboração para a Revista O Grito!, do Recife

Era uma vez uma ilha do pacífico, povoada por ursos polares, protegida por um monstro de fumaça e habitada por pessoas que já estiveram lá sem nunca terem estado. Tem mais: essa ilha guarda estátuas de deuses egípcios, um navio pirata encalhado e é capaz de mover-se no tempo e espaço.

Calma, leitor, esse não é um relato sobre os efeitos do LSD.

Essa história maluca saiu da cabeça dos produtores J.J Abrams e Damon Lindelof, responsáveis pela série-fenômeno Lost, que estreará sua sexta e derradeira temporada no próximo dia 02 de fevereiro, sem responder a grande maioria das questões levantadas ao longo de 104 episódios. E quem se importa? Os fãs não.

Com um roteiro misterioso, cheio de armadilhas, reviravoltas e uma pitada de Maria-do-Bairro-meets-Jurassic Park, Lost tem conseguido manter ótimos índices de audiência e os telespectadores de cabelo em pé, aflitos para descobrir o que se passa com os 40 sobreviventes do voo Oceanic 815, que caiu na ilha.

Durante as primeiras temporadas, flashbacks nos apresentam às histórias dos personagens e suas sagas. Jack Shepard é um medico workaholic, assombrado pelo espírito de seu pai. Na ilha, ele se apaixona por Kate, uma fugitiva da polícia, que faz a linha Lara Croft e tem uma queda por Sawyer, um golpista texano sarcástico, responsável pelas melhores tiradas da série. Sawyer é amiguinho de Hurley, um obeso mórbido, que ficou milionário do dia para noite, depois de acertar na loteria com os números 4 8 15 16 23 42. Ainda sobra espaço para um roqueiro em decadência, viciado em morfina e para um coroa místico, que parece ter nascido do cruzamento de Indiana Jones e Antônio Conselheiro.

Em Lost, não importa se um sujeito aparece por apenas meio episódio ou uma temporada inteira, todos os seres são peça fundamental de um roteiro retalhado (e detalhado). Aquela loura do terceiro episódio da primeira temporada, só reaparece para explicar a que veio no 12º da quarta; A senhorinha pacata daquela cena perdida da segunda temporada revela-se mãe e assassina de seu próprio filho, que só aparece três temporadas depois. Enquanto os roteiristas resolvem algumas migalhas de mistérios, despejam outros tantos mais, fazendo a alegria sadomasoquista dos fãs.

E você, que não entende nada de Lost deve estar se perguntando: “Ok, mas como as pessoas tem paciência para assistir isso?” Simples: o melhor de Lost não é assistir, mas sim, jogar. O grande trunfo da série tem sido manter a mente dos fãs ocupadas com teorias mirabolantes, que volta e meia viram assunto na mesa do bar. Com referências que vão desde divindades egípcias à física quântica, a série conseguiu instigar seus seguidores a descobrirem pistas sobre seus mistérios num livro mostrado na mão de fulano, na música que siclano ouve ou até mesmo em anagramas escondidos nos nomes dos episódios.

Mas não desanime se você nunca ouviu falar em Tutankamon ou Stephen Hawk. O Lostpedia – isso mesmo, uma wikipedia de Lost – reúne informações sobre todos os personagens, com a importância de cada um, em qual(is) episódios apararecem, principais falas, bem como um relato detalhado de tudo que já aconteceu na série. Os fãs ainda contam com a astúcia de blogueiros atentos como Carlos Alexandre Monteiro, do Lost in Lost, que além de produzir podcasts com análises da série e seus palpites, ainda faz o que ele chama de “Raspa do Tacho”. Nessa seção ele passa um pente fino em cada episódio e traz detalhes perdidos entre os frames: reflexos, vozes, anagramas, símbolos, fotos e até mesmo a revelação do conteúdo de conversas inaudíveis ou ditas em idiomas como russo e coreno. Ele também está sempre atento a aparição dos números malditos 4 8 15 16 23 42 – com os quais Hurley se tornou milionário –, que volta e meia aparecem numa porta, placa de carro ou relógio.

A emissora ABC também dá uma mãozinho ao produzir videos como o Lost Untangled (em português “Lost desambaraçado”), um resumo engraçadinho do que se passa na série, para aqueles que perderam-se em Lost. É a forma dos produtores admitirem “Ok, temos um roteiro complicado, mas vamos ajudar vocês”. A emissora também é responsável pela criação de jogos de realidade alternativa, como o Lost Experience e o Find 815, que mantém os fãs saciados durante o hiato entre uma temporada e outra.

Rivotrill – Adiantar os acontecimentos do roteiro de uma produção audiovisual é fato corriqueiro no mundo da TV e do Cinema. Mas em se trantando de Lost, os chamados spoilers ganham proporções quase insanas. Como o roteiro vai entregando as pistas aos poucos (e bote pouco nisso) os fãs ficam cada vez mais ánsiosos por respostas. É aí que entram em ação os maiores blogueiros-espiões de Lost: o ODI e o DarkUFO. Os caras trazem informações quentes das restritas gravações da série e publicam fotos, que ora revelam, ora inundam os telespectadores com mais questionamentos. Vale tudo: adiantar roteiros inteiros, mortes bombásticas e descobrir em quais personagens são centrados os episódios que ainda não foram ao ar.

ATENÇÃO, SPOILERS A SEGUIR (o aviso faz parte da etiqueta)
A próxima e última temporada começa no próximo dia 02 de fevereiro nos EUA com toneladas de questionamentos para responder e muita expectativa rondando o destino dos sobreviventes. No Brasil, será exibido no AXN, que ainda não divulgou sua grade de programação. Sua realização causou alvoroço nos corredores da ABC. Isso porque depois de viagens no tempo dentro da ilha, os sobreviventes do voo Oceanic 815 conseguiram uma maneira de evitar a queda do avião no futuro. Os produtores tiveram que reunir todos os atores presentes na primeira temporada, quando acontece o acidente, para poderem construir uma realidade alternativa, como se o voo tivesse chegado são e salvo a Los Angeles.

Depois da negação de alguns atores, que já não estavam mais na série, e do corte de um ator mirim, que cresceu demais nos ultimos cinco anos, J.J Abrams e Damon Lindelof conseguiram reunir a maior parte do elenco original presente na estreia da série, em 2005. O episódio final vai ao ar dia 1 de Abril, promovendo uma catarse coletiva dos fãs.

Nos blogs e twitters a contagem regressiva já começou e os spoilers estão correndo à solta. Já era de se esperar, pois uma coisa é certa: a história de Lost pode até não ter sido criada durante uma trip de LSD, mas tem deixado muita gente à base de ansiolíticos.

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