O diretor Daniel Bandeira. (Foto: Beto Figueirôa/Agência Aurora)

Ontem, terceiro dia de sessões do 12º Cine PE – Festival de Audiovisual, a seleção de filmes se revelou fraca, com poucos exemplos de produções de boa qualidade técnica e roteiro. Nem a mostra competitiva de curtas escapou do “festival de obviedades”. As únicas boas surpresas da noite foram Câmara Viajante, documentário do cearense Joe Pimentel, e o filme pernambucano Amigos de Risco, de Daniel Bandeira, selecionado para o último Festival de Cinema de Brasília.

ADR (como é alcunha do filme dita nos bastidores), que fechou a sessão de ontem à noite, por volta da meia-noite, foi aclamado calorosamente pelo público pernambucano com assovios e muito aplausos. Depois da exibição, do lado de fora do Teatro Guararapes, o burburinho era grande. No geral, os comentários diziam a respeito a uma identificação com os cenários e a cultura da urbe recifense, com as pontes, as ruas “sujas” da periferia e a face oculta da cidade – sem enfeites e realista.

Diferente do “realismo” de Daniel Bandeira, Bodas de Papel, do paulista André Sturm, mostrou um conto de fadas carola e cheio de clichês. O filme, protagonizado por Helena Ranaldi e o ator argentino Darío Grandinetti (que fez Fale com Ela, de Almodóvar) tem atuações rasteiras e um enredo de novela mexicana dos anos 90. Leia abaixo alguns comentários dos filmes da noite de quarta-feira do Cine PE, entre curtas e longas.

O Paradoxo Da Espera De Ônibus (Christian Caselli/RJ) – Animação tosca na forma, porém inteligente e irônica na proposta de brincar com o ócio e a filosofia de sofismas. Muito legal e divertido. Mas só.

O Filme Do Filme Roubado Do Roubo Da Loja De Filmes (Marcelo Yuka/Júlio Pecly e Paulo Silva/RJ) – Curta que satiriza a violência do Rio de Janeiro como uma metralhadora infantil e tola. Amparado por um humor negro reacionário (e sem graça), atira em direção à glamourização da violência na mídia e no cinema (cita Cidade de Deus) e à banalização do caos urbano com balas de festim. E acerta o próprio pé. Fujam!

Câmara Viajante (Joe Pimentel/ CE) – Excelente curta sobre a vida dos fotógrafos, retratistas e lambe-lambe no interior do Ceará – uma atividade que à prova do tempo e da miséria. Capta com poesia a autenticidade a cultura e a religião de um povo.

Satori Uso (Rodrigo Grota/ PR) – O que dizer de um curta que parece uma daquelas correntes de poesia pela web, em formato de PowerPoint, que aniquila a aura densa da poesia do japonês Satori Uso? E a tentativa desastrada de recompor as partes inacabadas da obra do cineasta americano underground Jim Kleist, que se orgulhava de nunca ter finalizado um filme? Mais equivocado impossível.

Bodas de Papel (André Sturm/SP) – Elenco desperdiçado, enredo fraco e direção pretensiosa e falsamente elegante. Na história de amor entre um arquiteto e uma dona de um hotel numa cidadezinha do interior, André Sturm consegue condensar todos os clichês possíveis: amor de novela mexicana, pornochanchada leve e metáforas vis. Muita pretensão e bobagem. Maria do Bairro faria melhor.

Amigos De Risco (Daniel Bandeira/PE) – Três amigos entram numa jornada sem fim noite adentro pelas ruas escuras e suicidas da periferia recifense em busca de uma simples diversão. Roteiro afiado, edição ágil e uma narrativa de tirar fôlego. O melhor filme do Cine PE até agora, apesar de compor a mostra paralela.

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