Previsibilidade é a marca de um festival como o Lolla, evento para jovens adultos que querem e podem estar num lugar seguro, ou seja, se divertindo como em um condomínio

Fotos por Jonatan Oliveira

Esta foi a segunda vez que fui ao Lollapalooza. Foi legal? Foi. Quem gosta de rock e pop não pode achar ruim assistir os shows de suas bandas preferidas ao vivo sejam os veteranos Pearl Jam, Red Rot Chili Peppers, David Byrne ou atrações um pouco mais recentes como LCD Soundsystem e Imagine Dragons. Também é massa descobrir gente nova legal como a dupla Oh Wonder ou curtir um artista do quilate de Rincon Sapiência. Infelizmente não deu para ver Lana Del Rey e The Killers, no terceiro dia do evento, porque três dias para um old flaneur como eu pesa no bolso e nas pernas.

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O que vi, porém, valeu a pena, tanto do ponto de vista musical, quanto para pensar um pouco sobre esse tipo de entretenimento. Os festivais de música pop são hoje grandes eventos que acontecem pelo mundo inteiro – o Lollapalooza, por exemplo, ocorre em seis países – e seja onde for, de uma maneira geral, seguem o mesmo padrão seja na Argentina ou no Japão. Mudam os line-ups (por vezes muito parecidas), mas a estrutura de funcionamento é a mesma. Os ingressos são caros, as bebidas e comidas vendidas neles idem, e por conta disso há uma clara segregação social, sobretudo em países como o Brasil. Nada diferente do que ocorre no mundo real fora dos limites dos festivais.

E aí fiquei matutando. A comparação talvez soe bizarra, mas ela me ocorreu. O que é mais legal de acompanhar: um festival como Rock in Rio, Lollapalooza, Reading (na Inglaterra), Soundwave (Austrália) ou um Rec-Beat, por exemplo, que acontece no carnaval do Recife e é grátis e na rua? Vejamos. De cara podemos dizer que a maior parte dos festivais de rock, nos dias atuais, são apenas pálidas sombras dos festivais que ocorreram nos anos 1960 – Woodstok (EUA, 1969), Ilha de Wight (UK, 1968) e Monterey (EUA, 1967) – todos com muito improviso e numa época em que o rock era visto como algo perigoso pela sociedade conservadora.

Eles carregavam em si atitudes de reação contra o establishment.

A partir de documentários, livros, relatos de que quem esteve lá, não restam dúvidas que a imprevisibilidade e espontaneidade de um evento como Woodstock em nada se compara com um Rock in Rio. Glastonbury, na Inglaterra, cuja primeira edição ocorreu em 1970 e é hoje o maior festival de música a céu aberto do mundo, talvez seja um dos poucos a preservar essa vibe. Ele tem a fama de manter o espírito da cultura hippie e dar muito espaço para a música alternativa. Mesmo assim, os altos preços cobrados e o controle e vigilância do que ocorre lá dentro não deixa muito espaço para grandes novidades.

Com isso a previsibilidade é a marca dos festivais de música contemporâneos. Eles são uma espécie de parques de diversões para adultos. Aqui no Brasil, festivais como o Lollapalooza atendem
segmentos específicos de consumidores, jovens da classe média branca, com curso médio ou superior, que querem e podem estar num lugar seguro, ou seja, se divertindo como se estivessem nos seus
condomínios.

Tudo muito organizado: uma espécie de parques de diversões para adultos. (Jonatan Oliveira/OGrito!).

Para esse público há vantagens ir a um lugar desses. Tudo é organizado (ou quase), eles comem e bebem o que gostam (hambúrguer, hot dog, batata frita, cerveja gelada), podem fumar um
baseado discretamente sem ninguém importunar, tem lojinhas descoladas, as bandas escolhidas a dedo pelos organizadores cumprem os horários, os artistas defendem causas justas, dizem que amam o Brasil, e todo mundo fica feliz.

No Lollapalooza 2018 os imprevistos foram poucos ou quase nenhum. Foi ruim para Liniker e Os Caramelows, pois quando faltavam três músicas para o final da apresentação, ocorreram problemas técnicos e o show foi interrompido. O que eu vi com os próprios olhos foi um fã maluco que tentou agarrar o vocalista do Red Hot Chili Peppers, mas que foi contido, e uns dois caras alterados, sabe-se lá o motivo, que foram acalmados por seguranças.

Mas não vou mentir que fiquei contente de estar por dois dias seguidos lá no autódromo de Interlagos. Foi legal ver a banda americana LCD Soundsystem fazer um show incrível com sua mistura de rock, electro, house e funk. Também foi bom curtir o show afinado do Rede Hot Chili Peppers focado nos seus antigos sucessos e ouvir os integrantes do Pearl Jam incendiar a multidão com muito rock e guitarras endiabradas.

Uma coisa também a chamar a atenção é a pirotecnia de algumas das apresentações. Nesses grandes festivais de palcos gigantescos, com milhares de espectadores e de transmissão dos shows pela televisão, a performance no palco e os elementos visuais (imagens projetadas, efeitos visuais e iluminação) estabelecem uma diferença que, por vezes, podem dar a impressão de melhor qualidade de um show em relação a outro.

Um exemplo foi o show do Imagine Dragons. A banda usou e abusou de efeitos visuais e o vocalista Dan Reynolds deitou e rolou literalmente no palco jogando seu carisma para o público. Falou de sua depressão superada com a música, ergueu a bandeira LGBT e apoiou a marcha contra a venda de armas nos Estados Unidos. Saiu ovacionado.

Mas, apesar de ter curtido bastante o Lollapalooza, ao deixar o autódromo de Interlagos, a sensação que ficou depois de cada dia foi de ter vivido por algumas horas dentro de um videoclipe gigante com “By the Way”, do Red Hot, ressoando na cabeça e os olhos ainda meio hipnotizados com tantas luzes. Aí lembrei do Rec-Beat aqui no Recife em fevereiro. Teve projeções de imagens incríveis, iluminação bacana (mais simples, claro), mas a sensação após cada dia de shows foi outra.

Tinha emoção envolvida, tinha proximidade física, tinha a força das letras mexendo com a gente pelas ideias que carregavam, tinha a garra dos artistas afirmando seus lugares de voz e uma
interação poderosa entre eles e o público. Nada contra os eventos de mero entretenimento, mas acho muito bom quando eles podem oferecer mais do que isso.

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