A VOLTA PARA CASA DE LOCAL
Série chega ao fim como mais um ótimo exemplar da tradição norte-americana de contar as aventuras de quem bota o pé na estrada
Por Paulo Floro

LOCAL – FIM DA JORNADA
Brian Wood (texto) e Ryan Kelly (arte)
[Devir, 208 págs, R$ 36,50]

Existe certa melancolia nas páginas do segundo e último volume de Local, série em quadrinhos norte-americana que a editora Devir coloca nas livrarias. Escrita por Brian Wood, a HQ encerra um desejo genuinamente americano que é partir em busca de suas origens escondidas. É uma tradição literária daquele país, que Wood e o ilustrador Ryan Kelly souberam explicitar tão bem aqui.

O mote da série, uma saga em doze capítulos publicada no Brasil em dois volumes, é mostrar uma visão dos Estados norte-americanos através da jornada pessoal de Megan McKeenan, uma mulher que decide partir em busca de algo que não sabe bem o que é. O interessante da história é que muitas vezes, Megan deixa de ser protagonista para ser apenas coadjuvante no enredo. Muitas vezes, ela nem mesmo aparece, mas sua presença está sempre lá, seja através de uma carta ou mesmo da lembrança de alguns personagens.

Essa construção narrativa possibilita ao leitor embarcar nas viagens de Local com mais autonomia. Como se não fosse preciso de Megan para explorar aqueles lugares mostrados no livro. Ao mesmo tempo, estamos o tempo inteiro preocupados com Megan e seus dilemas. Aqui, vemos a antes garota, crescer, se tornar uma bem-sucedida mulher do século 21, ao mesmo tempo em que sua família vai entrando numa decadência, com a morte da mãe e os problemas de alcoolismo do irmão.

O final dado para Megan por Wood é algo que chega a ser condescendente. Após percorrer toda a América sem rumo certo, ela volta a uma antiga propriedade da família que estava ocupada por jovens deliquentes. Essa volta às origens pode parecer uma opção simplista no roteiro, mas o que há de mais belo em Local é essa capacidade de demonstrar em imagens e texto a relação das pessoas com os lugares que habitam.

Até chegar ali, Wood e Kelly coloca o leitor numa situação de indignação com os fatos mostrados. Mas a história caminha para uma série de acertos que caminham para um final feliz. Essa proposta de tudo acabar bem no final destrói o toque de realismo que a que a série se propôs no início, mas também mostra que as pessoas, assim como Megan, podem ser felizes com as escolhas que fazem na vida, mesmo que os percalços no caminho sejam árduos.

Local cumpriu bem o papel e entra na lista de obras de autores americanos que falam do cidadão comum que decide botar o pé na estrada atrás de sonhos, aventuras ou mesmo de um acerto consigo mesmo. Megan cria uma empatia tão grande com o leitor, que quase nos incita a fazer o mesmo.

NOTA: 8,0

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