NOVO AR
Rodrigo Amarante acerta em cheio em empreitada com seus novos Hermanos
Por Gabriel Gurman

LITTLE JOY
Little Joy
[Rough Trade, 2008]

Olhando para mais de um ano atrás, era difícil acreditar que talvez aquela fosse a última vez em que se cantasse em voz alta (até demais) algumas das músicas que marcaram o que de melhor ocorreu no rock nacional da primeira década do século 21. Era o fim, ou melhor, a “pausa por tempo indeterminado”, do Los Hermanos. Os shows, contagiantes até o último sorriso, foram substituídos por uma angustia sobre o futuro dos dois vocalistas, guitarristas e “cabeças” do grupo: Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante. Enquanto o primeiro prometia um disco solo, originalmente pensado para voz e violão, Amarante comia pelas beiradas e começava a traçar uma “carreira internacional” com participação no último álbum de Devendra Benhart.

Eis que chegamos em setembro de 2008 e Marcelo Camelo dá início a divulgação daquilo que seria Sou, seu primeiro disco pós-Hermanos. Então, como se não quisesse ficar pra trás, menos de dois meses depois, Amarante lança o debut de seu projeto paralelo, o Little Joy. E o resultado não poderia ser melhor.

Aliás, antes de qualquer análise, basta olhar para a ficha técnica (ou para as fotos de divulgação, para os mais fãs) para ver que chamar o Little Joy de “projeto paralelo de Amarante” é praticamente ufanismo. Muito bem acompanhado pelo rockstar americano (mas com sangue brasileiro) Fabrício Moretti, baterista do The Strokes e de sua namorada, Binki Shapiro , Amarante solta o seu inglês nesta banda que já nasceu grande ou, como gostam de dizer por aí, hype. A gravadora responsável pelo lançamento é a pequena-grande Rough Trade Records e com a produção de Noah Georgeson (parceiro constante de Devendra Benhart), o clima livre, leve e solto faz com que o ouvinte “folk-se” junto. Impossível não se deleitar com o futuro hit “Brand New Start”, segunda música do disco, “Shoulder to Shoulder”ou “Unattainable”, cantada por Shapiro. Ou ainda com a country “How To Hang a Warhol”. E “Don’t Watch Me Dancing”, então?

Apesar de o Little Joy ser “vendido” no exterior como o projeto paralelo do “baterista do Strokes” – apesar de, no caso, ele também se arriscar na guitarra, baixo e piano – é Amarante quem assume as rédeas. Sua voz, tão criticada na época de Los Hermanos se encaixa perfeitamente nas melosas melodias do trio. Seu característico timbre de guitarra, considerado deplorável por cri-críticos brasileiros soa como uma onda (desculpem a breguice). Outro ponto que vale ser ressaltado é a belíssima “Evaporar”, última música do disco, cantada em bom português e que remete instintivamente à…  Marcelo Camelo!! Aliás, se gravada por Camelo, “Evaporar” facilmente seria a melhor canção de seu Sou.

O mais interessante em se ouvir um trabalho de qualidade e, ao mesmo tempo, tão despretensioso como este que Amarante realizou ao lado de seus novos hermanos é poder parar de pensar em rótulos e formatos musicais que, se em um dia são tão inovadores, no outro já foram esquecidos e substituídos por cem novos rótulos e duzentas novas bandas.

NOTA: 9,0

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