Les Mistons (Os Pivetes) foi o segundo curta metragem do vangloriado cineasta francês François Truffaut. O curta pode ser considerado um precursor da Nouvelle Vague, movimento que rompeu com o retrógrado cinema francês da época, abrindo mão do cinema de estúdio, trazendo novos questionamentos e abordagens sobre o amor e erotismo. Há cinqüenta anos, Truffaut já lidava com temas que iriam acompanhar seus futuros filmes, como infância, desejo, mulheres, amor e morte.

Em 23 minutos, o pequeno filme conta a história de cinco meninos que admiravam a estonteante beleza da jovem Bernadette. Como eram muito novos para namorá-la, lhes restou perseguir e atormentar seus amantes. Os meninos travessos seguiam Bernadette e seu namorado, o forasteiro Gerard, para onde quer que fossem. Como forma de vingança ao amor inalcançável, os meninos escreveram por toda a cidade o nome de Bernadette e de Gerard dentro de corações flechados. Era como se a denúncia feita ao amor dos jovens por meio de rabisco nas pontes, muros e árvores, pudessem humilhar o casal perante todos.

Para decepção dos traquinas, a inocente vingança não irritou ninguém. Mas os pivetes não deram tréguas. Continuaram seguindo o casal por todos os lugares, desde uma sessão de cinema até em passeios vespertinos de bicicleta. Todas as terças-feiras eles acompanhavam do outro lado da cerca os jogos de tênis do casal. Sempre juravam que não voltariam e na outra semana lá estavam novamente. O amor, as pernas descobertas e a saia curta de Bernadette eram o principal motivo de tanto apego.

A perseguição infantil só acabou com a trágica notícia da morte de Gerard. Agora não havia porque importuná-la, o sentimento era de pena ao ver a jovem que lhes fez descobrir muitos dos seus mais ocultos sonhos, vestida de preto a caminho de um túmulo.

Trata-se de um filme bem poético. Muitas cenas são externas com várias seqüências montadas com bicicletas. A cidade parece se resumir aos meninos e aos amantes. O narrador é identificado como um daqueles garotos. Ao falar de Bernadette ele recorda: “Guardo uma lembrança dela. A maneira como ela desaparecia nas esquinas com suas saias voando ao vento”. Sem dúvida, Bernadette foi para aqueles meninos a representação do deslumbramento, o despertar do desejo.

Ao que parece, Les Mistons tem algo que remete à infância de seu criador. Não é autobiográfico como “Os incompreendidos”, mas não foge da abordagem de uma infância travessa, rebelde, sem a fiscalização dos pais. A sensualidade e o amor trágico ganham vida através da protagonista. Características que vão permear inúmeras obras de Truffaut. Considerado mestre da Nouvelle Vague, o cineasta propôs um cinema calcado na liberdade em todas as etapas da produção e fez críticas ferrenhas aos dispendiosos e ultrapassados filmes franceses da época. Truffaut morreu em 1984 com um tumor cerebral causado pelo cigarro. Hoje estaria com 75 anos. [Cláudia Vital]

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