O diretor pernambucano Leo Falcão fez sua estréia em longas com o pé direito. Seu trabalho inédito Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade do Recife, documentário adaptado da obra de Gilberto Freyre, foi ovacionado pelo público do Teatro Guararapes, no Centro de Convenções, em Olinda, ontem à noite, no dia de abertura do 12º Cine PE. O filme, de 70 minutos, foi exibido às 23h15 e acompanhado atentamente pelos espectadores.

Ao final da sessão, a platéia se contagiou pelo orgulho pernambucano e a identificação com a estética recifense protagonizando aplausos efusivos. Com a reação calorosa, o longa se credencia como um dos favoritos ao troféu Calunga desta edição.

Apesar do calor humano, a noite foi, no geral, morna. Fora alguns curtas de linha mais experimental, a seleção se mostrou enfadonha. Os melhores curtas exibidos ontem, nos formato digital e em película 35 mm, foram Pugile, de Daniel Solferini, e Até O Sol Raiá, animação pernambucana de Fernando Jorge e Leanndro Amorim. O mais fraco do ciclo foi o longa Simples Mortais (DF), de Mauro Giuntini, com um enredo fraco e sofrível.

Leia abaixo algumas impressões de cada trabalho. Acompanhe a edição especial da cobertura do 12º Cine PE que a equipe da Revista O Grito! está preparando para o final de semana.

Amanda e Monick (André da Costa Pinto/PB) – Curta sobre a vida de dois travestis de Barra de São Miguel, no sertão do Cariri paraibano. O argumento é curioso; e a intenção, louvável: tratar de forma humanizada um tema tabu. Mas esbarra na pouca qualidade técnica e num certo tom ingênuo.

Um Para Um (Erico Rassi/SP) – Manual de “boas” maneiras de como fazer um filme experimental e vanguardista no cinema contemporâneo. Humor negro cortante e pretensioso. Interessante.

Engano (Cavi Borges/RJ) – Uma ligação por engano faz o destino de um homem e uma mulher se cruzarem. O roteiro é simples, despretensioso e filmado em dois longos planos-seqüência. À primeira impressão, parece frívolo, mas aos poucos ganha outros sentidos e reflexões, como o questionamento da solidão urbana e a agitação da vida pós-moderna.

Pajerama (Leonardo Cadaval/SP) – Animação em 3D que mostra um índio em uma viagem pelo tempo, da era pré-cabralina ao centro das megalópoles modernas. A plasticidade das paisagens e personagens, beirando o artificial, tira o brilho criativo do curta.

Pugile (Daniel Solferini/SP) – Um dos melhores curtas da noite, e também o mais chinfroso. Com qualidade técnica e fotografias impecáveis (do mesmo que fez O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia), o trabalho impressiona por mostrar a história de amor fraterno entre dois irmãos, um deles com síndrome de Down, em uma ambiente estéril de ringue, sem ser piegas e sentimentalista. Muito bom.

Até O Sol Raiá (Fernando Jorge e Leandro Amorim/ PE) – Animação em formato de literatura de cordel que remete ao clássico Soldado de Chumbo, de Hans Christian Andersen. É cativante, bonito e bem feito. Arrebatador.

Simples Mortais (Mauro Giuntini/DF) – Personagens atônitos e apáticos perambulam por uma sucessão de cenas clichês e totalmente equivocadas. Como esse filme entrou na seleção da mostra competitiva?

Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade do Recife (Leo Falcão/PE) – Documentário que investiga a multiculturalidade recifense a partir da análise sociológica de Gilberto Freyre, com base em depoimentos de representantes da cena cultural (Lenine, Reginaldo Rossi, Hermila Guedes, entre outros) e anônimos. Nostálgico, afetivo e com edição ágil. Vale a pena ver.

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