Chico Buarque: novo best-seller é autobiografia sem interlocutor. (Foto: Divulgação)

OS DERRAMES DA MEMÓRIA
Chico Buarque, em seu novo romance Leite Derramado constrói tragicômica biografia imaginária
Por Gisele Toassa, especial para A Revista Grito!

LEITE DERRAMADO
Chico Buarque
[Companhia das Letras, 200 págs, R$ 36]

Um homem centenário jaz num leito de hospital, à mercê de imagens envoltas numa nuvem de morfina. Vivenciamos a confusão sem trégua de Eulálio Montenegro d´Assumpção, o protagonista. Encarcerados no monólogo de quase 200 páginas, adquirimos, aos pouquinhos, conhecimento de uma vida marcada por mistérios romântico-políticos que evoluem aos trancos e barrancos nos congestionados neurônios do velhinho.

Em 1900 e lá vai fumaça, numa família em que se açoitam os criados para desopilar o fígado, desenvolve-se um amor de cozinha. Matilde não é negra, nem loira; adora o maxixe; exibe seu belo corpo à beira da praia e não curte vestidos de manga comprida. A crise de 1929, o assassinato do patriarca e o sumiço da jovem iniciam a tragicômica decadência do protagonista. Sua longa trajetória é desfiada da cama de uma enfermaria coletiva na qual os flagelos são mais humildes e sumários. É nessa terra sem nome que o velhinho adverte: o “p” de “Assumpção” é mudo (!). Insubordinado leitor, lembre-se da intimidade entre o avô do Sr. Assumpção e Dom Pedro II. Negrinho, reconheça os pendores abolicionistas daquele habitué da Corte Brasileira. Plebeu, recorde-se de que o pai do ilustre convalescente era senador da república. Um grito de “não fode vovô, conta outra” resume, lá pelo fim do livro, o humor dos adoentados ouvintes. Eulálio e Hilário dão um bom trocadilho e o texto progride como uma autobiografia sem escriba nem interlocutor.

Matilde já figura ao lado de Capitu e Madalena (de São Bernardo) e seu misterioso desaparecimento é tanto causa quanto anestesia para a queda desse homem que pede brioches quando não há pão. Eulálio, na imobilidade do aristocrata, não aprendeu os saberes da malandragem que se infiltram, aos pouquinhos, entre seus descendentes. Também sobre Matilde o conhecimento é pouco e, além disso, hipócrita. Os sogros se contentam em lembrar-lhe as origens meio bastardas da filha, e, sem mais nem porquês, dão-lhe as costas. O doutor Blaubaum ratifica a internação da jovem num manicômio através de umas tantas cartas obscuras. O monólogo revê hipóteses comoventes, longas e ressentidas, ataduras precárias numa ferida com mais de 80 anos. Antes uma mãe extremosa, Matilde vai se recusando a tomar sua parte de nutriz para perpetuar os Assumpção. No Leite Derramado da moça sobre a pia, sintetiza-se a irreversibilidade da história que engole Eulálio através de tantas bocas. Os obsessivos instantâneos de Matilde escravizam suas lembranças, como uma aliteração visual na qual o desejo desdenha da verdade, repetição de casos antigos “porém jamais com a mesma precisão, porque cada lembrança já é um arremedo da lembrança anterior”.

Como em Benjamin (1995), Chico domina a arte da perspectiva. As frases, curtas, têm cadência musical, a despeito da quantidade de personagens próprios da crônica social, numa unidade estilística que se assemelha à Ópera do Malandro (1979). Leite Derramado é mistura sui generis de expressões francesas, do português das gramáticas e do fraseado popularesco que transcende as classes sociais desde que os Assumpção eram poderosos. A mistura de traços nobres com os pobres, que Eulálio identifica na sua descendência, forma também a linguagem de Chico. Os lampejos de escracho inesperado amenizam um relato permeado por preconceitos e humilhações de classe, raça e gênero, onde a violência da ditadura militar não deixa de fazer sua sinistra ponta. Temos o sentimento de estar no Brasil mesmo, aquele país que mudou tão pouco desde as Memórias de um Sargento de Milícias, no qual trambique é trabalho, decência é paetê, religiosidade é mato, raça é classe, os comportamentos conflitam com as idéias e o riso é um dos poucos remédios disponíveis para todos.

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