Autora de "um corpo negro", Prates fala de desamparo e invisibilidade no Brasil de hoje, mas também propõe que o negro resgate sua humanidade perdida e se levante dos escombros de cabeça erguida.

Lubi Prates tem um currículo invejável: publicou quatro livros, fundou a nosotros, editorial e edita a revista literária Parêntese. Atualmente, divide ainda o seu tempo entre o mestrado em Psicologia do Desenvolvimento na USP e ações que combatem a invisibilidade de mulheres negros, como a organização de festivais literários e as aulas no minicurso “Quatro séculos de poetAs silenciadas”, onde resgata poetas que foram esquecidas e silenciadas por estarem à margem do cânone.

Seu livro mais recente, um corpo negro (nosotros, editorial) foi publicado no final do ano passado em uma já esgotada tiragem limitada de 500 exemplares. Não é para menos: na opinião desta que vos fala, a obra é uma das melhores e mais importantes que li nos últimos tempos.

Os poemas de denúncia escritos por Lubi Prates parecem estar sempre a falar de algo que está acontecendo aqui e agora. Desde que li, todos os dias acontece uma situação revoltante que me leva de volta ao livro.

A primeira vez foi no dia seguinte: um navio que partiu do Brasil levando para os Estados Unidos refugiados congoleses que estavam passando fome aqui, naufragou, matando dezenas de pessoas. Alguns desses congoleses trabalhavam no país como ambulantes e tiveram sua mercadoria apreendida pela polícia. Pessoas desamparadas, maltratadas na terra onde impera o mito da democracia racial. Na mesma hora, me lembrei dos versos de “condição: imigrante”:

 

desde que cheguei
um cão me segue
&
não me deixa
frequentar os lugares badalados
não me deixa
usar um dialeto diferente do que há aqui
guardei minhas gírias no fundo da mala
ele rosna

(…)

um país que te rosna
uma cidade que te rosna
ruas que te rosnam:
como um cão selvagem

 

Recentemente, mais dor.  Dessa vez, jovens negros vítimas do racismo sistêmico. Mais uma vez, Lubi Prates já havia alertado: “e ainda que / eu trouxesse / para este país / meus documentos / meu diploma / todos os livros que li / meus aparelhos eletrônicos ou / minhas melhores calcinhas / só veriam / meu corpo / um corpo / negro”, diz ela em “para este país”o poema mais pungente e mais visceral da coletânea. A citação das últimas palavras ditas por Marcos Vinícius da Silva, “Ele não me viu com a roupa da escola, mãe?”, assassinado por um policial militar no Rio de Janeiro, funciona como uma estaca no coração e escancara, sem dó, a realidade do que é ser negro no Brasil.

E há muito mais. um corpo negro é um livro necessário que, sem oferecer nenhum alívio, fala do desamparo, da violência, da inferioridade. Mas não há lamentação: o que os poemas de Lubi Prates propõem é que o negro resgate sua humanidade perdida e se levante dos escombros de cabeça erguida.

Por e-mail, a autora conversou com O Grito! sobre o livro e os temas que o atravessam.

Você poderia falar um pouco sobre como foi o seu encontro com a literatura? Quando decidiu que queria se tornar escritora e como foi a descoberta de que a poesia era o seu modo de expressão?
Literatura sempre foi minha matéria preferida no colégio, eu amava estudar sobre os movimentos literários, mas aquela realidade me parecia muito distante. Homens brancos e burgueses, velhinhos ou mortos, me dizendo como era a vida, quando as minhas experiências eram outras. Eu não encontrei o verdadeiro prazer na literatura durante os estudos escolares. Encontrei porque via minha irmã devorar livros, um atrás do outro, e quis entender que mágica era aquela. Então, fui buscar livros que me colocassem naquele estado e foi a poesia. Quanto mais eu lia, mais queria ler. Mais queria começar a escrever. E comecei.

O que te inspira a escrever? Existe alguma situação ou algum sentimento que funciona como gatilho para a criação?
Os poemas chegam a mim. Um monte de gente defende a ideia de que precisamos ter uma rotina de escrita, um horário, etc, e eu acredito profundamente que isso deve ser a melhor maneira para algumas pessoas, mas, para mim, não (risos).

Geralmente, a ideia do poema chega em uma imagem ou um verso e eu trabalho a partir disso. Escrevo no caderninho que carrego na bolsa, no bloco de notas do celular, gravo áudios com as ideias. Sento e escrevo, depois que eu levanto, é difícil que eu mude o poema.

Li em uma entrevista que você se sente ambivalente em relação ao seu primeiro livro de poemas, por ter sido escrito quando era muito jovem. Como você avalia seu desenvolvimento como poeta? O que mudou no seu processo de escrita?
Me sinto ambivalente não apenas sobre o primeiro livro,  coração na boca, mas também sobre o segundo, triz. E não apenas por eu ser “jovem”, são poemas de 2006 a 2016, escritos quando eu tinha entre 20 e 30 anos. Mas a questão principal, para mim, é como eu refletia nos meus poemas o que eu pensava que seria aceito: ou seja, uma escrita embranquecida. Eu frequentava a literatura, já era feminista e lutava por espaço para as mulheres na literatura, tinha como referencias muitas poetAs, mas eu tinha letramento racial.

Na apresentação de “Um corpo negro” você diz que tornar-se negro é um processo sem antes e sem depois. O que quer dizer?
Quero dizer que é um processo que acontece no aqui e agora, que acontece o tempo inteiro e é sem fim.

Eu li o seu livro um pouco depois de assistir ao webdocumentário da youtuber Nátaly Neri, “Negritudes Brasileiras”, que, entre outras coisas, traz depoimentos de mulheres contando como foi que se descobriram enquanto negras. Fiquei me perguntando se houve algum momento em sua vida em que você também se descobriu negra. Como foi essa questão para você?
Eu me “descobri” como negra através da Literatura porque eu não me sentia pertencente, nos saraus, nos debates, em qualquer evento e eu achava que era apenas uma questão de classe social. A medida que eu fui promovendo ações que questionavam o cânone, que davam visibilidade para poetAs, e fui estudando profundamente o feminismo, percebi que meu não pertencimento era racial.

Outro momento marcante que relaciono à leitura de “Um corpo negro” é que no dia seguinte eu vi uma notícia triste: congoleses que fugiam da crise no Brasil morrem em naufrágio na Colômbia . Eram refugiados da República Democrática do Congo que perderam emprego aqui, tiveram mercadoria confiscada pela polícia e decidiram partir para os EUA, para não morrer de fome. Na mesma hora, me lembrei do poema condição: imigrante, que fala sobre uma cidade que maltrata os que se refugiam nela. É o tipo de situação que desfaz completamente o mito do brasileiro cordial. Queria saber como você vê essa questão dos refugiados no Brasil e se houve alguma situação específica que inspirou o poema.
Minha percepção é de que o negro em diáspora vai ser sempre um imigrante, um “estranho”, mesmo que viva no país de seu nascimento porque vivemos numa sociedade estruturada na dominação do outro. E o outro pro colonizador, pro branco, é o negro.

Durante meu processo de descoberta racial, eu vivia em Curitiba e é sobre essa cidade que eu falo, é sobre o Brasil que eu falo. Hoje, eu não vivo mais como se não pertencesse a lugar nenhum, eu vivo sabendo que eu posso pertencer a todos os lugares. Todos.

Um dos poemas que considero mais impactantes é o “para este país”. Não estava preparada para a citação de Marcos Vinícius da Silva e, assim que li, comecei a chorar. Pra mim, esse poema é um grito que denuncia o racismo institucional no Brasil. Que lugar você acredita que o negro ocupa em nossa sociedade?
É interessante essa pergunta, principalmente, porque você usa o verbo “ocupar” e eu acredito que o negro ocupa e pode ocupar todos os lugares, inclusive, lugares de poder, de visibilidade. Mas, os lugares sociais nos quais os negros foram inseridos, no Brasil, desde o tráfico transatlântico, são de inferioridade em vários níveis: intelectual, econômico, político, emocional, etc. Tivemos, nas Américas, a escravidão que perdurou por mais tempo e que terminou recentemente, há 130 anos (estamos na terceira, quarta geração de negros livres). Seria ingênuo pensar que não há resquícios da escravidão na sociedade brasileira. Embora haja ascensão social dos negros, estamos longe de termos igualdade.

Você se dedica a combater a invisibilidade de mulheres e negros. Pode contar um pouco sobre seu trabalho nesse campo, para quem ainda não o conhece?
Eu sou mulher negra. Então, tudo que faço eu considero raça, gênero e classe. Me importo que mulheres e negros saibam que podem fazer o que desejarem. Eu trabalho isso dentro da literatura, escrevendo a partir da minha identidade, que é a identidade de muitos, mas também editando e traduzindo mulheres e negros, organizando festivais literários específicos, ministrando oficinas de escrita para esses públicos.

Como você vê o papel da poesia na luta pela visibilidade negra e feminista? Pergunto porque me parece que no Brasil ainda se lê pouca poesia. Como fazer para chegar desmistificar a crença de que poesia é para poucos e chegar nos leitores?
Tenho a impressão de que quanto mais pessoas (negros, indígenas, asiáticos, lgbtq+, periféricos, etc) escreverem e publicarem mais fácil será para que os leitores se identifiquem com o que é produzido. Acho que estamos no caminho :)

Você comentou que não é possível uma luta feminista por igualdade que não considere questões de raça e classe. Porém, minha percepção é a de que as mulheres negras e mulheres de origem indígena e asiática ainda ficam à margem do movimento feminista. Você concorda? Se sim, o que você acha que pode ser feito para reverter esse quadro?
Claro que concordo! Infelizmente, o movimento feminista, de forma geral, é racista e não considera as questões específicas das mulheres não-brancas. Acho que o que podemos fazer é lutar, de todas as maneiras, pela nossa liberdade – e não aguardar que ela nos seja “dada” por mulheres brancas e/ou homens.

Por fim, você poderia citar as escritoras negras que estão entre as suas influências?
Para minha felicidade, estou rodeada de mulheres negras que são referências literárias e de vida: Conceição Evaristo, Miriam Alves, Lívia Natália, Neide Almeida, Daisy Serena, tati nascimento, Bárbara Esmênia, Natasha Felix, Mariana Correia Santos, Viviane Nogueira, Mayara Barbosa, Ana Meira, Cátia Luciana, Zainne Lima, Nina Rizzi, Jarid Arraes. Pra citar só algumas brasileiras. Afinal, não falta mulheres negras escrevendo, falta ampliação no nosso olhar para buscarmos novas referências.

Leia o poema para este país:

para este país

para este país
eu traria

os documentos que me tornam gente
os documentos que comprovam: eu existo
parece bobagem, mas aqui
eu ainda não tenho esta certeza: existo.

para este país
eu traria

meu diploma os livros que eu li
minha caixa de fotografias
meus aparelhos eletrônicos
minhas melhores calcinhas

para este país
eu traria
meu corpo

para este país
eu traria todas essas coisas
& mais, mas

não me permitiram malas

: o espaço era pequeno demais

aquele navio poderia afundar
aquele avião poderia partir-se

com o peso que tem uma vida.

para este país
eu trouxe

a cor da minha pele
meu cabelo crespo
meu idioma           materno
minhas comidas preferidas
na memória da minha língua

para este país
eu trouxe

meus orixás
sobre a minha cabeça
toda minha árvore genealógica
antepassados, as raízes

para este país
eu trouxe todas essas coisas
& mais

: ninguém notou,
mas minha mala pesa tanto.

Ele não me viu com a roupa da escola, mãe?

Marcos Vinícius da Silva, 14 anos,

assassinado pela Polícia Militar do Rio de Janeiro

e ainda que
eu trouxesse

para este país

meus documentos
meu diploma
todos os livros que li
meus aparelhos eletrônicos ou
minhas melhores calcinhas

só veriam
meu corpo

um corpo
negro.

um corpo negro conta, poeticamente, o processo de reconhecimento como negra, da autora, a partir do que se manifesta fisicamente no corpo: pele, cabelo, boca e nariz, até as estórias que ouve sobre seus ancestrais e as próprias experiências desta identidade, desconstruindo a representação do negro, ainda atual, como alguém inferior. a história de Lubi Prates é a história de muitos.
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