Norman Fucking Rockwell!, novo disco da artista mostra um domínio incrível de uma imagem construída por quase uma década

retorna madura e se torna persona fora da curva no cenário pop atual
NOTA9

Quando Lana Del Rey surgiu no mercado mainstream com seu disco de estreia Born To Die (2012), a cantora foi recebida com diversas críticas negativas. Ainda que a faixa-título do álbum e “Video Games” tenham arrancado dos críticos bons elogios, o restante do registro mostrou-se um tanto decepcionante em comparação a grandiosidade dessas duas faixas. Lana, infelizmente, foi alvo de muitos comentários injustos acerca do seu trabalho, porém um deles sintetiza grande parte do início da carreira da estadunidense: a de que sua imagem era maior do que sua própria música.

E isso é bem verdade. Em meio a um catálogo de músicas lançadas e rapidamente esquecidas pela cantora, Del Rey sempre explorou muito bem a estética da mulher exacerbadamente apaixonada, entregue a relacionamentos problemáticos, melancólica e pintada aos moldes da Hollywood das décadas de 1960 e 1970. Uma mistura da atmosfera vintage proporcionada pela sétima arte com a poética macilenta do ultrarromantismo.

Entre erros e acertos, a cantora foi lentamente aperfeiçoando-se e deixando nítido ao público o seu refinado dote musical por detrás da imagem retrô que vinha sustentando. Norman Fucking Rockwell, novo disco de inéditas de Del Rey, é a solidificação desse percurso e o domínio sobre essa imagem que ela construiu no imaginário pop. Dentre a discografia da artista, este, com certeza, é o trabalho mais assertivo e coeso que ela já entregou.

Em seu longa-metragem compactado em forma de disco, que beira a quase 1h e 10min de audição, Lana livra-se de todos os excessos e recursos desnecessários, que tanto prejudicaram suas obras anteriores. Neste disco, são os arranjos de cordas e o piano que conduzem as melodias límpidas e desalentadas, que embalam os versos repletos da típica entrega desmedida da compositora às paixões arrebatadoras.

O disco é marcado pelo completo recolhimento da artista para confessar experiências bastante similares e presentes nos registros anteriores, mas que, aqui, soam mais verossímeis. Não é difícil se apegar aos primeiros segundos da faixa-título e que abre o novo trabalho. A imponência orquestrada de Lana é deixada de lado para dar espaço a uma canção mais econômica, em que o piano acompanha os vocais cristalinos da cantora, enquanto pequenas inserções de cordas e metais adornam o refrão.

São elementos que surgem de forma branda, quase despercebidos, mas que enriquecem a audição. “Mariners Apartment Complex” e “Venice Bitch”, ambas singles de pré-divulgação, seguem o mesmo direcionamento. A atmosfera acústica da primeira reforça a proposta contida da cantora e, na segunda, Lana resolver estabelecer um belo dialogo com as guitarras psicodélicas. Os quase 10 minutos de “Venice Bitch” iniciam como um alento aos ouvidos, mas surpreende ao se encaminhar para um caleidoscópio lisérgico de riffs bem executados.

As demais canções conseguem manter-se coesas com as faixas anteriores. Mesmo com a proposta de arranjos econômicos, Lana não deixa de entoar a sua típica narrativa sobre as relações amoras. A entrega ao um amor inseguro, fugaz ou doloroso. “Amor, queria que você me abraçasse ou dissesse que é meu/ Mas isso está me matando lentamente”, canta em “Fuck It I Love You”. Em “Cinnamon Girl”, os versos são de repleta solidão e abandono. “Há coisas que eu quero te dizer / Mas vou apenas deixar você partir”. E não seria Lana se não houvesse linhas poéticas nas quais a cantora registra sua inclinação aos relacionamentos de teor nada saudável. “Se ele é um assassino em série, então o que de pior / Pode acontecer a uma garota que já está machucada? / Eu já estou machucada”.

Se comparado a tudo que cantora já entregou em seus anos de carreira, Norman Fucking Rockwell! provavelmente se aproxima mais do ótimo Ultraviolence (2014). Voltado para uma sonoridade menos pop e com pouquíssimas inserções eletrônicas, assim como no trabalho lançado em 2014, o novo registro é mais orgânico, de contornos mais palpáveis e menos maquiado por filtros, livrando-se de reproduzir a estética plastificada da Hollywood do século passado.

Lana Del Rey consagrou-se um importante nome para renovação da música pop e figura como uma das compositoras mais talentosas de sua geração. Enquanto os charts do mundo todo estavam voltados para o pop chiclete e dançante, Lana conseguiu chamar atenção para outra vertente no gênero, o que possibilitou abrir caminhos no mainstream para artistas que, hoje, bebem de fontes similares a Del Rey.

Assim, após sete anos reafirmando-se no mercado fonográfico, Norman Fucking Rockwell! pode ser considerado o certificado da importante relevância da Lana para música pop e alternativa deste século.

LANA DEL REY
Norman Fucking Rockwell!
[Polydor / Interscope, 2019]
Produtores: Jack Antonoff; Rick Nowels

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