Ladytron (Foto: Stephane Gallois/ Divulgação)

MAIS COR NO MUNDO BICROMÁTICO DO LADYTRON
Banda ícone do electropop desta década se reencontra com o início da carreira
Por Paulo Floro

LADYTRON
Velocifero
[Nettwerk, 2008]

O Ladytron é uma típica banda dos anos 2000: fetichizada, revisionista. Sua trajetória mostra uma forte preocupação com a imagem e com as referências que passa na mensagem, tanto na música quanto na indumentária, na “performance”. Incluídos no movimento electroclash – uma vertente comercial do electro industrial que povoou os clubes no início desta década – o quarteto se libertou do modismo e conseguiu tornar visíveis suas idéias. E é com Velocifero, quarto álbum de estúdio, que eles conseguem o resultado mais bem acabado.

Todos os conceitos estão explícitos neste disco, entre eles o visual nazi e a paixão por sintetizadores. Depois do flerte com o rock’n roll em Witching Hour, o álbum anterior, o grupo britânico volta a apostar num pop com inflexões dark, mais industrial e robótico. E robótico era outra referência cara ao Ladytron. Quando surgiu, no final dos anos 1990, a banda se apresentava como autômatos kraftwerkianos, seres replicados, inumanos. Suas primeiras apresentações e videoclipes traduzem bem isto. Vestindo uma espécie de uniforme padrão, eles dialogavam com a sociedade dos robôs do Kraftwerk e também com futuro paranóico de Orwell. 604, o primeiro disco, tinha claras influências de Kraftwerk, Cluster e Bowie e o fetiche futurista dos mesmos. Da capa do disco às composições frias, a banda parecia personagem de uma obra de ficção ambientado num mundo totalitário. Neste ponto, eles até resgatam outra banda que também nutria um flerte estético com o fascismo, o Joy Division. O uniforme cinza-escuro remete ao soturno Ian Curtis seduzindo as massas com sua dança afetada e epiléptica.

Depois de Light & Magic, seu disco de maior sucesso – estão lá hits obrigatórios, como “Evil”, “Seventeen” e “Blue Jeans” – o Ladytron encontra a doçura. Neste surto otimista, eles parem o álbum mais pop da carreira, The Withing Hour (2005). Se distanciando da cena eletrônica, eles também abandonam o monocromatismo. Nesta nova paleta de cores, sons e sensações, a banda deu uma guinada conceitual e sonora, e muitos constataram maior sofisticação nas músicas, já que, sem o esquematismo dos discos anteriores, eles puderam se soltar mais.

Psicodelia bicromática
Em Velocifero, a banda retoma o projeto do início de carreira, sem que para isso voltassem a encarnar os personagens autômatos e insensíveis. No avançar tecnológico, eles agora podem ser uma forma de inteligência artificial, mais sofisticados e livres. O som volta a ser ditado pelo sintetizador e eles estão mais próximos do electro-industrial de antes. A própria capa do álbum é uma possivel alusão a isso. Com cores que ameaçam se esconder, o quarteto aparece numa imagem psicodélica em preto e branco.

A banda ainda continua apostando em equipamentos antigos (quem não lembra a clássica história de que a banda usou um programa-teste de edição de áudio para gravar o primeiro disco?), mas a produção do italiano Alessandro Cortini (um dos principais parceiros do Nine Inch Nails) traz outras nuances para as faixas. Quem também assina o álbum é o produtor Vicarious Bliss, do selo Ed Banger. Em “Ghosts”, primeiro single, temos até mesmo um background no som, algo quase inexistente nos primeiros discos. Outra novidade são as músicas cantadas em húngaro (vale lembrar que parte dos integrantes são de Sofia, na Hungria).

Mais dançantes, Velocifero traz uma sequência matadora de hits-catarse, começando com a já citada “Ghosts”, indo até “Runaway”. Em todas, doses de sarcasmo, ironia e certo pessimismo. Como não voltaram totalmente com os corações frios, há espaço até para melancolia, como “Tomorrow” e sua verve indie-rock e “Versus”, que fala de arrependimento e dualidade, algo que fez muito bem para a banda. Ao promover a junção de um fase pop de muito sucesso com o passado mais conceitual, o Ladytron encontrou sua configuração ideal.

NOTA: 8,5

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