Com ótimo instrumental percussivo, Karina traz uma poética punk e política em um trabalho complexo e rico, o melhor de sua carreira até agora

faz um disco pesado para esses tempos loucos
NOTA9

Um senso de urgência permeia Desmanche, quarto disco da pernambucana nascida na Bahia Karina Buhr. Instigada pelo estado atual das coisas no país, o álbum é pontuado pela estética punk aliada ao forte conjunto percussivo que já é conhecido no trabalho de Karina. Tem tambor, ganzá, alfaias e congas, tudo ressoando para dar um revide sonoro a tudo que está acontecendo.

Karina Buhr fez um disco para esses tempos loucos, mas sua reflexão é complexa e cheia de nuances. Se por um lado temos faixas que soam como um grito para extravasar (caso de “Sangue Frio“, “A Casa Caiu” e “Temperos Destruidores”, que saíram antes como singles), há também faixas que remetem a sentimentos como perplexidade e confusão, que fazem parte desse combo emocional em voga no Brasil, caso de “Chão de Estrelas” e “Nem Nada”.

Aos batuques, Karina soma a fúria das guitarras de Régis Damasceno (do Cidadão Instigado), que, ao lado dela, também é produtor do disco. Mas há também momentos em que o disco desacelera, porém sem deixar de ser incisivo, com letras duras. As ótimas “Amora” e “Filme de Terror”, com participação de Max B.O. são bons exemplos. Isaar, ex-companheira no Cumadre Fulozinha participa da divertida “Vida Boa É a do Atrasado”, que encerra o trabalho.

Se no anterior, Selvática, Karina estava trazendo questões feministas, aqui o debate está muito pautado pela política e as violências que atravessam os discursos do poder instituído. As letras também abordam muito do desmonte do que foi conquistado: “estamos oferecendo um exército que atravessa tudo”, canta ela em “Temperos Destruidores”. Karina Buhr é exímia na escrita e faz incríveis jogos de palavras neste disco.

Em seu melhor disco até agora, Karina Buhr fez um disco político e urgente, porém com subjetividade para tratar das tensões políticas de hoje. A proposta punk é muito gritante aqui (e remete aos shows explosivos da cantora), porém o apelo pop também é muito forte, o que faz da sonoridade de Buhr algo bastante peculiar no cenário brasileiro. Com certeza um dos melhores discos deste ano. Ao menos, o mais necessário.

 

KARINA BUHR
Desmanche
[Independente, 2019]

Sem mais artigos