KARATE KID RENOVADO PARA OS NOVOS TEMPOS
Projeto de empreendedorismo de Will Smith para fazer de seu filho um astro, remake traz novas ideias para o clássico das Sessões da Tarde

Por André Azenha
Colaboração para a Revista O Grito!

Quando se falou na produção de uma refilmagem do clássico Karatê Kid, que em 2009 completou 25 anos de seu lançamento, muita gente ficou desconfiada. Afinal, para os fãs, fazer uma nova versão da mítica história de Mr. Miyagi e Daniel-San, interpretados originalmente pelo falecido Pat Morita e por Ralph Macchio, seria mexer em solo sagrado. Grande parte da desconfiança aconteceu, principalmente, em virtude dos nomes envolvidos no projeto: o astro Will Smith como produtor (como se ele não fosse competente o bastante para fazer um bom trabalho) e seu filho Jaden (com quem Will atuou no drama À Procura da Felicidade) na pele do protagonista. E a nova história seria ambientada em Pequim.

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Mas os fãs podem se acalmar. Karatê Kid, o remake, respeita a trama original e a atualiza para a nova geração. A história, em si, é a mesma. Garoto (Dre, interpretado por Jaden) muda-se com a mãe (Taraji P. Henson). Em seu novo habitat, se apaixona por uma menina do colégio e vira alvo dos valentões da escola, que frequentam uma academia de artes marciais, onde o professor ensina os aprendizes a não terem piedade com o adversário. Numa das ocasiões em que tenta escapar dos socos e chutes dos colegas, Dre é salvo pelo encanador do bairro, Mr. Han (Jackie Chan), que se revela um mestre do kung fu. Ambos fazem um acordo com o sensei mau-caráter: seus alunos deixarão o garoto norte-americano em paz até o torneio municipal de kung fu, o que possibilitará a Dre aprender a arte marcial com Mr. Han, se preparar para a competição e tentar ganhar o respeito dos algozes.

Refilmar Karatê Kid foi uma ideia de Will Smith – que assina a produção ao lado da esposa, Jada Pinkett – com o claro objetivo de tornar o filho do casal um astro infantil. E Jaden, que no início parece meio descolado, se apropria do personagem durante a trama e mostra ter herdado parte do carisma do pai e treinado bastante para as cenas de combate. Além disso, mantém com Jackie Chan aquilo que fez o longa de 1984 dar certo: a química entre aluno e mestre.

A amizade que surge entre Dre e Mr. Han jamais soa falsa. Muito em virtude também do talento do ator oriental, que já provara sua versatilidade no drama O Massacre no Bairro Chinês, e aqui transita com tranquilidade por diferentes gêneros, da comédia ao drama (atenção para a cena em que ele está deprimido e alcoolizado) e, claro, a ação. A sequencia em que luta, sozinho, contra vários garotos e consegue rendê-los sem golpeá-los, remete a seus antigos trabalhos, famosos pelas coreografias criativas nas cenas de artes marciais.

Já o elenco coadjuvante não fica atrás. Taraji P. Henson (indicada ao Oscar por O Curioso Caso de Benjamin Button) tem mais espaço em cena do que Randee Heller teve no filme original, no papel de mãe do protagonista, uma mulher que precisa transmitir segurança ao filho numa fase difícil da vida deles. Os novatos Wenwen Han e Zhenwei Wang se saem bem respectivamente como o interesse romântico de Dre, e o rival, garoto mimado que se exibe para os próprios colegas. E Rongguang Yu nos passa uma sensação de impiedade que não encontrávamos na primeira versão do personagem, o professor maligno, encarnado anteriormente por Martin Klove.

O diretor holandês Harald Zwart (Que Mulher é Essa?) soube utilizar as qualidades de cada ator e os belos cenários chineses (Muralha, Praça da Paz Celestial, Cidade Proibida) em prol da trama, dando a ela, inclusive, um quê exótico, de mistério, que deixa o espectador com vontade de saber mais sobre os costumes e origens chineses – aliás, o filme é um ótimo veículo de divulgação da China, ao mostrar, com admiração, seus principais pontos turísticos. E filmou o torneio de kung fu com câmera na mão, dando um ar mais realista às lutas.

Há quem possa reclamar das mudanças da refilmagem em relação ao original. A troca de ambientação (antes, a mudança de mãe e filho era de cidade, e não de país), a idade dos garotos (Ralph Macchio já tinha vinte e tantos anos em 1984 quando encarnou Daniel-San e Jaden nem entrou na adolescência), e talvez aquela que tenha causado mais discussão – saiu o karatê (que é citado apenas numa passagem) para dar lugar ao kung fu. O título do longa na China, traduzido para o português, é algo como Sonho de Kung fu.

Mas se em outros remakes os realizadores renderam-se à preguiça e praticamente lançaram filmes iguais aos respectivos originais (alguns, como O Olho do Mal, mudaram somente o elenco, repetindo cena a cena), em “Karatê Kid” encontramos uma refilmagem na acepção da palavra, que traduz uma história que marcou a infância de tanta gente duas décadas e meia atrás para a garotada atual. Praticamente passou despercebido, mas o filme mescla, em certa parte, os dois primeiros Karatê Kid. Para quem não lembra, Karatê Kid 2 – A Hora da Verdade Continua (1986), levava Daniel Larusso e Miyagi ao Oriente, mais exatamente ao Japão, onde o rapaz se apaixona por uma linda garota local.

O longa não deverá ser levado a sério pela crítica “séria”, por trata-se de um veículo para o público teen, porém é um dos melhores remakes já feitos, a altura, guardadas as diferenças de gênero, de O Chamado. Não à toa, rendeu US$ 200 milhões nas bilheterias dos EUA, quase quatro vezes o valor de seu orçamento. Grande mérito se levarmos em conta que o filme tem metragem maior que as habituais em produções congêneres.

Já dá para imaginar a garotada brincando no colégio, assim como acontecia duas décadas atrás. Mas se naquela época queríamos ser o Daniel e conquistar a Ali (vivida pela então novata Elizabeth Shue), agora a molecada se passará por Dre e tentará arrebatar os sentimentos de Meiying.

KARATÊ KID
Harald Zwart
[The Karate Kid, EUA / China, 2010]

NOTA: 7,0

André Azenha é editor do CineZen

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