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DOÇURA AFIADA
Bem no estilinho indie movie Juno agrada pela história repleta de realidade, bom humor e ousadia narrativa
Por Fernando de Albuquerque

Uma gravidez inesperada. Dois jovens americanos de 16 anos. Um colégio tipicamente ianque. Pessoas convencionais versus uma família de comercial de margarina. Questionamentos nada originais, uma fórmula bem antiga e desinteressante, afinal tudo já foi dito. Juno (2007), de Jason Reitman, tem todos os ingredientes para ser um filme óbvio, mas definitivamente (!) não é. O que o torna diferente, por mais irônico que isso possa parecer, é a originalidade de seu roteiro, o iconismo de sua composição visual e a própria estrutura da narrativa fílmica.

Há muito que elogiar em Juno. E o que mais chama atenção é que não há nenhum ator que não esteja bem em seu papel. Com destaque para a protagonista, que passa a quantidade certa de fragilidade e confiança, mostrando-se eficiente no meio-termo entre menina e mulher – alguém em busca de saber o que é. A ótima construção dessa personagem se deve, além do texto, ao brilho da belíssima Ellen Page.

Juno aparece como uma menina repleta de boas qualidades o que pode soar como uma espécie de pastiche das espertas Lily Allen e Kate Nash juntas. Ela reflete toda uma geração que cresce lado-a-lado à laptops, softwares de criação musical. Uma espécie de geração photoshop que solavanca as espinhas com mouse, deixa os seios maiores e as curvas mais sensuais com ferramentas semelhantes.

Em outro pólo, a afetada Jennifer Garner, que interpreta a obsessiva Vanessa Loring, finalmente provou que de fato tem talento enquanto atriz e justificou os filmes do currículo com uma interpretação onde a obsessão salta aos olhos. Ela faz o par perfeito ao lado de Mark Loring, incorporado por Jason Bateman, que vive numa constante crise de identidade cultural e em choque com o padrão “Margarina Qualy” de vida. Diferente de outros filmes, que cultuam essa estrutura familiar positivista (bem incrustada com o ideário de Auguste Comte), Juno desmistifica a ordem e dá aos espectadores a saída necessária da desordem como a principal válvula de escape para uma vida repleta de compromissos.

Outro ponto positivo é que o filme mergulha fundo nas características e sentimentos de cada personagem. Além do casal Vanessa e Mark, é possível acompanhar os perfis dos responsáveis por Juno, seu pai Mac e sua madrasta Bren. Ambos incorporam a modernidade de seu ideário com a pós-modernidade do contexto em que vivem, com a naturalidade de nossos próprios pais. E aqui os atores J.K. Simmons e Allison Janney conseguem dar um tom bem visceral ao choque de uma gravidez precoce, à necessidade de fazer com que os filhos encarem a realidade de frente.

A amiga de Juno, interpretada por Olivia Thirlby, Leah, dá um “tempero” à parte já que a cada aparição da personagem é extremamente parecida com a vida real de uma adolescente. Ela mais se assemelha à uma Britney no cio que acabou de ler Madame Bovary.

Tudo isso entrecortado por uma trilha sonora belíssima, que dá um sentido indie à um longa tipicamente indie. É a música que dá a “liga” ao relacionamento de Juno e Mark, um compositor de jingles fã de Melvins e Sonic Youth. As canções também ligam Bleeker à Juno, o casal “protagonista”. A trilha é composta, basicamente, pelas canções folk de Kimya Dawson (que costumava ser da banda Moldy Peaches), mas também traz algumas doces letras dos escoceses do Belle & Sebastian, em cenas de encher os olhos d’água.

JUNO
Jason Reitman
[Juno, EUA, 2007]

NOTA: 8,0

OSCAR 2008

Melhor atriz
Melhor diretor
Melhor roteiro original
Melhor filme

 

 

 

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