Divulgação

JOY DIVISION SOB INTERROGATÓRIO
O diretor Grant Gee procura entender o feômeno de Ian Curtis e sua trajetória
Por Rafael Dias

É difícil colocar sob suspeição uma banda que se tornou um cânone da música pop, referência da cena pós-punk nos anos 70 e precursora do synth pop nos anos 80. Quase 30 anos depois da trágica morte do vocalista Ian Curtis, o Joy Division mantém-se ainda envolto em uma mortalha mítica, como num estado de luto permanente. Essa aura melancólica e mitificada se impregna quase num tom elegíaco no documentário Joy Division, do diretor britânico Grant Gee, que se apresenta como o primeiro discurso oficial (e definitivo?) sobre a trajetória de um dos mais importantes grupos do gênero new wave. O filme passou no último Festival É Tudo Verdade, em São Paulo e no Rio, e deve estrear em junho no País.

Produzido e dirigido por um fã confesso da banda, o documentário traça um dossiê cronológico do Joy Division, desde a formação na fria e cinzenta Manchester e auge do movimento punk até o New Order mais recente, de 2007, passando, é claro, pelo mistério do suicídio de Curtis – capítulo nublado e ainda hoje motivo de consternação e dúvidas quanto às razões que o teriam levado a tirar a própria vida. Grant Gee, que possui mais estoque na seara musical que no cinema (além de diretor de clipes do U2 e Blur, fez o documentário Meeting People Is Easy, com base na turnê de OK Computer, do Radiohead) acaba fazendo um apanhado saudosista e abertamente emotivo, sem a preocupação em vasculhar o lado B ou revelações bombásticas do grupo. Mas, em sua fidelidade ao discurso oficial, o trabalho serve como fonte primária imprescindível para tentar entender o fenômeno Joy Division.

Com uma economia narrativa e puramente documental, Gee faz basicamente um inventário minimalista, de poucos enfeites. Narra a história do Joy Division com base, sobretudo, em entrevistas e depoimentos de remanescentes da banda – o guitarrista Bernard Sumner, o baixista Peter Hook e o baterista Stephen Morris – além de profissionais e amigos que deram suporte e acompanharam a breve trajetória do grupo, como Tony Wilson (produtor e co-fundador da Factory Records, gravadora que prensou os dois únicos álbuns deles), Annik Honoré (amante de Ian Curtis), Pete Shelley (do grupo Buzzcocks), Anton Corbijn (autor da antológica foto em Manchester Apollo, em 1979, e diretor do filme Control), entre outros. Sente-se, porém, a ausência física de Deborah Curtis (que é totalmente avessa a entrevistas), a qual é suprida com a reprodução de aspas do livro Carícias Distantes (Touching From A Distance), de autoria da viúva de Ian.

Gee faz um documentário quase espartano, costurado por falas em que os entrevistados são postos sobre um fundo preto, o que só reforça o clima de luto. Os desavisados podem até pensar que se trata de um interrogatório policial, no qual os acusados devem falar a verdade sobre coação. Ao contrário. É um filme mais à direção da complacência que da dissecação, embora tenha um caráter jornalístico de pesquisa. A sobriedade é quebrada em alguns momentos com efeitos especiais e uma edição bastante entrecortada por superposições e fusões de imagens de arquivo, entre áudios, documentos e fotos – muitas inéditas. Algumas são verdadeiras relíquias, como as anotações do caderno de Rob Grettons e o áudio de uma sessão de hipnose de Ian Curtis, em que ele diz ler “um livro sobre leis”. Há também imagens raras de apresentações na Granada TV (a primeira aparição oficial na tevê, em 20 de setembro de 1978), na BBC (a antológica performance de “She’s Lost Control”, em 1979), além de trechos de clipes e fotos de turnê. Para os fãs da banda, é puro deleite.

Divulgação
Stephen Morris, baterista do New Order

.
O recorte de Gee, convencional e “chapa branca”, gerou comentários de desdém de parte da crítica especializada, que o acusou de optar pelo “esquematismo”. De fato, o documentário se abstém de retratar o lado oficioso e as polêmicas que envolveram o Joy Division. As hipóteses que o filme aventa sobre a morte de Ian, por exemplo, já são bem conhecidas – depressão, problemas conjugais, agravamento dos sintomas da epilepsia e a sobrecarga de shows e turnês da banda. Em si, o documentário traz nada de novo, a bem dizer. Cumpre o papel muito bem, no entanto, de apresentar a versão oficial do grupo, lacuna que precisava ser preenchida. Nesse sentido, vale a pena assistir, principalmente para aqueles da geração web.2 que desconhecem a era dos sintetizadores e da emoção expressa em letras de poesia lúgubre, uma das mais sinceras do pop.

JOY DIVISION
Grant Gee
[Joy Division EUA, 2007]

NOTA: 8,0

Sem mais artigos