O UNDERGROUND EM NOVAS CORES
John Cassavetes, ícone direto do cinema alternativo americano tem sua produção revisitada em cópias restauradas no cinema
Por Cláudia Vital

Considerado pai do cinema independente nova-iorquino entre as décadas de 1960 e 1980, John Cassavetes nunca entrou no hall do estrelato. Recusou os moldes hollywoodianos e optou por um cinema que retrata a sociedade americana com suas insatisfações, preconceitos, soberba e angústias. Seus filmes eram feitos praticamente sem recursos, o elenco era composto de amigos e a própria casa servia como locação. Bem no estilo glauberiano de “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”, Cassavetes foi de encontro ao american way of life tão vangloriado pelo cinema da época.

A característica mais marcante de seus filmes é o constante estímulo ao improviso. O elenco tem plena liberdade para criação. Na busca da densidade do momento único o cineasta livrou seus personagens do costumeiro jogo de cartas marcadas e com esse propósito dirigiu seu primeiro longa-metragem, Sombras (1959), sobre a arte da improvisação, que aborda o preconceito ao falar sobre negros na busca por identificação em Manhattan. Fiel admirador da música negra, composta também por improvisos, o jazz e o blues estão sempre presentes nas suas obras.

Devido à repercussão de Sombras, Cassavetes foi convidado a realizar outros dois filmes em Hollywood, A Canção da Esperança (1961) e Minha Esperança é Você (1963). Mas, durante a gravação do segundo longa teve uma divergência de idéias com o produtor. Ao relatar a história de crianças com deficiência mental, o cineasta não queria que elas fossem mostradas com piedade. O filme foi finalizado contra a sua vontade e Cassavetes chegou a pedir que seu nome fosse retirado dos créditos.

De volta à produção independente, o diretor e roteirista realizou um dos trabalhos mais marcantes de sua carreira: Faces (1968). O longa é um retrato da decadente sociedade norte-americana que por trás das máscaras nutria o cinismo, o sofrimento e a estupidez. Esse foi o primeiro de vários filmes em que sua esposa, a atriz Gena Rowlands, atuou impecavelmente. Seus próximos filmes foram Os Maridos (1970), Assim Falou O Amor (1971), o visceral Uma Mulher Sob Influência (1974), A Morte De Um Bookmaker Chinês (1976) e Noite de Estréia (1977).

Em 1980 fez uma de suas películas mais populares, Glória (1980) que lhe rendeu o Leão de ouro no festival de Veneza e indicação ao Oscar para Gena Rowlands, sendo refilmado em 1999, com a atuação de Sharon Stone. Os Amantes (1984) e Um Grande Problema (1986) foram seus últimos trabalhos. Com formação em dramaturgia, Cassavestes fez trabalhos também em teatro e televisão, dentre eles O Bebê de Rosemary, A Fúria, Os Doze Condenados, Os Maridos e Os Amantes. Os dois últimos escritos e dirigidos por ele.

John Cassavetes e Gena Rowlands

“Cassavetes foi um marco. Ele levou para o cinema americano aquilo que víamos no cinema europeu com a Nouvelle vague e o Neo-realismo italiano, deu liberdade aos atores e desvencilhou o cinema do rigor formal gravando em locações e contando histórias sobre o dia-a-dia”, afirmou o jornalista e doutor em Cinema Alexandre Figueirôa. Contemporâneo de cineastas como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Woody Allen e Brian De Palma, John Cassavetes se destacou pela ousadia e forte tom realista que embutiu em seus filmes, desbravando o desconhecido território do cinema independente sem se importar com o apreço do público.

A carreira do diretor teve fim em 1989 devido a sua morte por cirrose hepática, aos 59 anos. Hoje seus três filhos seguem os passos do pai, que optou por um jeito próprio de fazer cinema. “Se eu puder, farei filmes com não-profissionais, com pessoas que se permitem sonhar com uma recompensa diferente do dinheiro, pessoas com um desejo frenético de participar de algo criativo sem saberem exatamente o quê. Fazer filmes é prazer em estado puro”, declarou Cassavetes.

Sétimo filme de John Cassavetes desperta angústias e faz pensar sobre os limites da mente

Feito inicialmente para o teatro, Uma Mulher Sob Influência é um filme intenso com apenas um leve e talvez desproposital toque de comicidade. O drama de uma família de classe média baixa nos Estados Unidos é relatado pelo cineasta de forma crua e intimista. O filme conta a história de uma mãe e esposa chamada Mabel (Gena Rowlands) acometida por insights de loucura. As crianças parecem estar em sintonia perfeita com a mãe que lhes dá carinho e faz muitas brincadeiras. No entanto, o marido Nick (Peter Falk) começa a se sentir incomodado com as inconveniências comportamentais da esposa.

A cativante Mabel não percebe sua falta de sensatez, pois sempre tem o intuito de agradar. Nick ama a mulher e tenta driblar as situações até começar a achar que as estranhas atitudes dela começam a atrapalhar os filhos. Ele toma a decisão de interná-la, e o filme continua mesmo sem a protagonista. Após seis meses, Mabel retorna a sua casa e por alguns minutos deixa o espectador à deriva – sem saber se o tratamento surtiu efeito ou não. Pouco tempo é necessário para saber que a reclusão não foi eficaz, ao contrário, deixou-a mais sensível àquele mundo das convenções sociais.

A personagem oscila entre a sensatez e o delírio. Colocando em xeque não só a validade dos tratamentos psíquicos como o estreito limiar entre a loucura e as características de personalidade. Ela seria louca ou apenas diferente da grande massa? Se prender às amarras sociais não seria uma espécie de loucura? O amor parece ser forte o suficiente para suportar tais questionamentos. Através de seqüências longas e admiráveis improvisos, Cassavetes constrói essa trama simples, mas sofisticada em seu modus operandis.

UMA MULHER SOB INFLUÊNCIA
John Cassavetes
[A Woman Under The Influence, EUA, 1974]

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