VERDADE E INTERPRETAÇÃO NA BERLINDA
Eduardo Coutinho esmiúça dramas pessoais em palco de teatro
Por Rafael Dias

Quatro meses após a estréia nacional, em novembro passado, entra em cartaz esta semana no Recife, no Cinema da Fundação (Fundaj), Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho. O atraso, segundo o exibidor, ocorreu porque a projeção da única cópia disponível, prevista para a primeira semana de janeiro, não pôde ser realizada por problemas técnicos no projetor digital da sala. Ao público recifense e de outras capitais, que ficam aquém no circuito nacional, resta apenas lástima. Soa até “velho” falar deste lançamento, que causou frisson em São Paulo e Rio pela sua singeleza desconcertante. Mesmo assim, vale a pena ver este que foi eleito um dos melhores filmes de 2007 por críticos do País e também pela votação de O Grito!.

Genial. Não há melhor forma para definir o décimo longa de Eduardo Coutinho, um dos mais respeitados diretores da seara documental brasileira. Partindo de uma premissa simples, uma série de entrevistas conduzidas pelo próprio diretor no palco do Teatro Glauce Rocha, Jogo de cena atinge o ponto nevrálgico entre realidade e encenação. Ele consegue captar essa ambigüidade ao contrapor o depoimento de um grupo de mulheres, selecionadas a partir de um anúncio real publicado no jornal, à interpretação de atrizes, entre elas Andréa Beltrão, Fernanda Torres e Marília Pêra, que encaram o desafio de passar por um “teste”de principiante.

É difícil desenhar essa natureza cambiante de Jogo de Cena. Seria um documentário ou uma ficção? Os dois. Coutinho, como lhe é caro, gosta de brincar com a verdade. E aqui parece também querer questionar a incompletude de uma interpretação, diante do fosso que são os sentimentos reais. Isso, porém, é o que menos importa no filme. E, sim, os dramas pessoais, os quais o diretor estica ao extremo, com fleugma de um cirurgião. O espectador, outra peça desse jogo, é guiado por uma seqüência saborosa de histórias de mulheres anônimas, algumas trágicas, como a da mãe que perde o seu filho; outras cômicas, como a da estóica senhora, descendente de gregos, que chora ao relembrar seu filme preferido, Procurando Nemo. São narrativas que nos viram pelo avesso e desnudam a fortaleza do orgulho humano, do medo de expressar o que sentimos. Uma bela elegia (por incrível que pareça) à sinceridade, valor um tanto em extinção hoje em dia.

JOGO DE CENA
Eduardo Coutinho
[idem, Brasil, 2007]

NOTA: 10

Sem mais artigos