DISSECANDO O HYPE DO MORRO
Dono de vários hits como “Papa Frango” e do sucesso “Chupa Que É De Uva”, João do Morro sai da periferia de Casa Amarela para conquistar apreciadores entre o público indie, formadores de opinião e universitários. Mas o que faz um cantor de pagode, com letras que apelam ao esdrúxulo, fazer tanto sucesso fora de seu meio?
Por Paulo Floro | Fotos: Jedson Nobre/ Divulgação

NO INÍCIO DO MÊS PASSADO, UM DOS MAIS COMENTADOS ARTISTAS DESTE ano postou fotos ousadas em seu perfil no Orkut, um dos maiores sites de relacionamentos da internet. Era o ensaio sensual de João do Morro, o fenômeno da Casa Amarela, o Rei do Morro da Conceição. As fotografias foram tiradas em uma lan house com uma web-cam pelo próprio músico. A repercussão entre seus fãs foi tão grande quanto um editorial da fotógrafa Anne Leibovitz. Por mais surreal (talvez a palavra mais amigável neste caso) que a notícia pareça, ela é emblemática para entender um fenômeno que se avizinha e que se sustenta por meios não-convencionais.

Usando sua página no Orkut como veículo, João do Morro atingiu diretamente seu público, a maioria usuária do serviço (tem por volta de 500 amigos) e ainda gerou comentários em bares e shows naquela semana. A jornalista conhecida pela alcunha Roubada de Ouro ficou sabendo das imagens dias após a postagem. Foi ela uma das responsáveis por desencadear o sucesso do cantor para além da ladeira do morro. Em um dia atípico, atrasada para o trabalho, ela decidiu pegar um táxi de Santo Amaro, centro do Recife até as imediações da Universidade Católica, na assessoria de imprensa onde labuta. Foi no carro que escutou o mais famoso hit, “Papa Frango” e desde então, quis descobrir mais sobre João do Morro. Naquele mesmo dia, fez contatos com amigos para conseguir o disco. Foi com o texto publicado nacoluna que assina com seu pseudônimo, aqui no O Grito! que João do Morro começou a desenhar seu hype. Ou melhor, desenharam para ele. “O que pude ouvir era apenas um acompanhamento de cavaquinho com violão. A voz era bem desafinada. Mas foi a experiência antropológica mais sensacional que ouvi nos últimos tempos”, revelou.

”Nunca imaginei que minha música estivesse chegando tão longe. Acho que tive sorte e sou eternamente grato”, diz, ao telefone, João do Morro. Ele nem mesmo sabia que haviam criado um MySpace para ele. Plataforma de 11 em cada 10 bandas novas, o site norte-americano congrega hypes de todo o planeta e hoje em dia é requisito primordial para um artista ou grupo seguir adiante no mundo pop. João não poderia ficar de fora. O responsável por construir a página foi Guilherme Moura, editor do site Recife Rock!, que parou a cobertura do rock independente para dedicar uma matéria ao cantor. “É o Hype! Adeus Mallu Magalhães e CSS“, postou no site. Em pouco mais de um mês, o www.myspace.com/joaodomorro já acusa mais de 4.200 acessos.

O mais curioso do João do Morro é que é um hype atípico. Ele está distante do mundinho fashionista ou indie, que é um máquina de gerar nomes promissores. Mais do que uma bem-humorada descrição dos subúrbios e suas vicissitudes, as letras dele são verdadeiras crônicas sociais, pesando a mão no absurdo, no jocoso. De fato, quem mais cantaria as mulheres que dão escova (“pisa”) no cabelo e tem medo de sair na chuva? Ou ainda, os malfadados “toques de 3 segundos” no celular? Há uma identificação clara com o cotidiano da periferia, mas o que está fazendo a imagem do “Rei do Morro” tão popular em outras praças? O que o leva aos jornais e sites voltados à música indie?

”O que mais me surpreendeu é que a mídia nunca me deu valor. Vendi meu peixe no boca a boca, cópia a cópia”, diz João. Dono de um dos mais cantados e comentados hits dos últimos meses, “Chupa Que é De Uva” (sic), João do Morro nunca tocou em nenhuma rádio – e ainda hoje não tem tanta inserção – mas, presenciou um episódio de desforra contra as rádios comerciais daqui. “A Rádio Jornal cobra 3 mil reais para tocar uma música. Mas eles foram obrigados a tocar a minha porque o público pediu muito”, comenta. Seu maior sucesso, no entanto, ficou mais famoso na versão da banda Aviões do Forró. “Nunca ganhei um centavo por esta música, não tenho editora, nem gravadora, mas já fico feliz de estar na boca do povo”. E não só aqui no Recife. O programa Pânico da TV, da Rede TV toca “Chupa Que É De Uva” e todas as suas variantes (Lamba que é de manga, Senta que é de menta, etc) toda semana. A produção do humorístico, chegou a entrar em contato, segundo João, apenas para conhecer o autor. “Eles me elogiaram bastante”.

O SUCESSO DE JOÃO DO MORRO CORRE POR UMA LINHA QUE NÃO SEGUE AS trilhas convencionais de shows concorridos e superexposição nas rádios. Antes do MySpace, era até mesmo difícil ter acesso a agenda de shows. Isto tudo contribuiu para aumentar o aspecto “cult” de se apreciar o cantor. Agora que seus discos podem ser encontrados tanto nas carrocinhas de CD’s piratas quanto em sites de compartilhamento, o futuro aponta para uma popularização sempre crescente, mas por anos, o culto ao cantor esteve restrito às comunidades vizinhas a Casa Amarela. Para este público, João não é um fenômeno recente. Cantando e compondo desde os anos 1990 em bandas de pagode, ele é o que se pode chamar de workaholic, apostando em si mesmo e trabalhando ininterruptamente em diversos grupos sem sucesso durante a ascensão e queda dos grupos de “samba romântico”.

”Decidi que queria fazer algo melhor quando percebi que o pessoal (integrantes da banda) só queria saber de ‘raparigagem’”, afirma. “Eles não tinham uma meta, não se importavam com o resultado final do trabalho. Eu queria mais do que cantar ‘amor, não faz assim’ (cantarola em tom de deboche)”. Entre os diversos grupos que participou – Mania de Pagode, Gera Pagode, Só Samba e o último, Só Mais Amizade – um se destaca, o Art Mania. Foi nele que João criou um dos seus hits mais famosos, antes mesmo de “Paga Frango” e “Chupa Que É De Uva”, o não menos infame “Dança da Calcinha”, mais tarde rebatizado como “Dança do Boquete” (sic). Convém reproduzir aqui um trecho para efeitos de recordação. Carnaval de 1998. Popozudas ensandecidas requebram numa temível era pré-Mulher Melancia a letra: “É no pi-piu, é na boquinha, é no chibiu, é na bundinha”.

No último domingo de maio, dia do show do João do Morro no Espaço Aberto, casa noturna situado no bairro de Afogados, zona oeste do Recife, tentamos localizá-lo, sem sucesso. Foi anunciado em seu MySpace que a apresentação seria a gravação de seu segundo disco, intitulado apenas João do Morro Ao Vivo. Após aquele domingo de casa cheia, quis saber o porquê da mudança de direcionamento em sua carreira. “Chegou um momento que comecei a ouvir dos amigos: ‘João, larga esse povo (os colegas de banda), eles não vão te levar a lugar algum’”, afirma. “Lembro de um chegado (sic) me dizer que eu precisava fazer algo ‘cult’”. E João contribui e trabalha para manter seu sucesso em alta. Um dos motivos é que toca apenas músicas de sua autoria. “Já teve pessoas nos meus shows pedindo música de Sorriso Maroto ou qualquer outra banda que toca no Caldeirão (famosa casa de shows). Então eu perguntei se algum desses grupos tocaria alguma música minha”.

JOÃO PEREIRA DA SILVA, 35, É UM HOMEM SIMPLES, APESAR DO SUCESSO QUE acumula na sua comunidade e do prestígio inusitado que recebe de formadores de opinião nada afeitos ao gênero que canta. Atualmente, mora com sua esposa, Edilene e com seu segundo filho, João Vítor, 5 anos. De um primeiro casamento tem outra filha, Tatiane Patrícia, de 10. Edilene mantém o estilo rotineiro sem se abalar com o recente sucesso do marido. “Ela morre de ciúme, é complicado segurar as pontas, mas não dou motivos, apesar do grande assédio que recebo”, gaba-se. João do Morro não bebe, não fuma, não usa drogas, diferentemente de outras estrelas. “Minha família é minha base”, diz. Está no seu Orkut fotos de seus filhos e esposa. Com mais de 140 fotos em seu perfil, as imagens revelam um bom momento em sua carreira e vida pessoal.

Na sua rotina, João está sempre malhando (também possui um álbum de fotos com imagens suas na academia), praticando esportes e se preparando para a festa semanal que organiza todas as quartas, quando acontece seu ensaio aberto. O show acontece no meio da rua, a partir das 20h e vai até a meia-noite. O filho João Vitor segue os passos do pai e já começa a dar as primeiras batucadas. Foi da mesma maneira que João começou o interesse, quando aos 14 anos participou da escola de samba Galeria do Ritmo. “Meu sonho era sair da bateria mirim e fazer parte da bateria principal”.

E os sonhos para futuro? “Sonho mesmo é estar bem com minha família, ter sempre saúde. Agora meus objetivos profissionais é arrumar um bom empresário. Meu primo (Roberto Sidando) dá uma força, mas preciso ir além da marcação de shows”. E gravadora, algum contato? “Hoje em dia, nenhum artista ganha dinheiro com venda de CD’s. Todo mundo baixa da internet ou compra pirata. O que quero é registrar minhas músicas”. Dado a grande veiculação na TV de músicas como “Chupa Que É De Uva”, talvez João já tivesse um bom dinheiro. Talvez até fosse suficiente para descer o Morro. “Não vou sair daqui. Não sou deslumbrado. Quero uma casa melhor para minha família, mas não penso em ser bacana”, conclui. Bacana, não, mas cult e cool, já é.

ACESSE:
Orkut: Perfil | Comunidade
Fotolog: www.fotolog.com/joaodomorro
Myspace: www.myspace.comjoaodomorro

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