não conheço ninguém que tenha conseguido dormir contando carneiros. minha experiência pessoal também fracassou espetaculosamente na infância, levando-me à farmacologia competente na vida adulta.

(falta pouco para livrar-me completamente dela, o que me faz feliz, posto que não me agrada a idéia de tomar ad infinitum substâncias que não deveriam passar de meras coadjuvantes. a menos que seja para uso recreativo. lógico.)

é difícil entender como carneiros pulando cercas podem ter se tornado técnica tão confiada para adormecer. talvez, num passado distante, a repetição de um carneiro saltando atrás de outro carneiro exatamente igual e depois outro e outro e outro fosse monótona o suficiente para induzir o sono – e, mesmo assim, se o sujeito tivesse mente pouco curiosa. enfim, num lugar ou tempo onde o estresse inexistisse e as pessoas não elaborassem questões a respeito de carneiros em geral.

por exemplo: um redneck do interior do milawkee há sessenta anos atrás. deve ter funcionado para ele – a menos que fosse um redneck empreendedor ou que dominasse assuntos veterinários. aí sim poderia complicar. ele teria grandes chances de examinar os carneiros da hora de dormir, tipo este está tão magro, uh, vou mandar lorraine tosar aquele que passou, meu deus, a ovelha chrystabel está prenhe! de novo!. e então ele reprovaria na busca pelo r.e.m. perfeito.

foi mais ou menos isso que vivenciei em minhas tentativas de contar carneiros, mas com escrutínio bastante menos íntimo e veterinário. eu não reconhecia os carneiros pelo nome e por seu estado de saúde mas pela performance comparativa entre eles. como este carneirinho pulou mais alto que aquele, por que será?. e pela constituição sócio-política do rebanho, tipo um animal farm: cadê a ovelha negra da fazenda? é importante que haja alguém na contramão em algum lugar.

o detalhe amalucado é que nunca contei carneiros reais. ao invés, tomava emprestado os que o pica-pau ou o pernalonga enumeram quando vão pra cama. provavelmente devido a meu background urbano, que limitou meu número de experiências junto a rebanhos verdadeiros. fico mais à vontade com carneiros cartúnicos.

mas isso não era tudo. além de minha incapacidade de não me envolver com os carneiros contados, havia um agravante: de repente todos os carneiros que ainda estavam por vir invadiam a cena e atropelavam a cerca, e continuavam chegando às centenas. isto sempre acontecia. o décimo bichinho não chegava a pular que logo vinha a horda de carneiros endemoniados. era como se estivessem confinados por uma semana num espaço bem pequeno e de repente abrissem a porteira para a fuga em massa.

então eu rolava na cama, até que minha imaginação perdia o foco e se pulverizava num enredo fantástico que em pouco tempo me faria sonhar.

abdicar do controle é a chave pro castelo de morfeu.

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[+] Joana Coccarelli é jornalista, autora do blog Narghee-La e idealizadora do Coccarelli.art, coletivo de artistas, blogueiros e escritores. Escreve nesta coluna sobre estética, design e moda.

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