Cartaz do musical The Wizard Of Oz (O Mágico de Oz)

Até o trans/pós-humanismo sugerir possibilidades tão reais como excêntricas, a fábula era desfiada na contramão: o drama das máquinas que queriam ser humanas. O Homem de Lata na terra de Oz, Pinóquio, Eduardo Mãos-de-Tesoura – todos produtos da vontade de criação do filho perfeito, desenhado para atender aos anseios de seu criador. Mesmo no passado restritivo, não era possível escravizar totalmente o desejo da prole adulta. O próprio Frankenstein, feito de matéria orgânica, é um invento tecnológico. Mesmo a ele faltava um elemento de emancipação real do pai inventor.

O pós-humano é a relação criador-criatura do it yourself: o desejo de criar um filho que supra necessidades é possível no próprio pai. É um arquétipo implantado à era do individualismo tecnicista. A tendência é enxertar tecnologia nos próprios corpos, de modo a estender as chances de satisfazer um desejo – mesmo o de eternidade, tão flagrante na cultura das dietas e vitaminas e exercícios, além do jamais superado pavor da morte.

No pós-modernismo, quando a eternidade existe enquanto o corpo dura; com a supremacia do eu em detrimento do outro; e com a possibilidade de nos trans-humanizarmos, filhos podem se tornar cada vez menos necessários para o êxtase de felicidade que passamos a acreditar ser o sentido da vida.

Dos homens, pelo menos. As mulheres seguem desafiadas pelas pulsões naturais. Ainda assim, elas andam resistindo bem melhor que antigamente. Mas essa conversa eu deixo pra coluna que vem. ;)


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[+] Joana Coccarelli é jornalista, autora do blog Narghee-La e idealizadora do Coccarelli.art, coletivo de artistas, blogueiros e escritores. Escreve nesta coluna sobre estética, design e moda.
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