Minhas primeiras cartas de amor, elas foram escritas numa Olivetti Valentine 1969. Essa frase sozinha diz tudo.

Todavia:

A primeiríssima cartinha-declaração, a número um, recebi do sobrinho-neto da dona da escola. Levei um choque – mas não tão grande quanto ao receber, em seguida, a segunda cartinha-declaração, dessa vez do meu melhor amiguinho da primeira série. A dele me fez sentir traída: nós nos divertíamos tanto que mortifiquei quando imaginei que, enquanto isso, ele era a fim de mim. Ambos os pedidos foram negados em papel de carta da minha coleção particular, com uma caligrafia pós-alfabetização bem mobral. Então não foram cartas de amor e, sim, de educação-medo-timidez-extrema-beijos-joana-ps.imaginário-nunca-mais-fale-comigo. Por favor.

Em algum momento, até meu segundo namorado, aos 13 anos, papai me deu sua Olivetti vermelha. E era nela que eu, aí sim, trocava declarações com o rapaz: ele com letra linda em folhas pautadas, e eu com a tipografia mais retrô ever, o auge do vintage, num papel sulfite branco. Nem eu nem o menino imaginávamos o glamour de uma carta de amor escrita a dedos numa máquina italiana vermelha 1969, passada de pai pra filha, do modelo Valentine. Valentine! E o namorado zangava, e dizia que máquina de escrever era muito impessoal, e sofria.

Na mesma época, tipo sexta série, tinha aula obrigatória de datilografia no colégio. A turma desprezava, eu adorava; e apliquei todas as técnicas no texto que criei para um concurso de redação da revista Capricho. Aos 14 anos, fiquei em 38º lugar entre as oito mil participantes de todo Brasil. Ganhei um kit da Giovanna Baby e citação na revista. Olha como eu ainda me vanglorio.

Com a Valentine, escrevi pequeninos romances abandonados pela metade e coisas realmente desenfreadas para Sebastian, o alemão, oficialmente a primeira grande paixão adolescente arrasadora.

E, um dia, eu tava na faculdade e tudo podia ser escrito num computador.

Logo saí de casa, e as tralhas eram tantas que devolvi minha Olivetti para papai.

Que, então, acomodou-a como parte da decoração de sua casa. E agora, dez anos e um punhado de súplicas depois, ela volta para a minha.

Afinal papai está saindo da casa dele para morar em outra.

E eu, finalmente, entendi que, dentre todos os caras que me aconteceram, a maior declaração de amor foi ter herdado uma Olivetti vermelha italiana 69 Valentine do único intermitente amor que pode existir na vida de uma moça.


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[+] Joana Coccarelli é jornalista, autora do blog Narghee-La e idealizadora do Coccarelli.art, coletivo de artistas, blogueiros e escritores. Escreve nesta coluna sobre estética, design e moda.
joana@revistaogrito.com.
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