há tempos se comenta sobre tavi gevinson, a blogueira de estilo que tomou o mundinho fashion de assalto com apenas 12 anos. em um ano e meio ela passou dos primeiros posts casuais para convidada especial do estilista rei kawakubo em seus desfiles no japão, e mais recentemente amealhou um emprego na harper´s bazaar.

associar a imagem pré-púbere de tavi à sua larga produção de textos analíticos sobre moda sempre me causa aflição – às vezes uma certa repugnância. é uma mistura de admiração com uma sensação de infância perdida, a certeza de que ela representa e é um fenômeno da juventude de nosso tempo, e um tantinho de assombro. em suma, respeito combinado com piedade. mas, sob risco de ser demasiado simplista e leviana, não consigo ser mais categórica sobre ela.

muitas cabeças pensantes e bem penteadas, no entanto, não andam conseguindo se segurar dentro das calças calvin klein:a inveja e o senso de ameaça estão lhes expondo ao ridículo – é só olhar mais de perto. inveja e sensação de ameaça, em si, são perfeitamente normais, inerentes a todos e a qualquer um. mas aparentemente o fenômeno tavi está sendo capaz de revelar o limite entre o natural e o feio da inveja. muitas acrobacias retóricas estão sendo feitas para desmerecê-la.

a famosa jornalista de moda lesley m. blume, por exemplo, reduz a contratação de tavi pela bazaar a uma inteligente jogada de marketing – como se os leitores e a própria menina não estivessem se beneficiando com isso. o leitores estão tendo acesso a um extremamente jovem e possivelmente surpreendente olhar sobre estilo, e tavi… bem, tavi já está bem encaminhada, fazendo o que ama, no começo do ginásio. ela só precisa passar pelas traiçoeiras adolescência e notoriedade com a cabeça bem presa sobre o pescoço.

anne slowey, editora da elle americana, por sua vez, joga um pouco mais baixo: ela duvida que os textos de tavi sejam integralmente produzidos pela menina. jornalistas do site the cut, provavelmente ressentidas pela precocidade de tavi, concordam, e usam um argumento incrivelmente idiota para justificar a suposição: se algumas das fotos que tavi publica dela mesma em seu blog são tiradas com a ajuda de outra pessoa, pode ser que outra pessoa também a ajude a concatenar as idéias e escrever os posts.

todos esses ataques à tavi são meia-boca exatamente porque não é impossível produzir coisas muito boas com notável desenvoltura aos 12 ou 13 anos. não é tão raro ou assombroso quanto um moleque superdotado que conclui o mestrado em física aos 16. o site jezebel bem assinala: aos 13 o sujeito é descompromissado o suficientes para devotar enormes quantidades de tempo a hobbies extracurriculares com resultados impressionantes. dizer que tavi não poderia ser autora dos textos por causa de sua idade apenas sublinha o preconceito que se tem contra adolescentes.

jezebel se pergunta, por que nossas expectativas precisam ser tão baixas?, e eu me arrisco: elas não são. na verdade, embora nos conformemos com o comportamento médio, normal, do jovem, cada vez mais esperamos que eles nos surpreendam. o ponto aqui é essa gororoba de sentimentos que confessei no segundo parágrafo – esse quase-pavor provocado por um sucesso tão grande dentro de uma faixa etária tão baixa. alguns de nós assumirá o constrangimento; outros simplesmente cairão na armadilha da inveja e se renderão às picuinhas, por mais deselegante que seja.

Joana Coccarelli é artista plástica e blogueira do Narghee-la

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