São dez anos desde que o revival dos anos 80 começou. Meu marco pessoal é a explosão do electroclash, que jantou a Europa em 98 e tomou o resto do mundo como sobremesa. Até 2004 as tintas estavam tão carregadas que muitos de nós jurou ódio eterno à década, apostando todas as fichas numa iminente morte súbita da coisa toda. Para muita gente, o que foi um divertidíssimo começo havia virado um déjà vu seqüencial que encheu, encheu e encheu.

Mas eis que o que era moda passageira ainda hoje resiste. Mais: tornou-se um estilo de vida já amplamente absorvido pelo status quo independente. Os anos 80 foram relançados como uma one hit band cujo álbum acabou trazendo um clássico após o outro. E fomos nós, crianças oitentistas, quem sabe a geração mais saudosa de todas até agora, que fizemos isso. O frisson tinha que durar pra sempre.

As indústrias dificilmente mentem. Tem um bocado de dinheiro envolvido nelas. De modo que mesmo que os principais estilistas já tenham esgotado suas leituras eighties, algo do design da época já foi incorporado como clássico da moda – sem mencionar o número de marcas se criaram nessa recente nostalgia. Elas se estabelecem até hoje às custas de cintos de tachinha, camisetas punk, saias balonés, maquiagem pesada, viseiras, munhequeiras e sapatilhas de bico fino (celebremos: as horrendas ombreiras jamais tiveram uma segunda chance). Festas ploc nunca pararam de acontecer e encontram versões estilizadas – gótico, new wave, futurepop – nos mais hypados clubes do planeta. Intermináveis edições de livros sobre a época ocupam as prateleiras dos mais vendidos nas grandes livrarias. Mais Pet Shop Boys, New Order, Depeche Mode, The Police, que são os mais novos dinossauros do pop. Tá todo mundo aí, e não me parece que os deixarão ir embora de vez.

O movimento só resiste porque as indústrias entraram numa de responder aos nossos desejos, a quem somos – em grande parte somos feitos de memórias. Há também o argumento de que tudo já foi inventado e que flashback é o futuro. Talvez, mas é mais provável que as fronteiras da criação sejam hoje mais desafiadoras e os artistas menos corajosos.

Não achei que o prometido regresso dos anos 90, cantado por especialistas desde 2003, fosse demorar tanto. A Fórum de Tufi Duek está rezando por esse momento, mas os baladeiros ainda torcem o nariz para hits de quinze anos atrás quando os DJs arriscam. De todo modo, acaba de sair um almanaque noventa, pontapé inicial para a exploração de mais dez anos de saudades. Estou muito curiosa para assistir ao impacto que terá sobre as crias dos 80. Será que vai superá-lo? Será a vez das gerações mais novas que a nossa? Incógnita. Até porque alguns fãs dos anos 80 nasceram nos 90, e ajudaram a engrossar a tradição eighties.

Afinal, tudo o que veio antes é clássico, mesmo que seja horrível. Dá saudade, mesmo que ainda não existíssemos.


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[+] Joana Coccarelli é jornalista, autora do blog Narghee-La e idealizadora do Coccarelli.art, coletivo de artistas, blogueiros e escritores. Escreve nesta coluna sobre estética, design e moda.
joana@revistaogrito.com.
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