.
Pra vocês verem como eu sou mesmo uma balzaquiana, lembro-me do jingle do comercial de lançamento da Barbie no Brasil.

Barbies brazucas de então, começo dos anos 80, diferiam das estadunidenses por causa do rosto mais tosco e o cabelo que espigava logo. A minha tinha brincos ofuscantes e vestido azul.

Daí meus pais viajaram para Nova York e me trouxeram uma Barbie que eles acharam o hype. Ela usava calça jeans, camiseta de pelúcia rosa e botas de caubói da mesma cor. No universo inteiro não existe Barbie que não seja extra cafona, nem as da linha Oscar de la Renta se salvam, mas meus pais pensavam que essa fugia à regra. Já eu a achava horrivelmente simplória – mas fiquei feliz porque pelo menos o rosto era bem mais bonito e o náilon do cabelo era decente.

Já contabilizava umas sete Barbies, um Bob, um Ken com cabelo e uma Skipper quando meu padrasto me deu a mais estonteante criatura de plástico criada pela Mattel: a Japanese Barbie 1st Edition 1985. Em outras palavras, uma Barbie gueixa.

Foi explosivo como Hiroshima entre minhas amiguinhas barbeadas, o auge do exótico. Mesmo assim, ninguém me pedia para ficar com ela na hora de brincar: Barbie tinha que ser loira de olho azul e bochecha rosada. Não para mim. Boneca alguma era mais arraso do que a de olhos e cabelos negros e maquiagem laranja que eu tinha. Ela não sorria, o charme definitivo. E nunca foi chamada de Barbie. Barbie eram as outras. Minha japa girl era Yoko. Arigatô.

Eu tinha uma Barbie Rocker, uma de férias em Honolulu (que atualmente reside na estante da sala de papai trajando um modelo anos dourados que costurei enquanto assistia ao drama de Lurdinha e Marcos na Globo), uma grã-gala cintilante (a cara da Cybill Sheperd) e muitas outras à imagem e semelhança da querida Olivia Newton-John. Mas a balada era com Yoko. Minhas Barbies usufruíam de imbatível variedade de modelitos e acessórios, automóvel, móveis e banheira de espuma sugestiva, mas era a Yoko, com seu quimono vermelho fechado até o pescoço, que conquistava o Bob e o Ken.

Semana passada, num dos diversos blogs de design que consulto diariamente, deparo-me com a The Birds Barbie – uma Barbie em homenagem ao filme Os Pássaros, do Hitchcock. Corvos malditos e expressão aterrorizada incluídos. E meninos eu vi. Ou melhor, me vi pedindo a The Birds para meu padrasto, vinte e quatro anos mais tarde. Presente de aniversário.

Minutos depois, espreitava barbies nos corredores das Lojas Americanas na hora do almoço. Foi mais forte que eu. Não consegui evitar.

A maior parte das barbies continua loura de olhos claros, mesmo as de cabelo castanho. Deixei o biotipo nórdico por conta da The Birds que ganharei. Como eu também precisava responder à necessidade imediata, continuei olhando e encontrei lá embaixo, na prateleira perto do chão, a Barbie perfeita: Nikki, da coleção Tropical Beach.

Nikki é mulata de olhos castanhos e biquíni – a brasileira típica (sobretudo na era da escova de chocolate e da chapinha). Além disso, seus pés são descalços, não adaptados para chatésimos sapatos de salto. É claro que o padrão gringo de pernas finas e compridas continua, mas os peitos diminuíram um pouco e a barriga e quadris são bem mais legais que as barbies do meu tempo.

Logo fiquei preocupada com a precariedade dos trajes de Nikki. Afinal estamos no inverno. Então fui à caça de roupinhas para barbies, mas as poucas que tinham eram detestáveis (claro). Tipo travesti. De modo que estou repetindo outro hábito de infância, que era costurar roupas à mão para elas.

Por fim passei na ala de lingerie para pegar um sutiã e fui pra fila do caixa. Havia uma mulher com uma garotinha que começou a choramingar quando viu minha boneca. Mulheres que contabilizam duas décadas desde seus primeiros sutiãs, comprando barbies para elas próprias? A autonomia do devir feminino chegou a níveis nunca antes imaginados.

Confira abaixo alguns personagem que a boneca encarnou ao longo da vida:


.

[+] Joana Coccarelli é jornalista, autora do blog Narghee-La e idealizadora do Coccarelli.art, coletivo de artistas, blogueiros e escritores. Escreve nesta coluna sobre estética, design e moda.
joana@revistaogrito.com.

.
Leia as colunas anteriores
[+] Moda conceitual
[+] Be My Eighties
[+] Se olha no espelho
[+] A rebeldia nasceu na Holanda
[+] A arte-colagem de Iuri Kothe
[+] Balkan Beats @ Rio
[+] O primeiro do it yourself a gente nunca esquece

Sem mais artigos