(Foto: Daniel Battiston/ Divulgação)

A GENTE CHORA, A GENTE RI
Por Joana Coccarelli

a rua não é exatamente o lugar que as pessoas escolhem para expor suas emoções mais intensas. não é um lugar, por exemplo, onde freqüentemente se pega alguém chorando. as pessoas caminham inexpressivas, muitas vezes sérias e preocupadas, e em geral apenas sorriem quando estão na companhia de alguém, quase sempre conversando. portanto quando me deparo com algum passante solitário e choroso – ou risonho – minha atenção se volta para o que pode estar por trás daquelas lágrimas ou daquele sorriso. talvez porque eu mesma seja muito ruim em segurar um choro, e me pegue sorrindo sozinha em público, meus semelhantes não me passam desapercebidos.

observo os que choram mais com curiosidade do que dó. em poucos segundos pipocam dezenas de especulações na minha cabeça. normalmente penso que o sujeito brigou com alguém que ama, família, namorado, amigo. imagino os motivos. então abro o leque de possibilidades: a morte de alguém, doença, demissão.

já convivi com gente que jamais chorou na minha frente. mais assustador: que chorou e não produziu lágrima sequer. do outro lado desse espectro há os que, como eu, são tomados por uma enchente emocional que transborda nos olhos e escorre pelo rosto. é muito difícil evitar, mas às vezes conseguimos. eu, pessoalmente, não controlo os olhos cheios d´água ou a vermelhidão do nariz, mas cravo as unhas na palma da mão e, dependendo da minha capacidade de concentração, as lágrimas dispersam antes de cair. quando não funciona (a maior parte das vezes), entro num estado mental onde ninguém mais existe. não sinto vergonha: minha necessidade de chorar é imperativa e todo o resto não importa. foda-se o que vão achar. nada é mais primordial do que a minha emoção.

a despeito da gravidade de um estado de tristeza, curiosamente percebo mais complexidade quando me deparo com alguém sorrindo sozinho em público. para estampar, sem estímulos externos, um smiley no meio da cara é preciso um tipo de desligamento quase autista do ambiente ao redor e um profundo mergulho, de olhos abertos, no próprio universo individual.

como cultura judaico-cristã que valoriza a culpa e enaltece o sofrimento, estamos adestrados para achar a tristeza mais significativa que a alegria; do mesmo modo, a natureza cuida para que preservemos as memórias dos maus acontecimentos de modo que evitemos repeti-los. diante dessas duas forças tão rigorosas, o surgimento espontâneio de um sorriso fora de hora e lugar me dá um prazer sem igual – muitas vezes mais quando outra pessoa sorri do que quando eu mesma o faço.

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