Revista O Grito!

Jazz Metal — Por Paulo Floro

Categoria: Trabalhos (Página 2 de 3)

Rotina dos geeks

Matéria sobre geeks que fiz para a estreia do NE10, o portal que substituiu o saudoso .

Cobertura Rec Beat 2011

Por mais um ano, cobri o , no do . Todos os textos estão no JC Online. Achei a programação este ano pouco interessante, sem uma grande atração, com exceção de Marcelo Jeneci, que me deixasse ansioso para ver. Mas, por outro lado, acredito que a escalação das bandas foi condizente com a proposta e a personalidade do festival.

Thalma de Freitas é o grande destaque do último dia de Rec Beat

No Dia Internacional da Mulher, não existiu presente melhor do que Thalma de Freitas, mais importante atração do Rec Beat no seu encerramento e destaque desta noite de Terça de Carnaval no polo localizado no Paço da Alfândega, no Recife. Ela apresentou o seu mais novo show “ASE” (assim seja, em yorubá), com músicas pouco conhecidas e temas autorais de seu novo trabalho.

Com rosto pintado, cabelo afro com uma parte descolorida, Thalma chegou evocando suas raízes étnicas num show que chamou atenção pela performance. Cada música era executada com muita malemolência, dança, gestos. O público foi fisgado por esse transe – e pela beleza da cantora/atriz, obviamente – e correspondeu com gritos e pedidos de bis num dia escasso de grandes atrações.

Thalma contou no palco que construiu o show depois de muitas pesquisas, buscando referências na cultura afro latina e também nos mitos yorubá. O repertório foi baseado no dub e no rock e trouxe canções raras, como “Desengano da Vista”, de Pedro Santos, e “Alfômega”, de Caetano Veloso. Trouxe ainda a participação de Gaby Amarantos para cantar “Água”, música que Thalma compôs para ela e estará presente no novo disco da paraense.

No encerramento do Rec Beat, nenhuma grande atração. O dia começou com os pernambucanos do Frevo Diabo e só começou a empolgar com a chilena Ana Tijoux, ilustre desconhecida que surpreendeu o público com seu rap latino e fortes batidas eletrônicas.

A banda seguinte, Criolina, do Maranhão, apenas reciclou velhas ideias sobre a mistura entre rock e ritmos tradicionais. Com um casal de vocalistas, eles ainda arriscaram uma mistura de música cubana com rock, mas nada que fique grudado na memória de quem passou pelo Paço Alfândega.

Baile dos artistas

Matéria para o . Já liguei o modo há tempos, mas hoje, carnavalizei por completo.

O maior clichê estilístico para matérias de Carnaval – “a irreverência do folião pernambucano” – nunca fez tanto sentido para o Baile dos Artistas, mas de uma maneira exagerada, deliciosamente exagerada. É a festa pela qual todos esperam, como uma senha para dizer: agora está tudo liberado. O baile, que abre a maratona de Carnaval, ganha o público pelo bom-humor, descontração, e pela falta de cerimônia para se divertir. Este ano, a cantora Gretchen foi a rainha dos artistas e o escritor Ariano Suassuna, o rei.

A diversidade do público que passou pelo Clube Português nesta sexta-feira (18) diz muito sobre as reais intenções do baile em ser um legítimo baile de Carnaval. Não é preciso pedir permissão e o glamour nada mais é do que uma opção qualquer para se fantasiar. Nos seus corredores e pista, a fauna é dominada pelo público , que nas variadas formas e tamanhos, desfilam travestis, drag queens e descamisados gog-boys. Nos camarotes, políticos, como o Governador Eduardo Campos e sua esposa, Renata, e a primeira-mãe e deputada, Ana Arraes, circulavam para além dos cercadinhos VIP aproveitando a festa. Também estavam por lá o prefeito João da Costa e o senador Humberto Costa.

Como se precisasse, o Baile dos Artistas assume sua vocação de falar diretamente ao público LGBT, com a entrada de Maria do Ceu, empresária e dona da boate Metrópole, na organização do evento. No concurso das fantasias, os dois primeiros dialogavam contra a homofobia. Chiquinho, o vencedor da noite, veio com Kucita: dou porque não tenho prikita, em uma roupa que trazia um estratégico buraco atrás, onde estava escrito “com camisinha”. Thiago Vergete, o segundo lugar, apresentou uma sátira ao mito de Lampião com Lampeião – o rei do cabaço. Também carregava nas costas um letreiro enorma e colorido que dizia “Diversidade e Paz”.

Igualmente ousadas, as fantasias nas pistas traziam produções requintadas. Um casal vestido de diabo carregava tantos apetrechos e uma pesada roupa de borracha e papel machê que tinham dificuldade em andar. Como aconteceu ano passado com Avatar, o que mais se viu entre as produções desta edição foram pessoas vestidas do filme Cisne Negro, com tutu de bailarina e muitas plumas e penas. Num baile tão prestigiado, não há como não se sentir importante, no momento de maior visibilidade do ano, sobretudo para a população trans. “Trava, corre aqui vem falar com o jornal”, gritou uma travesti com lentes de contato branca. No camarote, Macarrão Slater disse antes de descer as escadas. “Isso aqui é nosso gala gay, meu amor. Somos nós que fazemos sucesso por aqui”, diz.

O maior clichê estilístico para matérias de Carnaval – “a irreverência do folião pernambucano” – nunca fez tanto sentido para o Baile dos Artistas, mas de uma maneira exagerada, deliciosamente exagerada. É a festa pela qual todos esperam, como uma senha para dizer: agora está tudo liberado. O baile, que abre a maratona de Carnaval, ganha o público pelo bom-humor, descontração, e pela falta de cerimônia para se divertir. Este ano, a cantora Gretchen foi a rainha dos artistas e o escritor Ariano Suassuna, o rei.

A diversidade do público que passou pelo Clube Português nesta sexta-feira (18) diz muito sobre as reais intenções do baile em ser um legítimo baile de Carnaval. Não é preciso pedir permissão e o glamour nada mais é do que uma opção qualquer para se fantasiar. Nos seus corredores e pista, a fauna é dominada pelo público gay, que nas variadas formas e tamanhos, desfilam travestis, drag queens e descamisados gog-boys. Nos camarotes, políticos, como o Governador Eduardo Campos e sua esposa, Renata, e a primeira-mãe e deputada, Ana Arraes, circulavam para além dos cercadinhos VIP aproveitando a festa. Também estavam por lá o prefeito João da Costa e o senador Humberto Costa.

Como se precisasse, o Baile dos Artistas assume sua vocação de falar diretamente ao público LGBT, com a entrada de Maria do Ceu, empresária e dona da boate Metrópole, na organização do evento. No concurso das fantasias, os dois primeiros lugares dialogavam contra a homofobia. Chiquinho, o vencedor da noite, veio com Kucita: dou porque não tenho prikita, em uma roupa que trazia um estratégico buraco atrás, onde estava escrito “com camisinha”. Thiago Vergete, o segundo lugar, apresentou uma sátira ao mito de Lampião com Lampeião – o rei do cabaço. Também carregava nas costas um letreiro enorma e colorido que dizia “Diversidade e Paz”.

Igualmente ousadas, as fantasias nas pistas traziam produções requintadas. Um casal vestido de diabo carregava tantos apetrechos e uma pesada roupa de borracha e papel machê que tinham dificuldade em andar. Como aconteceu ano passado com Avatar, o que mais se viu entre as produções desta edição foram pessoas vestidas do filme Cisne Negro, com tutu de bailarina e muitas plumas e penas. Num baile tão prestigiado, não há como não se sentir importante, no momento de maior visibilidade do ano, sobretudo para a população trans. “Trava, corre aqui vem falar com o jornal”, gritou uma travesti com lentes de contato branca. No camarote, Macarrão Slater disse antes de descer as escadas. “Isso aqui é nosso gala gay, meu amor. Somos nós que fazemos sucesso por aqui”, diz.

As atrações eram um convite à catarse. E buscaram referências trash este ano para deixar tudo ainda mais divertido. Almir Rouche cantou todo o repertório conhecido de frevo, mas foi ovacionado para sua versão de “Bad Romance”, de Lady Gaga. Cantou a lado da cantora paraense Gaby Amarantos a versão dela para “Single Ladies”, de Beyoncé, o “Hoje Eu Tô Solteira”. Em seguida, com quase meia hora de atraso entraram o É o Tchan. Saído do final dos anos 90, o grupo chamou todos a se soltarem e perderem a vergonha da lembrança de que todos ali, um dia, já colocaram o pudor no chinelo para irem até o chão no “Segura o Tchan”.

Entre uma apresentação e outra, a organização decidiu colocar gogo-boys para dançar hits pop como Lady Gaga e Black Eyed Peas. O público aprovou esse momento boate. Nos arredores da pista, um dos banheiros masculinos foi novamente depredado para servirem de espaço de “pegação”. Quando ainda era possível entrar, algumas pessoas quebraram as lâmpadas, dando o sinal para que o lugar fora tomado. Seguranças foram chamados para contornar a situação, mas o grande fluxo de entra e sai tornou iniviável. “Desta vez, eles também destruíram os fios, não temos nem como repor a luz”, disse um dos seguranças do lado de fora. Todos cruzaram os braços. O folião Marcelo, que tentava entrar no banheiro para fazer xixi levantou uma ideia para o ano seguinte. “Já que não tem como reverter isso, deveriam deixar alguém na porta entregando camisinha para quem entra”.

O maior clichê estilístico para matérias de Carnaval – “a irreverência do folião pernambucano” – nunca fez tanto sentido para o Baile dos Artistas, mas de uma maneira exagerada, deliciosamente exagerada. É a festa pela qual todos esperam, como uma senha para dizer: agora está tudo liberado. O baile, que abre a maratona de Carnaval, ganha o público pelo bom-humor, descontração, e pela falta de cerimônia para se divertir. Este ano, a cantora Gretchen foi a rainha dos artistas e o escritor Ariano Suassuna, o rei.

A diversidade do público que passou pelo Clube Português nesta sexta-feira (18) diz muito sobre as reais intenções do baile em ser um legítimo baile de Carnaval. Não é preciso pedir permissão e o glamour nada mais é do que uma opção qualquer para se fantasiar. Nos seus corredores e pista, a fauna é dominada pelo público gay, que nas variadas formas e tamanhos, desfilam travestis, drag queens e descamisados gog-boys. Nos camarotes, políticos, como o Governador Eduardo Campos e sua esposa, Renata, e a primeira-mãe e deputada, Ana Arraes, circulavam para além dos cercadinhos VIP aproveitando a festa. Também estavam por lá o prefeito João da Costa e o senador Humberto Costa.

» Blog Social1 marcou presença no Baile dos Artistas e destacou as fantasias mais criativas

Como se precisasse, o Baile dos Artistas assume sua vocação de falar diretamente ao público LGBT, com a entrada de Maria do Ceu, empresária e dona da boate Metrópole, na organização do evento. No concurso das fantasias, os dois primeiros lugares dialogavam contra a homofobia. Chiquinho, o vencedor da noite, veio com Kucita: dou porque não tenho prikita, em uma roupa que trazia um estratégico buraco atrás, onde estava escrito “com camisinha”. Thiago Vergete, o segundo lugar, apresentou uma sátira ao mito de Lampião com Lampeião – o rei do cabaço. Também carregava nas costas um letreiro enorma e colorido que dizia “Diversidade e Paz”.

Igualmente ousadas, as fantasias nas pistas traziam produções requintadas. Um casal vestido de diabo carregava tantos apetrechos e uma pesada roupa de borracha e papel machê que tinham dificuldade em andar. Como aconteceu ano passado com Avatar, o que mais se viu entre as produções desta edição foram pessoas vestidas do filme Cisne Negro, com tutu de bailarina e muitas plumas e penas. Num baile tão prestigiado, não há como não se sentir importante, no momento de maior visibilidade do ano, sobretudo para a população trans. “Trava, corre aqui vem falar com o jornal”, gritou uma travesti com lentes de contato branca. No camarote, Macarrão Slater disse antes de descer as escadas. “Isso aqui é nosso gala gay, meu amor. Somos nós que fazemos sucesso por aqui”, diz.

As atrações eram um convite à catarse. E buscaram referências trash este ano para deixar tudo ainda mais divertido. Almir Rouche cantou todo o repertório conhecido de frevo, mas foi ovacionado para sua versão de “Bad Romance”, de Lady Gaga. Cantou a lado da cantora paraense Gaby Amarantos a versão dela para “Single Ladies”, de Beyoncé, o “Hoje Eu Tô Solteira”. Em seguida, com quase meia hora de atraso entraram o É o Tchan. Saído do final dos anos 90, o grupo chamou todos a se soltarem e perderem a vergonha da lembrança de que todos ali, um dia, já colocaram o pudor no chinelo para irem até o chão no “Segura o Tchan”.

Entre uma apresentação e outra, a organização decidiu colocar gogo-boys para dançar hits pop como Lady Gaga e Black Eyed Peas. O público aprovou esse momento boate. Nos arredores da pista, um dos banheiros masculinos foi novamente depredado para servirem de espaço de “pegação”. Quando ainda era possível entrar, algumas pessoas quebraram as lâmpadas, dando o sinal para que o lugar fora tomado. Seguranças foram chamados para contornar a situação, mas o grande fluxo de entra e sai tornou iniviável. “Desta vez, eles também destruíram os fios, não temos nem como repor a luz”, disse um dos seguranças do lado de fora. Todos cruzaram os braços. O folião Marcelo, que tentava entrar no banheiro para fazer xixi levantou uma ideia para o ano seguinte. “Já que não tem como reverter isso, deveriam deixar alguém na porta entregando camisinha para quem entra”.

DINHEIRO MOLHADO – Os serviços deixaram a desejar no Baile dos Artistas, que cresce em número de público e importância a cada edição. Após os desfiles e cerimônias do início era tarefa árdua conseguir comprar bebida. Apenas três pessoas para atender a uma multidão que se espremia nas grades do bar. Sobre o balcão era possível ver pilhas de notas de real molhadas. Entre as opções de comida, a grande pedida do público foi pipoca de microondas, o que trouxe um cheiro forte e característico nos arredores da pista de dança. Nas outras opções, como espetinho e coxinha, as filas se formavam rápido.

O dia já estava claro quando o É O Tchan terminou sua apresentação. Num dia em que o tinha agenda concorrida – show dos Backstreet Boys, Guaiamum Treloso com Nando Reis, Brega Naite de Carnaval – o Baile dos Artistas estava lotado. Isso serve para mostrar a importância que a festa ganhou nesses últimos anos. Se já ganha no carisma, precisa apenas se ajustar ao tamanho que se tornou.

Cyndi Lauper @ Recife

Para o JC Online.

Público aprovou reinvenção de

É um desafio para uma cantora pop buscar uma renovação por um estilo que seus fãs passam ao largo, como é o Blues. Cyndi Lauper decidiu ousar e parece ter acertado nessa sua aventura em não se deixar ser engolida por um passado glorioso, como tem feito muitos astros de sua época, que vivem de ruminar sucessos. A americana de 57 anos juntou uma banda experiente e segue ganhando a vida cantando clássicos de blues. No show que fez neste sábado no , no Chevrolet Hall, os fãs decidiram embarcar nessa nova fase.

Com o carisma de Cindy é possível imaginar que ela tivesse sucesso em qualquer outro gênero, por mais ortodoxo ou esquisito à sua carreira. Tocando faixas de seu mais recente disco Memphis Blues, ela conseguiu empolgar o público que, mesmo sem saber a letra, seguiu à risca os ditames da cantora, seja para bater palmas, repetir frases do refrão, ou apenas se divertir. No primeiro bloco, ela presenteou os fãs com três hits antigos, perdidos entre as canções recentes. Destaque para a tema do filme Os Goonies, “The Goonies R Good Enough”, cantado aparentemente de forma improvisada, presente no imaginário de qualquer pessoas que viveu os anos 1980.

O primeiro bloco de músicas serviu para mostrar que nessa nova fase, Cyndi ainda sabe, sim, como se divertir. Também mostrou a virtuose de sua banda, que teve como convidada especial a percussionista Lan Lan, que já tocou com Cássia Eller e outros artistas brasileiros. No segundo bloco, descalça, deu a deixa que ali seria o momento de pura catarse e saudosismo. Um presente para quem aprovou a reinvenção da artista, mas que foi mesmo em busca de seu passado repleto de hits. Um dos maiores sucessos, “Girls Just Want To Have Fun”, de 1983, se transformou numa música de 9 minutos, com direito a interlúdios, solos e conversas com a banda. Correndo de um lado para o outro demonstrando vitalidade e boa forma para a idade, Cindy soltou ainda “Time After Time” (1983), “All Through The Night” (1984), e “Change Of Heart” (1986).

Já sozinha no palco, depois de agradecer e de se despedir da plateia ao lado de sua banda, a cantora cantou uma versão minimalista, quase ‘a cappela’ de “True Colors” (1986), uma das músicas de maior sucesso da carreira de Lauper. Terminou com mensagens positivas para os fãs, o que combinou com o momento mais emotivo do show. Cyndi parece não ter mudado nada nesses anos em que passou de uma artista de sucesso mundial para alguém à margem das paradas de sucesso. A voz, inclusive é a mesma de quando estava na casa dos 20 e se pintava como uma boneca. Com o rosto inchado fruto de sucessivas plásticas e vários quilinhos a mais, ela ainda conserva o mesmo carisma de quando estava no auge. Esse show no Recife, que dá início a uma turnê de Lauper pelo Brasil, mostrou que apenas isso basta. E os fãs estão prontos para novas aventuras artísticas de Cyndi.

CERCADINHO – Já nem adianta bater nesta mesma tecla da famigerada área VIP nos shows do Recife. De como ela é um desrespeito aos fãs que pagam ingressos caros para ficarem privados de um contato mais próximo com o artista, etc. Nesse caso, a desvantagem para quem ficou fora do Front Stage foi ainda maior. Além do espaço reservado ser muito grande, o que deixava a pista comum bem distante do palco, a apresentação de Cyndi se pautou por uma aproximação com o público. Não raras vezes ela descia pelas escadas em frente ao palco, falava com a plateia, e só faltou ir para o meio do povo. Existir área vip em eventos de música pop é um contrassenso, já que o gênero é antielitista por natureza. A questão que paira é saber se a artista sabia dessa divisão sectária dos fãs.

Bá e Moon de volta ao indie

Gêmeos famosos das HQs, e lançam HQ independente

Por Paulo Floro

Reproduzo aqui minha última sobre quadrinhos do JC Online que saiu semana passada. O assunto foram os irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá. Eles lançam mês que vem no Rio de Janeiro a nova HQ Atelier.

Numa época em que as editoras estavam se lixando para os quadrinhos (poucos títulos chegavam às livrarias), os gêmeos paulistas Fábio Moon e Gabriel Bá tinham uma ideia bastante avançada de onde podiam chegar desenhando HQs. O fanzine 10 Pãezinhos fez bastante sucesso quando era um produto totalmente independente e foi o passaporte para os dois conseguirem mais espaço no mercado editorial brasileiro e também internacional. E é ao indie que a dupla retorna no próximo mês com Atelier.

O gibi será lançado durante a Rio Comic-Con, um dos maiores eventos do gênero no Brasil e que acontece no Rio de Janeiro entre os dias 9 e 14 de novembro. Antes, Moon e Bá fazem o lançamento no New York Comic Con e no Crack Bang Boom, convenção internacional na Argentina. Foi feito no esquema independente custeado do próprio bolso dos artistas.

Essa abertura que os dois têm no circuito internacional é fruto de muita dedicação e de uma visão muito profissional sobre quadrinhos. Em uma passagem pelo , no finado festival internacional que existia por aqui, os dois revelaram que passaram muitos anos viajando aos EUA para apresentar trabalhos. Hoje, recebem convites.

As conquistas (merecidas) da dupla são muitas e dizem muito ao público não conhecedor de quadrinhos, ou àqueles que leem esporadicamente: vencedores do prêmio Jabuti, da Academia Brasileira de Letras, vencedores do Eisner Awards, maior honraria da área entregue nos EUA, entre outros prêmios, como vários HQ Mix, maior premiação nacional.

Atelier, como outras HQs de Moon e Bá falam do universo urbano, com uma dose de subjetividade e dilemas comuns a qualquer pessoa. “Pensando nos próximos eventos de Quadrinhos que nos esperam, um nos Estados Unidos, um na Argentina e um no Brasil, ficamos pensando o que cada um desses públicos diferentes conhece do nosso trabalho”, disse Moon em seu blog.

No Brasil ou fora, nunca foi um momento tão bom para descobrir Fábio Moon e Gabriel Bá.

ATELIER
Dos fanzinos xerocados para diversas obras em livrarias, o caminho foi longo. Os irmãos mantêm um blog com grande parte de seu trabalho. Eles publicam lá as tiras semanais que saem na Folha de S. Paulo. Falam também do processo criativo e antecipam novos trabalhos.

MULTIPLICADOS
O trabalho de Moon e Bá estão espalhados por diversas editoras. Aqui e nos EUA. Eles também fazem trabalhos sozinhos. Bá desenhou a HQ Umbrella Academy escrita por Gerard Way, vocalista da banda de rock My Chemical Romance.

CATECISMO DA DUPLA
Obras principais para quem quer adentrar ao trabalho da dupla. Todas podem ser encontradas em livrarias e comic-shops.

10 Paezinhos – Crítica (Devir)
Um dos mais elogiados livros da série que fez a fama dos irmãos, Crítica traz histórias de amor e desencontros e é uma bela homenagem à juventude.

10 Pãezinhos – Fanzine (Devir)
Este livro remonta os primórdios da HQ e serve pra fazer um contraponto de como a dupla evoluiu nesses mais de dez anos.

5 (Independente)
Produzido em parceria com o brasileiro Rafael Grampá, a americana Becky Cloonan e o grego Vasilis Lolos, esse pequeno gibi de histórias curtas trouxe o maior prêmio da indústria das HQs aos irmãos. À venda em lojas de quadrinhos.

O Alienista, de Machado de Assis (Agir)
Essa adaptação de uma obra literária mostrou o talento dos irmãos em ousar na linguagem imprimindo seu estilo à uma história tão conhecida. Já é usado em salas de aula brasileiras. Venceu o prêmio Jabuti.

Morar no Trianon, Centro do Recife

Matéria que fiz para o JC Online sobre os Sem Teto que moram no edifício , no Centro do , onde antes funcionava um cinema. Minha editora deve saber o quanto sou fascinado pela história por trás dos e meu gosto pela arquitetura da cidade. O legal foi conhecer como vivem (e são organizados) essas pessoas que desde o mês passado ocupam o imóvel que estava abandonado.

Quem são e como vivem os moradores do Trianon

Por Paulo Floro

No último dia 9 de setembro, Edson do Nascimento, 29 anos, entrou num ônibus fretado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto em direção a um lugar ainda desconhecido. Por volta das 4 horas da manhã, o veículo estacionou em frente ao Edifício Trianon, na Avenida Guararapes, e um dos líderes anunciou que ali seria o local ocupado. Edson é um dos coordenadores estaduais do movimento e organiza mais de 350 pessoas nos sete andares do imóvel, uma média de 120 famílias. Ícone da arquitetura dos anos 1940, o prédio servia nos últimos anos apenas como camarote do desfile do Galo da Madrugada, no .

Do lado de fora, Priscila, uma menina não maior que 18 anos, faz vigília na porta do prédio. Ela se reveza com outra pessoa em turnos de 24×24 horas para que ninguém entre sem permissão no Trianon. Não-moradores também não podem andar descompanhados dos coordenadores de andar – seis ao todo – nem entrar sem serem anunciados. Há organização em diversos setores, como iluminação, limpeza, convivência e também política, ainda que muito precária. “Quando chegamos aqui encontramos muito lixo, entulho. Pessoas entravam para defecar; estava imundo”, lembra Edson, que junto com os moradores iniciou a limpeza de todos os andares.

Existe organização entre a precariedade e o improviso. Cada antiga sala se transformou num apartamento fechado com cadeado. Ao lado de antigos patrocinadores do Carnaval pintados na parede, estão os números de cada moradia. Alguns têm a inscrição com o nome atual morador e sua função. “Conceição coordenadora”, dizia um no terceiro piso. Entre as atribuições dessas pessoas, estão a de zelar pela boa convivência entre os sem-teto, mediar brigas, anotar reclamações e manter a discrição dos ocupados na vizinhança. Com eles, também ficam a chave dos banheiros. Cada andar também tem dois, sem água corrente nem chuveiro. A água do prédio estava cortada e, por isso, foi feita uma ligação clandestina, mas a água que sai é salobra. “Buscamos água em Paulista, em outra ocupação, mas é insuficiente”.

Pra ler o texto completo e a matéria vinculada, vem aqui.

Nessa galeria tem mais fotos que fiz

Comer, rezar, amar é fábula fácil sobre a felicidade feminina

Crítica que fiz para o novo filme de Julia Roberts. Saiu no JC Online.

Comer, rezar, amar, que estreia nesta sexta-feira (1º) em todo o País, traz Julia Roberts no papel de Liz, o alter-ego da autora do livro de mesmo nome que é sucesso no mundo inteiro. O longa, assim como o livro, fala diretamente ao universo feminino. É um filme para elas, e por um momento, parece mesmo uma fábula feminista sobre a busca da felicidade da mulher contemporânea.

Liz é uma mulher bem-sucedida e com um casamento estável que se vê num dilema interior após retornar de uma viagem a Bali, onde conhece um guru. Inquieta com a zona de conforto em que vive, sente-se vazia. Parte, então, já divorciada, para uma viagem pelo mundo para se reencontrar. Vai para a Itália, onde cultiva o prazer da gastronomia (e ganha uns quilinhos), em seguida para a Índia, onde mora numa comunidade para a qual seu namorado (James Franco) sempre sonhou em ir. Depois de alcançar a espiritualidade, retorna, enfim, a Bali, onde conhece um brasileiro vivido por Javier Bardem.

O filme dialoga e quer servir de inspiração para pessoas que pensam em largar tudo para promoverem uma mudança em suas vidas. Sobretudo as mulheres, sempre pressionadas a estarem ao lado de um homem ideal provedores de felicidade. Mas o sucesso de Comer, rezar, amar não está na originalidade do discurso e sim por trazer de forma fácil um pacote dramático já bem conhecido por fãs de filmes de romances. É praticamente uma liquidação em forma de cinema. Traz no mesmo bolo uma história de amor, autoajuda, paisagens de guia turístico e, claro, final feliz. Porque assim são os best-sellers: satisfação garantida ou seu dinheiro de volta.

Dirigida por Ryan Murphy (da série Glee), o filme é superficial em suas questões espirituais e também nas inquietações vividas pela personagem principal. Em Roma, onde mora por alguns meses, os clichês abundam na tela o tempo todo, mostrando os italianos de maneira estereotipada. Em Bali e na Índia, Liz mostra ser muito sortuda, já que encontra pessoas que falam inglês nos mais inóspitos. Muito conveniente…

A história do livro e do filme é uma espécie de autobiografia de , autora do best-seller que vendeu mais de quatro milhões de cópias no mundo todo. As lições de vida que ela ensina não são verossímeis no longa, nem mesmo a tentativa de soar transgressor e libertador para as mulheres. E deve ser bem mais fácil buscar a transformação espiritual quando se tem dinheiro suficiente para viajar durante um ano inteiro por países exóticos.

A tentativa do filme em ser de facílima digestão são seus personagens coadjuvantes. Todos muito simpáticos, sábios, inteligentes, bondosos, carinhosos, em nada atrapalhando a busca de Liz por sua paz. Destaque para Javier Bardem, péssimo no papel de um brasileiro. Seu português é vergonhoso e sua aparição no final é só a cereja do bolo para a telespectadora que acompanhou sua “heroína” por cenários tão belos. Já Roberts está bem como sempre, e num papel que não lhe demanda muito esforço.

A prova de como a autoajuda pode ser eficaz é a própria atriz. Julia Roberts já admitiu que o filme mudou sua vida, a fez se converter ao hinduísmo e a transformou numa mulher mais paciente e feliz. Não há propaganda melhor para um best-seller de autoajuda que um testemunho como esse.

A “Sauna Cine” está morta. Viva a Sala Cine


, num dos shows mais interessantes da Sala Cine. Foto: Caroline Bittencourt

A “Sauna Cine”, apelido carinhoso dado para a Sala Cine – também no Centro de Convenções da UFPE –, local dos shows de abertura do No Ar: , antes conhecida pelo aperto e calor, deu lugar a um novo espaço com quase o dobro do tamanho. A nova configuração faz eco com a própria música independente que o festival faz de vitrine. Bandas que se apresentaram na Sala Cine poderiam estar no teatro e vice-versa. Nos dois dias de evento, o público conheceu nomes tidos pela organização como promessas, entre eles os pernambucanos Voyeur e Massarock e Bemba Trio, da Bahia. Além dos tradicionais suecos.

Dessa leva de emergentes quem mais chamou atenção foi o Do Amor, banda carioca formada por músicos que já tocaram com Caetano Veloso e que acompanham a cantora Nina Becker nos shows. O grupo faz um rock bem-humorado sem que isso comprometa a qualidade das músicas. O público lotou o espaço para dançar ao som de forró, carimbó paraense e heavy metal, presentes no disco de estreia, como Chalé, I picture to myself e Pepeu baixou em mim. Como no ano passado a Sala Cine apostou em experiências sonoras mais experimentais, ritmos que fogem da ideia pré-concebida que se tem do Coquetel.

O Bemba Trio, um dos projetos do músico baiano Russo Passapusso foi mais um exemplo feliz da vocação da Sala Cine dentro do festival. O cantor se mostrou bem à vontade em seu reggae com hip hop. Conseguiu boa empatia com a plateia, mas o uso de alguns chavões acabaram por comprometer um interesse posterior no trio. Houve até o momento “levantem os isqueiros”.

Na mesma proposta de fundir estilos, os pernambucanos do Voyeur se saíram melhor. Formados por Ju Orange (Ampslina) nos vocais, Paulista (Candeias Rock City) nas guitarras e Pauliño Nunes (Júlia Says), todos da atual cena indie da cidade, conseguiram mostrar novas ideias para o revisionismo do electro-rock dos anos 80.

Das bandas suecas novatas ou menos conhecidas que sempre ganham vez nesse palco gratuito, a que mais chamou atenção foi a dupla Taxi Taxi!. As irmãs gêmeas Miriam e Johanna, 20 anos, fizeram um show bem delicado, com músicas tristes, o que nos leva a imaginar de onde tiram inspiração para tanta melancolia com tão pouca idade.

Simpáticas, representaram bem a fofurice escandinava que sempre aporta por aqui no Coquetel Molotov. Na mesma linha, o show de Anna von Hausswolff ao piano mostrou porque a garota está sendo comparada a Kate Bush. Com essa nova fase a Sala Cine UFPE reafirma sua vocação dentro do festival. Os indies nanicos – em projeção – agradecem.

O texto saiu na segunda-feira no Caderno C, do Jornal do Commercio.

Orgulho e preconceito na Parada

Publiquei esse texto ontem, cansado depois da cobertura da Parada da Diversidade do , na praia de Boa Viagem. Decidi escrever minhas impressões começando pelo fim, já que, ao chegar em casa eram as imagens da ressaca da festa que estavam mais frescas na retina. A matéria saiu no JC Online. Vale a pena olhar a edição que o editor Gustavo Belarmino fez, muito legal.

Foto: Marcelo Soares/

Clima eleitoreiro não tira brilho da Parada no Recife

Paulo Floro – Do

Um travesti enorme vestido de Lady Gaga caminhava a passos firmes no caminho contrário à passeata. Botas de cano alto e peruca de náilon, a tinha terminado para ele. Mais à frente, um grupo de militantes de um candidato tal pareciam aliviados de poderem, enfim, ire embora para casa. No final do desfile, um número grande de pessoas ainda dançava, mesmo com os trios elétricos desligando o som, anunciando que a festa acabou. Cada um tinha um objetivo nessa Parada da Diversidade, e em ano de eleição, muita gente que foi ao evento neste domingo (12) carregava segundas intenções.

Entre o colorido do público, diversas bandeiras de políticos bradavam na avenida. E panfletos voavam com diversas legendas. Todos os anos a faceta política da festa está sempre presente, mas desta vez ganhou conotações mais eleitoreiras. Naquele clima carnavalesco, é de se perguntar se gays e lésbicas estavam mesmo interessados no discurso dos políticos presentes nesse domingo. Como bem deixou claro o Blog do Jamildo, ninguém admitiu estar por lá para pedir votos.

Os trios mantiveram o mesmo esquema do ano passado, mesclando militância e hedonismo puro e simples. O carro da boate Metrópole, por exemplo, concentrava os fashionistas da parada, com o ex-BBB Serginho sendo a grande estrela (?) desta edição. No som, muitos remixes e declarações da dona da boate, Maria do Céu, espécie de madrinha auto-declarada do gay recifense. Logo atrás, os Leões do Norte eram mais gritos e menos música, entoando protestos ao microfone. A mestre de cerimônias estava rouca perto do final da tarde, mas ainda assim não parava de criticar os políticos locais em relação à causa homossexual.

O Instituto Papai fazia uma mescla desses dois universos e tocava música pernambucana, como frevo, um pouco de samba e fazia algumas críticas ao microfone, mas o tom era de afirmação, de orgulho, enfim. Um dos mais animados era o da Prefeitura do Recife que teve como atrações a DJ Lady Kheke, conhecida pelas festas Putz e Felipe machado, da Sem Loção. Era de longe, o melhor setlist da parada.

ORGULHO E PRECONCEITO – Este ano, a avenida viu mais uma vez crianças trazidas pelos pais, senhoras caminhando pelas calçadas ou simplesmente acenando nas varandas. A fauna foi mudar perto do final do dia, quando era possível ver atitudes nada condizentes com o clima de inclusão e celebração por direitos iguais entres gays e héteros.

Alguns garis da Prefeitura do Recife limpavam a rua imitando o clichê da “bicha afetada”. E moradores locais passavam em seus carros com o rosto mostrando desaprovo. O mais curioso foram os torcedores do Santa Cruz e Sport que, já na Avenida Domingos Ferreira, recebiam as pessoas que voltavam da parada com hostilidade. Nomes impronunciáveis nesse horário e local. Um time de torcedores rubro-negros se divertia na Avenida Boa Viagem, em trupe, ao som de funk. A bandeira do leão, assim como a do Brasil, foi muito vista na parada.

A assessoria da Polícia Militar confirmou cerca de 80 mil pessoas este ano. E não registrou nenhum problema grave na segurança do evento. Depois de anos sendo mais odiada que amada quando acontecia numa sexta-feira à noite, na apertada Avenida Conde da Boa Vista, a Parada da Diversidade, enfim, entronizou o calendário do Recife.

Uma lan-house no céu

A personagem mais interessante de Nosso Lar resume a inquietação que poderá tomar muitos espectadores quando o filme estrear, na próxima sexta-feira (3). Inconsolada por ter morrido repentinamente, ela decide abandonar o mundo espiritual e diz: “Por que tudo aqui tem que ser tão moralista? Todos têm sempre um conselho pra te dar”. Troque esse plano espiritual pelas salas de cinema e Heloísa, a personagem de Rosane Mulholland se torna uma alegoria dos defeitos do próprio filme.

Nosso Lar é a mais cara produção até hoje feita no País, com R$ 17,5 milhões. Mais até do que Lula, O Filho do Brasil, que foi orçado em R$ 16 mi e tinha dinheiro público. Apesar dessa superprodução, o longa não consegue criar empatia com o público, não se torna crível e possível aos olhos de quem assiste. Isso é um requisito essencial quando se trata de criar mundos imaginários (ou imaginados, para alguns, nesse caso), e este longa dirigido por Wagner de Assis é muito deficiente nesse sentido.

O filme se veste de uma série de ideias previsíveis do que poderíamos esperar de um mundo evoluído, o ceu ou algo do tipo. Roupas esvoaçantes de tons claros, ceu azul, gaivotas voando, figurantes se comportando como um comercial de margarina. Um pós-vida cafona, pra resumir. Já o Umbral, o oposto mundo inferior, até transmite um tom de realismo, mas não se aprofunda. Fica como um painel que poderia ser melhor bem explorado.

Os efeitos especiais foram feitos pela mesma equipe que trabalhou em Watchmen. Mas, o roteiro mais uma vez foi no óbvio. Espirítos de luz que mais se pareciam com painéis fluorescentes, raios verdes para representar bons fluidos, fumaça e trovoadas para momentos de terror.

O texto complica a experiência de ver esse cenário ascético. As falas parecem saídas de um jogral teatral, falta naturalidade, realismo. Sem falar do tom professoral e austero compartilhado unanimamente por todos os habitantes do lugar. Mais uma vez, a produção optou pelo caminho mais fácil ao fazer com que todo o elenco interpretasse o mesmo personagem.

A única exceção disso é Heloísa. A personagem destoa desse mundo, veste-se como uma pessoa normal, tem expressões, e em determinado momento, tenta fugir. Para quem não é espírita, ela funciona como uma reflexão: se todos temos livre-arbítrio, ela decide que aquele mundo tão belo e seguro também representa um tipo de prisão. É um dos poucos momentos em que o filme sugere ao espectador um conflito, uma questão. De resto, tudo é entregue pronto, mastigado e explicadinho, como numa palestra.

A própria Rosanel Mulholand, que interpreta Heloísa, destoa do resto do filme, talvez beneficiada por seu papel. Ao contrário de seu protagonista, Renato Pietro, que demora a soar convincente em seu papel de homem que se regenera e muda de vida. Umbral, mundo superior. Do modo como foi retratado, Nosso Lar, o filme, deixa dúvidas do que pode ser pior.

Resenha de Nosso Lar, que escrevi para o JC.

Noticiário policial pernambucano tem vilãs dignas de ficção

Algumas vezes a vida imita a ficção. Em outras, supera com vantagem e deixa a opinião pública perplexa. É o caso do recente noticiário policial pernambucano. A morte da alemã Jennifer Kloker e o assassinato do professor e dentista Paulo Sperança mostram mulheres como protagonistas desses episódios que chocaram a população mais do que final de novela das oito.

A construção da vilã é recurso utilizado à exaustão na literatura e no cinema. Jogando com o papel imposto à mulher na sociedade atual, o mal encarnado no sexo feminino sempre gera bons enredos e atenção do público.

A atriz Kathy Bates, no auge da carreira, interpretou uma das mais interessantes vilãs das telonas. Em Louca obsessão, ela soube dosar na hora certa a revelação de sua maldade. No clímax do filme, diz, insana: “Eu coloquei duas balas na minha arma, uma pra mim e outra pra você. Oh, querido, isso vai ser tão lindo”.

Outra que era mestre em dissimulação era Catherine Tramell, vivida por Sharon Stone em Instinto Selvagem. Calculista e sedutora, ela matava os amantes durante o sexo com um picador de gelo. E mentia. Muito.

Ana Teresinha, suspeita de matar o marido, o dentista Paulo Sperança, chorava em seu enterro. Em uma imagem divulgada pela Polícia, aparecia ao lado do amante Júlio Neto, que antes realizou tentativa de homicídio a mando da amada. Segundo seus comparsas, Ana teria descido ao local do assassinato do marido para verificar se após duas tentativas frustradas, ele enfim tinha morrido. “Você não é gato para ter sete vidas”, teria dito segundo depoimento dado à delegada pelos criminosos confessos. Ela, como Catherine, nega tudo.

E Delma, que antes de ser presa como mandante do assassinato da alemã Jennifer Kloker deu entrevista aos jornais com uma camisa escrito “Jenny – por onde quer que eu vá eu vou te levar para sempre”. Mesmo todos os outros envolvidos terem assumido participação no crime, ela continua negando todas as acusações. Na maior emulação da vida real, as brasileiras utilizam dessa matéria-prima rica que sai dos noticiários políticos.

Em Senhora do Destino, de 2004, o escritor Aguinaldo Silva criou a vilã Nazaré inspirado na empresária Vilma Martins Costa, conhecida pelo Caso Pedrinho, quando sequestrou da maternidade o recém-nascido dos braços da mãe com a desculpa de que iria fazer exames. Descoberta, ela foi condenada a 13 anos de prisão e o garoto voltou a viver com os pais biológicos aos 16 anos. Nazaré é até hoje um dos trabalhos mais conhecidos de Renata Sorrah. E, em matéria de maldade, só perde em popularidade para (Patrícia Pillar), de A Favorita,que também se escondia sob um manto de candura.

Portanto não se espante se em breve algum folhetim conte a história de Ana Terezinha ou Delma. Em relação à extensa cobertura jornalística para esses casos, algo curioso há de se observar. Nos jornais locais praticamente inexiste o gênero da crônica policial. Aquele texto mais leve e menos factual em que o leitor possa ver em perspectiva o que significam esses crimes. Essas vilãs são construídas na velocidade de um twitt e, antes mesmo de uma narrativa chegar ao fim, outra logo surge no lugar. Nelson Rodrigues teria matéria-prima de sobra se estivesse vivo.

Texto publicado originalmente no JC Online. Essa matéria fez parte de uma reportagem que comentava a onda de mulheres criminosas no Estado, “O Mal Vestido de Mulher“, escrito pela colega Luísa Ferreira. Achei muito legal fazer.

O Último Mestre do Ar é outra bola fora de M. Night Shyamalan

Depois de Harry Potter, assinar uma série multimilionária em Hollywood virou meta da vida de muitos diretores. M. Night Shyamalan ganhou a sua, depois de ter no currículo hits como Corpo Fechado e O Sexto Sentido. , que estreia nesta sexta-feira em todo o País, é a tentativa frustrada do diretor de colar suas referências de autor a uma saga de ação inspirada em um famoso desenho animado.

Quem não for um obcecado pelo desenho animado que deu origem ao filme (crianças e alguns marmajos) e for ao cinema em busca de uma experiência divertida em 3D, vai se decepcionar. Os recursos aqui são pífios, e torna a imagem escura sem necessidade. O filme tem o que projetores e técnicos chamam de “terceira dimensão recauchutada”, ou seja, a produção não foi pensada originalmente para usar a tecnologia.

A tática é o jeito que os estúdios encontram de alavancar as bilheterias, sobretudo um filme com apelo infantil como esse O Último Mestre do Ar. Mas o resultado é fraco. A história fala de quatro reinos que dominam os elementos água, ar, terra e fogo e têm entre seus moradores pessoas especiais que controlam os elementos. O equilíbrio é mantido por um ser chamado de Avatar, que faz a ponte entre o mundo espiritual, que garante a ordem no planeta.

Por algum motivo, esse Avatar desapareceu e seu retorno ao mundo, 100 anos depois, é o mote deste longa. Ele é um garoto, Aang, o novato Noah Ringer, que ainda não completou seu treinamento e precisa salvar o mundo dos tiranos do Reino do Fogo, que querem destruir tudo que há de espiritual para manter o controle. O filme tenta tocar em assuntos como preconceito racial, etnocídio (o Reino do Ar foi totalmente dizimado), mas é raso e chama atenção apenas pelos efeitos especiais feitos pela empresa de George Lucas.

No elenco se destacam Dev Patel, famoso como astro de Quem Quer Ser Um Milionário, e Ringer, que é um faixa-preta de kung-fu na vida real. O resto serve como escada para os efeitos especiais de encher os olhos nessa produção que é uma mistura nonsense de Matrix, Sete anos no Tibet e Senhor dos Anéis.

Shyamalan ainda tenta fazer uso da parte espiritual da história como forma de linkar com seus outros filmes que tratam do “desconhecido”, como A Dama da Água e Corpo Fechado. Mas é um trabalho que não retoma a relevância desse diretor que foi elogiado no início da carreira com Sexto Sentido (1999).

O AVATAR ORIGINAL – Desenho que deu origem ao filme, Avatar – O Último Mestre do Ar fez bastante sucesso no Brasil e foi exibido pelo canal Nickelodeon e, na TV aberta, pela Globo. Mesmo sendo mais antigo, o filme não pôde usar o nome original por causa do longa de James Cameron de mesmo nome que estreou ano passado.

Texto publicado no JC Online.

Página 2 de 3

Jazz Metal é um blog da Revista O Grito!. Todos os direitos reservados. © 2013–2020