é obra-prima sobre a dignidade nos momentos finais da vida

O diretor austríaco Michael Hakene sempre foi conhecido pela ausência de condescendência por seu público. Seus filmes tratam de maneira crua e ultrarealista temas como intolerância e violência, o que lhe rendeu adjetivos como “cruel” e “frio” depois de longas como Caché e A Fita Branca. Com este novo e aclamado Amor, o diretor retorna com o mesmo estilo para falar do mais nobre dos sentimentos. Vencedor da Palma de Ouro em Cannes ano passado, o filme surpreendeu ao receber cinco indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, diretor e roteiro original.

A história aborda o cotidiano de dois idosos em Paris. Anne (Emmanuele Riva) e George (Jean-Louis Trintignant) são dois músicos aposentados que se deparam com uma triste e irrevogável realidade: estão envelhecendo. Numa certa manhã, ela mostra sinais claros de demência. Depois, sofre um derrame que a deixa com o lado direito do corpo paralisado. A seguir, outras complicações vão comprometendo suas habilidades motoras e mentais, o que modifica por completo o estilo de vida do casal.

Haneke não manipula o público como seria comum com um roteiro tão triste como este. Ao contrário, ele revela uma série de acontecimentos tão duros quanto verdadeiros. Grande parte do filme é gasta com o processo de adaptação do casal para enfrentar a degeneração física e mental, em atos como uma ida ao banheiro, as noite de sono incômodas, tudo com total ausência de sentimentalismo. Tudo se passa dentro de um apartamento em Paris, o que transmite uma sensação de claustrofobia ao espectador, que torna-se uma testemunha impotente daquelas situações.

Revelando um humanismo incomum no cinema hoje em dia, Haneke mostra que a velhice não é algo simples de compreender. Amor joga por terra concepções muitas vezes hipócritas da chamada “melhor idade”. Em certo momento, uma das cuidadores de Anne demonstra uma violência perturbadora ao lhe tirar a dignidade por causa de seu estado. As cenas cruas que podem causar algum estresse em quem assistir foram a forma que o diretor encontrou para demonstrar respeito àquele casal e sua história. É uma crônica sobre a morte enfrentada de frente, sem um falso conforto, sem mentiras, com um senso que muitas plateias não estavam preparadas – e ninguém, de fato, está, seja na sala do cinema, na vida real.

Esse sentimento de incompreensão fica ainda mais explícito com as visitas da filha do casal, vivida por Isabelle Hupert, que critica o isolamento desejado pela mãe. Haneke abandona seu rigor formal e estilo seco de direção em poucos momentos durante o filme. Em um dado momento, ele retoma o suspense presente em alguns dos seus filmes em uma sequência de pesadelo de George. Em outro, ele mostra a presença incômoda de um pombo que entra pela janela, o que rende algumas interpretações.

O trabalho dos atores é outro alicerce do filme, com destaque para Emmanuelle Riva, atriz francesa de 85 anos que conseguiu uma indicação como melhor atriz. Ela é a pessoa mais velha a ser indicada na história da Academia. Sua interpretação de uma idosa que vai perdendo suas faculdades mentais e controle sobre o corpo é estonteante de se ver. Ao lado de Jean-Louis Trizntignan, eles conseguem realizar um trabalho que mostra os desafios de manter a dignidade frente à velhice, à medida em que a sanidade começa a fraquejar.

E o amor do título vai ficando cada vez mais claro conforme a projeção chega ao fim. A relação do casal deixa claro que a humanidade tem em sua natureza, muitas vezes, um sentimento altruísta, de cuidado e importância com o outro, sem esperar nada em troca por isso. E Haneke, como autor, mostra que o cinema nem sempre precisa ser entretenimento, mas sim uma reflexão sobre os diversos aspectos de nossa existência, até os mais duros.

AMOR
De
COM: Emmanuele Riva, Jean-Louis Trintignant e Isabelle Hupert
LANÇAMENTO: Imovision
PRODUÇÃO: Les Films Du Losange, FRA/AUS, 2012

* Texto escrito originalmente no NE10, no canal de Cultura.

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