A coluna de quadrinhos do portal NE10 retorna depois de um período sabático. E escrevi sobre um dos meus personagens favoritos, o queridão verde, Hulk.

Hulk, gigante verde e enfezado que amamos, completa 50 anos

O Incrível Hulk – este ser imenso, verde e enfezado que amamos – completa 50 anos. Sua primeira aparição aconteceu na revista The Incredible Hulk #1, em maio de 1962, pelo traço de Jack Kirby e roteiro de Stan Lee. “Ele é um homem ou um monstro… ou ambos?”, perguntava a Marvel em sua capa, ainda com o personagem na cor cinza.

De lá pra cá, Hulk foi crescendo em influência dentro dos quadrinhos de super-heróis, mas nunca se encaixou bem na acepção mais restrita do termo. As histórias sempre se baseavam na luta do cientista Bruce Banner contra sua contraparte poderosa. Mas, durante as décadas, os criadores tentaram encaixá-lo nos mais diversos argumentos. Hulk já fez parte de super-grupos (Defensores, Vingadores), foi fugitivo procurado pelo Governo, vilão, ganhou uma prima igualmente verde e forte (Mulher-Hulk), ganhou personalidade sarcástica, entre diversas outras.

Uma das influências de Stan Lee para o personagem foram os filmes de Frankstein, interpretados por Boris Karloff. O maior criador da Marvel achou interessante criar um monstro que não fosse um vilão. Hulk não queria machucar ninguém, mas a perseguição que sofria das pessoas, do governo e de outros super-seres acabavam por deixá-lo irritado. Em uma das suas primeiras e mais famosas falas, disse: “sai da minha frente, inseto!”. Em sua origem, o renomado dr. Bruce Banner sofre um acidente em um experimento com raios gama e torna-se um ser imenso e superforte (vale ressaltar que na época da Guerra Fria, o mote dos poderes derivados da radição era forte por causa da corrida nuclear EUA-URSS).

Ícone da cultura pop e um dos personagens mais famosos da Marvel, Hulk fez sucesso em uma série de TV nos anos 1970 interpretado por Lou Ferrigno e chegou a ser capa da revista Rolling Stone no auge da popularidade. Nos quadrinhos, suas fases mais aclamadas foram a longa fase do escritor Bill Mantlo no título e Peter David, em especial a fase ao lado do desenhista Todd McFarlane, nos anos 1980.

David também foi responsável pela clássica história em que o personagem trata do espinhoso tema da aids, em 1991. A doença era um estigma ainda maior do que hoje e pouco compreendida pela opinião pública. Os leitores conheceram Jim Wilson, um amigo de longa data de Bruce Banner, que se revelava HIV-positivo. Já nos anos 2000, Bruce Jones teve respaldo da crítica para uma trama de conspiração com muito suspense. Destaque para Bruce Banner usando yoga para controlar Hulk.

Os quadrinhos no Brasil
O personagem sempre foi um dos destaques da Marvel no Brasil. Seu título teve uma vida longeva pela editora Abril, começando em 1983 até 1997, em um total de 165 edições, fora os especiais. Quando a Panini adquiriu os direitos, deu novamente uma revista ao personagem, desta vez com vida breve, com apenas 16 números (2004-2006). Curiosamente, esse período cobre a elogiada fase de Bruce Jones e sua conspiração envolvendo Hulk e o governo americano. Vale a pena procurar em sebos ou comic-shops. Atualmente, as histórias são publicadas dentro do almanaque mensal “Universo Marvel” (100 págs, R$ 14,90). A fase atual é controversa e enfrenta críticas, sobretudo ao roteiro confuso que colocou até mesmo um Hulk vermelho (!).

Nos cinemas, enfim o Hulk definitivo
O filme recente dos Vingadores nos fez lembrar que Hulk foi um dos membros originais dos Vingadores. E que sua importância é grande no Universo Marvel. Mesmo que nunca leu revistas de super-heróis sabe da existência do personagem, tamanha sua força no imaginário popular.

Por isso, a Marvel não iria deixá-lo de fora do blockbuster Os Vingadores. Interpretado por Mark Ruffalo, o gigante verde enfim ganhou uma boa versão nos cinemas. Os dois filmes anteriores pecaram no roteiro e no conceito do herói. Ang Lee, diretor do primeiro longa, mudou a proposta de sua origem para uma história que tratava da relação pai e filho. Já o segundo, com Edward Norton no papel principal, mostrava um Hulk gigantescamente desproporcional. Agora, parece, encontramos o Hulk perfeito, com boa atuação e efeitos especiais convincentes.

O Hulk somos nozes
Um olhar mais detalhado sobre o universo dos super-heróis sempre vai revelar conceitos sobre a natureza humana bastante pertinentes — ainda que em uma roupagem pop. Hulk personifica toda a raiva e frustração que as pessoas vão guardando dentro do cotidiano da vida em sociedade. Um lado bruto. Há quem acredite que o Hulk verde tenha relações com a infância, já que é neutro em suas intenções. É bem diferente do Hulk Cinza, uma personalidade intermediária que condensa toda sua fúria em cinismo e desprezo pela sociedade. Nas HQs, teve uma longa fase conhecido como Sr. Tira Teima. Muitos estudiosos relacionaram a origem de Hulk às teorias de Friedrich Nietzsche (1844 – 1900), que defendia um indivíduo soberano livre das amarras sociais. Filósofos mais antigos, como Sócrates, Descartes e Emmanuel Kant também teorizaram sobre esse lado interior guardado em sobreposição ao comportamento que temos em sociedade. Em resumo, essa vontade suprimida de dizer: “HULK ESMAGA!!!”.

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