Revista O Grito!

Jazz Metal — Por Paulo Floro

Data: 3 de dezembro de 2010

Beatles antes de Abbey Road

Essa pérola veio via email por @nietzschiana.

Um Oscar para Harry Potter

O critico Mary McNamara inicia uma campanha online para que a Academia de Artes e Ciências pare de ignorar a série Harry Potter. Segundo ele, atores, produtores e roteiristas tem carreira suficiente para levar a estatueta para casa. “Parem de ignorar a magia de HP”.

Endosso a campanha. O penúltimo filme de Harry Potter – tão sombrio quanto os dois anteriores – é uma das melhores coisas que vi esse ano nos cinemas.

A carta na íntegra aqui. (em inglês).

Entrevista Maurício de Sousa

Entrevista que fiz com Maurício de Sousa. Fui encontrá-lo no Hotel Recife Palace, em Boa Viagem, numa manhã de terça, em dezembro. Ele esteve no Recife para falar de negócios. Quer trazer seus licenciamentos para empresas do Nordeste. Decidi fazer uma espécie de entrevista definitiva, perguntando tudo que sempre quis saber sobre quadrinhos da Turma da Mônica. Afinal, não sei quando vou encontrá-lo de novo.

Saiu no Jornal do Commercio e no JC Online. A foto é de Tiago Calazans.

O desenhista Maurício de Sousa é tão conhecido como sua mais famosa criação, a Mônica. É a força da sua imagem um dos fatores determinantes para o sucesso ininterrupto em mais de 50 anos da Turma da Mônica, que desde o primeiro número já vendeu mais de 1 bilhão de revistas. Desde o ano passado, quando comemorou meio século dedicado às aventuras de Mônica, Cebolinha e companhia, o estúdio de Maurício mostra que está se adaptando aos novos tempos, buscando dialogar com novos públicos e experimentar novos estilos

Um dos projetos mais ousados pretende regionalizar as histórias, introduzindo personagens de diversas regiões do País que irão viver no mítico bairro do Limoeiro, onde se passam as histórias. E não é só de novos sotaques que vive a próspera nova fase dos quadrinhos de Maurício de Sousa. Sua criação mais ousada, a Turma da Mônica Jovem, conseguiu um sucesso inédito no mercado nacional vendendo mais de 1,5 milhão de exemplares em suas quatro primeiras edições. O título introduz novos temas e busca dialogar com um outro público. “Havia uma vontade do leitor em conhecer esses personagens crescidos”, ele diz.

Em entrevista ao JC Online, ele falou de planos para o futuro e do sentimento de ver sua criação reimaginada por jovens autores, no sucesso da série MSP50. Sucesso de crítica e público, a HQ vai ganhar um terceiro volume em 2011. Aos 74 anos, Maurício veio ao Recife em busca de fomentar mais negócios na região Nordeste com os produtos ligados à Turma da Mônica. Em parceria com a Full Marcas, a ideia é que esses novos licenciamentos estejam mais próximos da cultura nordestina.

A revista Mônica Jovem é um sucesso de público, com uma vendagem maior que as histórias tradicionais. A que o senhor atribui esses número? Esperava um retorno tão positivo?
MAURÍCIO DE SOUSA – Não quero parecer metido, mas esperava tudo isso sim. Sabia da força dos personagens, afinal são 50 anos da turminha. Havia uma vontade do leitor em conhecer os personagens quando eles crescessem, como seria a Mônica, o Cascão, o Cebolinha depois da infância. Quando eu julguei que era a hora, em termos estratégicos para enfrentar o mangá japonês, decidimos criar a revista. Esperei também o melhor momento em termos pessoais, para curtir o desenvolvimento das histórias, de ver os meus personagens mais mocinhos. Foi uma satisfação e tenho certeza que esse sucesso vai continuar. É uma história que, além da qualidade do conteúdo tem o lado aspiracional. O leitor menor, que ainda não tem a idade adequada para ler a turma jovem, quer ser aquele jovem bonito, vestido de forma moderna. Muitos torceram o nariz quando saiu, mas o produto se mostrou um sucesso. Vende mais que o dobro de todas as outras revistas juntas.

Mônica Jovem tenta dialogar com um outro tipo de público, menos infantil e mais adolescente? Vocês conseguiram diferenciar o público leitor da publicação?
MAURÍCIO DE SOUSA – Fizemos recentemente uma pesquisa bem sofisticada e detalhada que mostrou que 50% dos leitores da revista têm de 10 a 16 anos. E 20% têm menos de 10 anos. Foi uma surpresa atingir essa faixa etária cinzenta de leitores maiores, que não costumam ler nada. Os outros 5% são de adultos.

Alguns puristas e pessoas mais conservadoras criticaram o senhor quando lançou Turma da Mônica Jovem? Alguns pais reclamaram do teor das histórias ou dos temas?
MAURÍCIO DE SOUSA – A maior parte das reclamações veio de pessoas que curtiam a Turma da Mônica e achavam que estaríamos mexendo nas suas lembranças de infância. Mas a memória é imutável. Hoje esse pessoal que criticava, que dizia que eu nao deveria ter mexido no material original já está acompanhando as histórias. É uma coisa que enfrentei bem e sabia que ia acontecer por causa do sucesso. No final, as pessoas viram que, na verdade, demos continuidade às memórias delas.

Qual o desafio de manter viva a Turma da Mônica nas crianças durante tanto tempo?
MAURÍCIO DE SOUSA – São dois fatores. Um é termos tido o cuidado de manter nas histórias temas que falem do dia a dia, que usem a linguagem do momento, que sejam atuais. Não adiantaria fazer uma história adequada ao público jovem se eu nao tivesse uma parceria de um bom editor, uma boa distribuidora, ficaria tudo na gaveta. Sempre tive cuidado de me associar com parceiros com capacidade de aguentar o peso do sucesso que eu sei que faz nossos personagens. Nisso a Panini [atual editora que publica os gibis] está dando um banho, e detém mais de 80% do mercado graças ao nosso produto. Logicamente teremos cobertura de desenhos animado em breve, além dos licenciamentos, entre outros fatores.

Acreditava que os pais também eram responsáveis por fazer com que novas gerações conhecessem os personagens?
MAURÍCIO DE SOUSA – Os pais ajudam bastante, mas em muitos casos, a criança é que é a responsável, pois quando o gibi cai na sua mão, levam pra casa. E como muitos pais querem ver o que as crianças estão lendo, acabam tendo contato. Por isso, temos essas duas forças contribuindo para o sucesso.

Recentemente, o senhor introduziu um personagem “aparentemente gay” nas histórias da Tina. Ele terá destaque no futuro? Existe essa pressão de criar personagens representativos de grupos/etnias, etc?
MAURÍCIO DE SOUSA – Existe sim. Como atingimos milhões de leitores, muitos grupos me procuram, mas sempre explico que o nosso material é comercial, tem um lado educativo, de incentivo à leitura, mas é sobretudo comercial. Precisamos vender para sobreviver, não podemos levantar bandeira fora da época. Temos que pegar a bandeira já passando. Por isso, mexer com etnias, minorias, tudo será feito em sua época adequada, quando a sociedade já estiver aceitando. Não posso, nem pretendo me aventurar a lançar um personagem que vai quebrar paradigmas, arrebentar com o sistema. É uma responsabilidade muito grande que tenho com meus editores, distribuidores, desenhistas e toda uma equipe comercial com quem trabalho. Aos poucos, vamos nos adequando à realidade social, tudo com naturalidade. Em relação a esse personagem, houve uma interpretação de que ele fosse gay. Talvez ele seja, nem seu sei. Por causa da gritaria, da polêmica, dei um tempo no assunto e vou aguardar o momento certo.

O público está preparado para novos temas como drogas, sexo? É discutido isso com os roteiristas?
MAURÍCIO DE SOUSA – A maior parte dos roteiristas trabalham fora do estúdio. Tomei essa decisão para dar mais qualidade de vida e aumentar a qualidade do trabalho. Temos profissionais espalhados por 12 estados e, a cada mês, nos reunimos em São Paulo para uma reunião de pauta. É aí que discutimos que temas vamos tratar, introduzimos personagens novos, fazemos algumas correções de percurso e vemos no que podemos melhorar. Conversamos também qual direcionamento vamos dar a determinado assunto.

O cenário das histórias da Mônica vive um certo saudosismo do tempo em que crianças brincavam no parquinho, faziam jogos na rua. Com a violência, muitos jovens vivem fechados em seus condomínios, escolas. Já pensaram em trazer mais desse realismo para as histórias?
MAURÍCIO DE SOUSA – Estamos muitas vezes engradados aqui na cidade grande, na área urbana, mas existe um outro lado do mundo que ainda tem rua de terra batida, campo de matinho, bairros com casas aqui e ali, onde não passam muitos carros, onde crianças podem correr soltas. Eu vivo viajando pelo mundo, não só no Brasil, entrando pelo interior e achei diversos “bairros do Limoeiro”. Eu prefiro isso a prédios, apartamentos. Apoio o que acredito ser ideal para os meus filhos viverem e, como nao estou inventando nada, vamos continuar no bairro do Limoeiro como ele é. Quem sabe no futuro não nos usem como inspiração ou modelo para voltarmos a viver como os personagens da Turma.

É verdade que o senhor desenha apenas o Horácio? Como tem sido sua relação com as histórias que são feitas hoje? O senhor opina, traz temas, cria argumentos?
MAURÍCIO DE SOUSA – O Horácio só eu que desenho. Ainda não consegui passar para a equipe a história, a filosofia do personagem, o grafismo. Como vem aí o longa-metragem do personagem, serei obrigado a desenhar de novo, o que eu adoro, só o tempo não deixa. Acredito que consigo fazer uma página por semana, como fazia antigamente. Se eu bem me lembro, escrevo e desenho uma página em 40 minutos.

Existe uma espécie de escola Maurício, para desenhar, fazer quadrinhos como você?
MAURÍCIO DE SOUSA – Hoje, como os roteiristas conhecem tudo da Mônica, tudo já vem pronto. Eu só analiso, vejo equilíbrio, narrativa, e aprovo todas as histórias. Tudo passa pela minha mão, grande parte pela internet. Às vezes, faço um rascunho para orientar como quero algo, e com isso fazemos um bom trabalho de equipe, onde cada um figura como criador de uma história ou uma situação.

Uma recente edição especial com uma homenagem a Michael Jackson trouxe a equipe criativa creditada, o que é incomum nas histórias da Turma da Mônica. Existe essa tendência de dar nome aos autores das HQs?
MAURÍCIO DE SOUSA – Sim, lógico. Acaba de sair uma homenagem ao [programa humorístico] CQC, criada pela minha filha, Marina, e claro que tem que ter o crédito dela. O Michael Jackson foi o Pedro Beck, de Florianópolis, quem fez. Ele me mandou um rascunho tão bom, que publiquei do jeito que veio. Ele desenha muito bem. Cada vez mais vamos criar histórias especias e creditar os roteiristas e desenhistas.

Como é o modo de produção das histórias da Mônica?
MAURÍCIO DE SOUSA – O pessoal trabalha lendo os gibis, copiando os desenhos. Se tiver estudado direitinho, já passa nessa nossa seleção. Nesse momento estou precisando de roteiristas e desenhistas para trabalharem conosco. Vou abrir um concurso nacional ano que vem. Não precisa, necessariamente, morar em São Paulo, artista de qualquer região pode participar. A internet tornou tudo mais fácil. Então vem aí um crescimento do nosso estúdio, até mesmo virtual, com novos profissionais, novas revistas, muito desenho animado.

O projeto MSP50 fez muito sucesso. Como foi ver outros artistas brasileiros trazendo novas visões de suas criações?
MAURÍCIO DE SOUSA – Eu tive várias surpresas agradáveis. Algumas me emocionaram mesmo, usaram ângulos que eu nunca tinha pensado. Os desenhos são lindos, de uma forma que nunca imaginei. Tão bonitos que a maioria desses artistas estão sendo chamados por outras editoras, até do exterior. Fiquei feliz de abrir esse caminho para os novos talentos. Foi um trabalho duro de orientar e direcionar o pessoal. Concordamos que tínhamos que dar liberdade aos criadores usarem o próprio traço, alterarem os personagens, mas tinham algumas coisas que eles não podiam fazer. Não era permitido matar ninguém, não podia ter sacanagem, nem nada que pudesse chocar o público, como algo escatológico. Só uns dois reclamaram e apenas um não aceitou fazer por causa dessas condições. Em mais de 100 com quem trabalhamos, acredito que foi um sucesso. Para nossa surpresa, já vamos para o terceiro volume.

Existe algum projeto de transformar o MSP50 em uma série regular? Ainda está nos planos lançar graphic novels com novos autores?
MAURÍCIO DE SOUSA – Não é um projeto, é uma ideia que está em discussão junto com a editora, afinal é um investimento grande. Mas estou apostando que vai sair, sim.

O senhor veio ao Recife falar de seus cases de sucesso e muitas pessoas o tem como um gênio do marketing. Como separar o Maurício artista e o empresário?
MAURÍCIO DE SOUSA – Vamos dizer que sou um desenhista que acredita no resultado do que faz. Por isso, o desenho pode ir para qualquer lado, animação, teatro, cinema, roupas. Não estou inventando nada, os americanos fazem isso há mais de 100 anos. Eu só enxerguei a oportunidade, vi como eles faziam, adequei ao nosso mercado e, nos últimos 50 anos, tem dado certo.

Muito tem sido discutido sobre a publicidade para crianças. Existe um limite para o merchandising com personagens da Mônica?
MAURÍCIO DE SOUSA – Existe uma diretriz básica de não aceitar produtos que possam fazer mal, como cigarro, bebida alcóolica, e logicamente, assinamos contratos com empresas que tenham histórico com público infantil. Temos que seguir uma legislação, determinação e ainda seguir a nossa consciência. Alguns produtos que aceitamos anteriormente, nao usamos mais. Quando achamos que há algum exagero na apresentação ao público, também pedimos alteração. Temos esse cuidado constante. E também a criança não é tão frágil como se pensa, nem mesmo a família é tão fraca que não possa direcionar os hábitos dos filhos. O Estado não deve se arvorar e ser o tutelar da criança, isso é papel da família. Temos que brigar por melhores produtos para não criar condições a alguns “talibãs” proibirem coisas. A proibição é a pior forma de regulação.

Já enfrentou problemas de algum personagem ficar atrelado a uma marca como foi o Jotalhão certa época?
MAURÍCIO DE SOUSA – Eu não vejo problema. Geralmente são marcas boas, como foi a Cica, que fez o extrato de tomate que você citou. Produtos bons não tem problemas que sejam atrelados.

Já pensou em criar algum personagem com sotaque nordestino?
MAURÍCIO DE SOUSA – Antes mesmo dessa parceria com a Full Marcas para trazer produtos para cá, elaboramos um projeto de criar personagens de cada região do País. Eles vão compor novas famílias que irão morar no bairro do Limoeiro e mandarão informações sobre os hábitos e costumes de cada pedaço do Brasil. Também estamos criando novas revistas dentro dessa proposta para o ano que vem.

Isso poderá contribuir de alguma maneira com recentes episódios de xenofobia que aconteceram em São Paulo?
MAURÍCIO DE SOUSA – Com certeza. As HQs atingem a criançada, e criança, teoricamente, nasce sem preconceito. Adultos idiotas envenenam esses pequenos com ideias de intolerância. Precisamos injetar essas vacinas de amor, carinho, inclusão, para que elas não cresçam ouvindo idiotices.

Planos para os novos filmes?
MAURÍCIO DE SOUSA – Estamos fazendo muitas animações, como Ronaldinho Gaúcho, Mônica, Astronauta. De longas, teremos Horácio e Mônica no ano que vem, com forte distribuição da Disney.

Como está a presença da Mônica no exterior? Lembro de ter visto uma edição chinesa. Existem planos de uma campanha maior em outros países?
MAURÍCIO DE SOUSA – Ainda falta muito para chegarmos ao sucesso que temos por aqui. Fiz um novo contrato para entrar na Itália, Alemanha, Argentina e México. Já estamos há algum tempo em países da Ásia. O personagem que mais vende lá fora é o Ronaldinho Gaúcho, em 32 idiomas. A Mônica vem em segundo, com 20. Não tenho do que me queixar, já que futebol vende bem (risos). Agora vamos pressionar com a Panini uma maior entrada no mercado internacional.

Qual a lembrança mais remota que o senhor tem de tentar publicar gibis da Turma da Mônica?
MAURÍCIO DE SOUSA – Eu morava em São Paulo nos anos 1960 e as editoras principais estavam no Rio de Janeiro. Peguei minhas tirinhas, que já estavam saindo na Folha de S. Paulo e fui ao Rio tentar publicar minha revista, que era o objetivo maior de qualquer desenhista. Na Ebal, uma grande editora da ocasião, examinaram meu material e disseram que nao tinham interesse porque era muito paulista. Na editora Rio Gráfica, que seria a Globo, falavam ‘deixa aí que quando tiver espaço em alguma revista do Mandrake ou Fantasma, a gente usa’. Não quis e tentei O Cruzeiro, que publicava o Pererê, do Ziraldo. Ele disse que a editora estava com alguns problemas, e naquela época, de fato o Diarios Associados enfrentavam uma crise. Ele disse que não precisava de personagens novos e sim de mais material do Pererê. Fui pra pensão em que estava hospedado e fiz meia dúzia de tiras para o Ziraldo, queria entrar no esquema de todo jeito. Aquele bandido perdeu essas tiras (risos)! Tanto ele quanto eu estamos procurando, porque hoje é uma raridade.

Mas e a primeira revista?
MAURÍCIO DE SOUSA – Quando ainda era repórter, fiz uma revistinha chamada Bidu, que eu desenhava de madrugada, nas folgas. Só aguentei quatro números. Foi então que, em 1970, consegui juntar uma equipe para lançar a Mônica pela editora Abril, que deslanchou todo o processo.

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