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Jazz Metal — Por Paulo Floro

Noticiário policial pernambucano tem vilãs dignas de ficção

Algumas vezes a vida imita a ficção. Em outras, supera com vantagem e deixa a opinião pública perplexa. É o caso do recente noticiário policial pernambucano. A morte da alemã Jennifer Kloker e o assassinato do professor e dentista Paulo Sperança mostram mulheres como protagonistas desses episódios que chocaram a população mais do que final de novela das oito.

A construção da vilã é recurso utilizado à exaustão na literatura e no cinema. Jogando com o papel imposto à mulher na sociedade atual, o mal encarnado no sexo feminino sempre gera bons enredos e atenção do público.

A atriz Kathy Bates, no auge da carreira, interpretou uma das mais interessantes vilãs das telonas. Em Louca obsessão, ela soube dosar na hora certa a revelação de sua maldade. No clímax do filme, diz, insana: “Eu coloquei duas balas na minha arma, uma pra mim e outra pra você. Oh, querido, isso vai ser tão lindo”.

Outra que era mestre em dissimulação era Catherine Tramell, vivida por Sharon Stone em Instinto Selvagem. Calculista e sedutora, ela matava os amantes durante o sexo com um picador de gelo. E mentia. Muito.

Ana Teresinha, suspeita de matar o marido, o dentista Paulo Sperança, chorava em seu enterro. Em uma imagem divulgada pela Polícia, aparecia ao lado do amante Júlio Neto, que antes realizou tentativa de homicídio a mando da amada. Segundo seus comparsas, Ana teria descido ao local do assassinato do marido para verificar se após duas tentativas frustradas, ele enfim tinha morrido. “Você não é gato para ter sete vidas”, teria dito segundo depoimento dado à delegada pelos criminosos confessos. Ela, como Catherine, nega tudo.

E Delma, que antes de ser presa como mandante do assassinato da alemã Jennifer Kloker deu entrevista aos jornais com uma camisa escrito “Jenny – por onde quer que eu vá eu vou te levar para sempre”. Mesmo todos os outros envolvidos terem assumido participação no crime, ela continua negando todas as acusações. Na maior emulação da vida real, as brasileiras utilizam dessa matéria-prima rica que sai dos noticiários políticos.

Em Senhora do Destino, de 2004, o escritor Aguinaldo Silva criou a vilã Nazaré inspirado na empresária Vilma Martins Costa, conhecida pelo Caso Pedrinho, quando sequestrou da maternidade o recém-nascido dos braços da mãe com a desculpa de que iria fazer exames. Descoberta, ela foi condenada a 13 anos de prisão e o garoto voltou a viver com os pais biológicos aos 16 anos. Nazaré é até hoje um dos trabalhos mais conhecidos de Renata Sorrah. E, em matéria de maldade, só perde em popularidade para (Patrícia Pillar), de A Favorita,que também se escondia sob um manto de candura.

Portanto não se espante se em breve algum folhetim conte a história de Ana Terezinha ou Delma. Em relação à extensa cobertura jornalística para esses casos, algo curioso há de se observar. Nos jornais locais praticamente inexiste o gênero da crônica policial. Aquele texto mais leve e menos factual em que o leitor possa ver em perspectiva o que significam esses crimes. Essas vilãs são construídas na velocidade de um twitt e, antes mesmo de uma narrativa chegar ao fim, outra logo surge no lugar. Nelson Rodrigues teria matéria-prima de sobra se estivesse vivo.

Texto publicado originalmente no JC Online. Essa matéria fez parte de uma reportagem que comentava a onda de mulheres criminosas no Estado, “O Mal Vestido de Mulher“, escrito pela colega Luísa Ferreira. Achei muito legal fazer.

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