Revista O Grito!

Jazz Metal — Por Paulo Floro

Data: 9 de setembro de 2010

Uma lan-house no céu

A personagem mais interessante de Nosso Lar resume a inquietação que poderá tomar muitos espectadores quando o filme estrear, na próxima sexta-feira (3). Inconsolada por ter morrido repentinamente, ela decide abandonar o mundo espiritual e diz: “Por que tudo aqui tem que ser tão moralista? Todos têm sempre um conselho pra te dar”. Troque esse plano espiritual pelas salas de cinema e Heloísa, a personagem de Rosane Mulholland se torna uma alegoria dos defeitos do próprio filme.

Nosso Lar é a mais cara produção até hoje feita no País, com R$ 17,5 milhões. Mais até do que Lula, O Filho do Brasil, que foi orçado em R$ 16 mi e tinha dinheiro público. Apesar dessa superprodução, o longa não consegue criar empatia com o público, não se torna crível e possível aos olhos de quem assiste. Isso é um requisito essencial quando se trata de criar mundos imaginários (ou imaginados, para alguns, nesse caso), e este longa dirigido por Wagner de Assis é muito deficiente nesse sentido.

O filme se veste de uma série de ideias previsíveis do que poderíamos esperar de um mundo evoluído, o ceu ou algo do tipo. Roupas esvoaçantes de tons claros, ceu azul, gaivotas voando, figurantes se comportando como um comercial de margarina. Um pós-vida cafona, pra resumir. Já o Umbral, o oposto mundo inferior, até transmite um tom de realismo, mas não se aprofunda. Fica como um painel que poderia ser melhor bem explorado.

Os efeitos especiais foram feitos pela mesma equipe que trabalhou em Watchmen. Mas, o roteiro mais uma vez foi no óbvio. Espirítos de luz que mais se pareciam com painéis fluorescentes, raios verdes para representar bons fluidos, fumaça e trovoadas para momentos de terror.

O texto complica a experiência de ver esse cenário ascético. As falas parecem saídas de um jogral teatral, falta naturalidade, realismo. Sem falar do tom professoral e austero compartilhado unanimamente por todos os habitantes do lugar. Mais uma vez, a produção optou pelo caminho mais fácil ao fazer com que todo o elenco interpretasse o mesmo personagem.

A única exceção disso é Heloísa. A personagem destoa desse mundo, veste-se como uma pessoa normal, tem expressões, e em determinado momento, tenta fugir. Para quem não é espírita, ela funciona como uma reflexão: se todos temos livre-arbítrio, ela decide que aquele mundo tão belo e seguro também representa um tipo de prisão. É um dos poucos momentos em que o filme sugere ao espectador um conflito, uma questão. De resto, tudo é entregue pronto, mastigado e explicadinho, como numa palestra.

A própria Rosanel Mulholand, que interpreta Heloísa, destoa do resto do filme, talvez beneficiada por seu papel. Ao contrário de seu protagonista, Renato Pietro, que demora a soar convincente em seu papel de homem que se regenera e muda de vida. Umbral, mundo superior. Do modo como foi retratado, Nosso Lar, o filme, deixa dúvidas do que pode ser pior.

Resenha de Nosso Lar, que escrevi para o JC.

Noticiário policial pernambucano tem vilãs dignas de ficção

Algumas vezes a vida imita a ficção. Em outras, supera com vantagem e deixa a opinião pública perplexa. É o caso do recente noticiário policial pernambucano. A morte da alemã Jennifer Kloker e o assassinato do professor e dentista Paulo Sperança mostram mulheres como protagonistas desses episódios que chocaram a população mais do que final de novela das oito.

A construção da vilã é recurso utilizado à exaustão na literatura e no cinema. Jogando com o papel imposto à mulher na sociedade atual, o mal encarnado no sexo feminino sempre gera bons enredos e atenção do público.

A atriz Kathy Bates, no auge da carreira, interpretou uma das mais interessantes vilãs das telonas. Em Louca obsessão, ela soube dosar na hora certa a revelação de sua maldade. No clímax do filme, diz, insana: “Eu coloquei duas balas na minha arma, uma pra mim e outra pra você. Oh, querido, isso vai ser tão lindo”.

Outra que era mestre em dissimulação era Catherine Tramell, vivida por Sharon Stone em Instinto Selvagem. Calculista e sedutora, ela matava os amantes durante o sexo com um picador de gelo. E mentia. Muito.

Ana Teresinha, suspeita de matar o marido, o dentista Paulo Sperança, chorava em seu enterro. Em uma imagem divulgada pela Polícia, aparecia ao lado do amante Júlio Neto, que antes realizou tentativa de homicídio a mando da amada. Segundo seus comparsas, Ana teria descido ao local do assassinato do marido para verificar se após duas tentativas frustradas, ele enfim tinha morrido. “Você não é gato para ter sete vidas”, teria dito segundo depoimento dado à delegada pelos criminosos confessos. Ela, como Catherine, nega tudo.

E Delma, que antes de ser presa como mandante do assassinato da alemã Jennifer Kloker deu entrevista aos jornais com uma camisa escrito “Jenny – por onde quer que eu vá eu vou te levar para sempre”. Mesmo todos os outros envolvidos terem assumido participação no crime, ela continua negando todas as acusações. Na maior emulação da vida real, as brasileiras utilizam dessa matéria-prima rica que sai dos noticiários políticos.

Em Senhora do Destino, de 2004, o escritor Aguinaldo Silva criou a vilã Nazaré inspirado na empresária Vilma Martins Costa, conhecida pelo Caso Pedrinho, quando sequestrou da maternidade o recém-nascido dos braços da mãe com a desculpa de que iria fazer exames. Descoberta, ela foi condenada a 13 anos de prisão e o garoto voltou a viver com os pais biológicos aos 16 anos. Nazaré é até hoje um dos trabalhos mais conhecidos de Renata Sorrah. E, em matéria de maldade, só perde em popularidade para (Patrícia Pillar), de A Favorita,que também se escondia sob um manto de candura.

Portanto não se espante se em breve algum folhetim conte a história de Ana Terezinha ou Delma. Em relação à extensa cobertura jornalística para esses casos, algo curioso há de se observar. Nos jornais locais praticamente inexiste o gênero da crônica policial. Aquele texto mais leve e menos factual em que o leitor possa ver em perspectiva o que significam esses crimes. Essas vilãs são construídas na velocidade de um twitt e, antes mesmo de uma narrativa chegar ao fim, outra logo surge no lugar. Nelson Rodrigues teria matéria-prima de sobra se estivesse vivo.

Texto publicado originalmente no JC Online. Essa matéria fez parte de uma reportagem que comentava a onda de mulheres criminosas no Estado, “O Mal Vestido de Mulher“, escrito pela colega Luísa Ferreira. Achei muito legal fazer.

Difícil escolher

Pela primeira vez, a Rolling Stone Brasil colocou três capas nas bancas, um para casa presidenciável. Mesmo mostrando como esse trio é assustador, a ideia foi muito bacana e atual por trazer esse assunto bem às vésperas da eleição.

E mudando de assunto, espero que essa chamada de True Blood seja para aquela matéria da famosa capa com os protagonistas ensaguentados.

Via Dasbancas.

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