Um ensaio sobre a adolescência por Laís Bodanzky

Por Rafaella Soares

O dá muita sorte a Laís Bodanzky. Foi em uma sessão de 2001, no mesmo festival, que seu primeiro filme, Bicho de Sete Cabeças, teve uma repercussão absurda e ganhou nada menos que nove prêmios, incluindo Melhor Filme, Direção e Ator para Rodrigo Santoro.

Na sessão dessa quinta-feira (29), foi a vez de a diretora estrear “” (2010), prometido como a resposta anti-Malhação das telas. De fato, para a frequencia jovem, maioria expresiva desta edição do festival, a escola, se já não é mais uma realidade, tá logo ali, em lembranças recentes.

Não é o retrato de uma geração, mas vá lá, retrata uma parcela de jovens de São Paulo, brancos, classe média, com seus pais professores, antropólogos, esclarecidos, que trabalham para prover uma vida confortável que inclui a versão fictícia do colégio Equipe – “reaça” (reacionário), para um dos genitores, mas ainda assim esfera que ambienta a vida dos protagonistas na maior parte do tempo.

O filme revela o cotidiano de um grupo de jovens muito simpáticos e parecidos com gente de verdade, como diz a música de Renato Russo. Os irmãos Pedro (Fiuk, filho de Fábio Júnior, também cantor, ator adolescente hypado) e Mano (Francisco Miguez, revelação prazerosa) são protagonistas de uma trama que parece previsível até a separação dos pais, quando eles passam a viver dificuldades de relacionamento e até experiências com bullyng.

A forma como as coisas são mostradas, sem arquétipos maniqueístas, é o que há de mais positivo no filme. Tudo parte de um roteiro simples, mas a condução é muito boa, sem clichês enfadonhos e cheio de ternura. Aliás, é uma satisfação ver os atores Paulo Vilhena (o professor de música de Mano) e Denise Fraga (a mãe dos adolescentes) em papéis naturais, no caso dele, e contida, no caso dela. A jovem Gabriela Rocha (Carol) é outra descoberta fofa, além do sempre bom Caio Blat.

Encontrar o tom ficcional em situações cotidianas é um achado. Nisso, o filme é muito bem sucedido. A trilha sonora é outro detalhe bacana. Depois de se verem representados em “As melhores coisas do mundo”, os mais jovens podem pensar: em cinema, não precisa recorrer a histórias mirabolantes de vampiros pudicos para envolver. E aos mais ou menos jovens, recomendo carregar o playlist com uma certa canção de uma certa banda de Liverpool, de um álbum com o nome da famosa rua londrina, para ouvir no fim da sessão.

Texto publicado no JC Online, na sexta (30).

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