Alice vale a pena por ser um Burton em 3D

está prestes a ficar noiva quando decide estragar o clichê da cena do pedido e anel para cair em um buraco após seguir um coelho branco. Uma viagem lisérgica e um tanto sombria dará o mote desse Alice no País das Maravilhas, novo filme de Tim Burton que estreia na próxima sexta-feira (23) em todo o País. O diretor, conhecido por sua estética bizarra e humor-negro, fez algumas concessões e tornou o filme um entretenimento palatável, com doses de aventura que não afastarão os consumidores da Disney.

Essa briga pelas assinaturas Disney e Tim Burton fica evidente na tela, com um e outro tentando se fixar na mente de quem assiste. Como uma gigante, a Disney consegue amenizar viagens mais ousadas do diretor de Sweeney Todd (Sweeney Todd, o barbeiro demoníaco). A contrapartida compensa: um orçamento de US$ 240 milhões (R$ 420 milhões), cifra nunca antes trabalhada por Burton e a chance de ter acesso às mais modernas tecnologias em 3D. Não à toa, o longa já arrecadou mais do que Avatar em salas com exibição de terceira dimensão.

Esse culto ao trabalho de Burton pode ser o grande calcanhar de Aquiles do filme. Não é, de fato, seu melhor trabalho, mas é injusto analisar Alice apenas por esse viés. Como um conto de fadas maluco, diverte desde as primeiras cenas. E todos os personagens típicos da filmografia burtoniana estão lá, com destaque para os protagonistas que carregam dois arquétipos caros ao diretor: o homem que cedeu à loucura, no que isso tem de libertador e visionário (aqui, o Chapeleiro Louco), e a personagem inadequada ao universo em que nada faz muito sentido (Alice).

O filme une os dois livros escritos pelo inlgês Lewis Carroll sobre a menina de cabelos loiros – Aventuras de Alice no País das Maravilhas (1865) e Através do Espelho e o que Alice Encontrou por Lá (1872). Numa das obras mais famosas da literatura ocidental, o autor Lutwidge Dodgson – codinome de Carroll – tratou de retratar a sociedade vitoriana com símbolos que faziam críticas ao modo de vida da época, entre elas a rigidez das tradições e a decadência da aristrocacia inglesa. Por usar uma protagonista de 11 anos, chegou a levantar suspeitas sobre pedofilia.

Aqui, numa decisão do diretor de não ser fiel ao roteiro original, Alice está mais velha – tem 19 anos – e foge de um casamento arranjado pela irmã e pela mãe para cair num universo de aventuras em que ela pensa ser um sonho. Ela já havia ido nesse “País das Maravilhas” quando criança.

Esta Alice moderna tem uma proposta menos crítica e, da obra original, sobrou mesmo a riqueza dos personagens e a viagem psicodélica e non sense, possibilitadas pelas avançadas técnicas de computação gráfica. Essa mistura de fantasia Disney e estilo autoral de Burton tornou o filme interessante e deu personagens que serão lembrados ainda mais que a Alice interpretada pela novata australiana Mia Wasikowska.

Quem mais chama atenção na tela é Helena Bonhan Carter, mulher do diretor, como a temida Rainha Vermelha, um ser de cabeça enorme que controla o Wonderland com requintes cruéis. As suas aparições dão originalidade ao filme para além do que foi escrito por Carroll. O Chapeleiro Louco de Johnny Depp ficou perfeito dentro do tipo de personagem que o ator se acostumou a fazer nas histórias de Burton.

Os personagens criados em computação gráfica dão um show e mostram como um entretenimento tem cada vez mais prestígio em Hollywood. Nunca seria possível um êxito como este Alice no País das Maravilhas sem recurso suficiente para criar algo como o Gato Risonho, a Lebre, o Coelho Branco. Chama atenção seres tão invoressímeis em ótimo desempenho com atores reais.

Foram os efeitos especiais que possibilitaram também outras características marcantes no filme. A altura dos personagens muda a cada instante e não existe um tamanho padrão em praticamente ninguém. Tudo o que Burton sempre militou no cinema norte-americano foi como sua inadequação podia ser lucrativa. Alice no País das Maravilhas, nesse sentido, é praticamente um libelo.

A crítica foi publicada no JC Online

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