Cena de A Febre do Rato, exibido na abertura do Janela de Cinema (Foto: Divulgação)

Por Paulo Floro e Rafaella Soares
Da Revista O Grito!, no Recife

Ninguém teria dúvidas de que Cláudio Assis provocaria frisson na estreia de seu novo filme, Febre do Rato, com direito a ingressos esgotados, uma segunda sessão de última hora e uma enorme fila que dobrou o quarteirão do cinema São Luiz, no Centro do Recife. Ninguém também ficou surpreso com polêmicas proferidas por ele ao subir no palco para apresentar o longa. Meteu o pau na Prefeitura do Recife e disse que Recife era uma cidade muito maltratada.

“Essa cidade é muito bonita, mas é maltratada. Governe com carinho, com respeito, não seja um filho da puta”, disse, citando o atual prefeito da cidade, João da Costa (PT), ou ‘João da Bosta’, como disse. “Essa PCR é um monte de babaca” (sic). As falas fazem link com A Febre do Rato, longa que tem a cidade como um de seus personagens principais. Assis completou o discurso lembrando da emoção de exibir o filme no São Luiz, cinema onde iniciou gosto pelo cineclubismo quando deixou Caruaru para morar no Recife. “A cultura de Pernambuco não é so vender cerveja no Carnaval!”, bradou.

Na apresentação, o diretor de fotografia Walter Carvalho, paraibano saudoso de um São Luíz mítico que vive em sua memória mais jovem, também elogiou a memória do cinema, que chamou de “catedral” e aproveitou para minimizar críticas ao governo, falando sobre a restauração do São Luiz por parte do poder público. Já Matheus Nachtergaele fez um discurso de costas “como um caboclo de lança” e terminou dizendo que A Febre do Rato era um filme sobre a violência contra a liberdade.

Matheus, que integra o elenco dos três longas de Claudio Assis, definiu cada um deles de modo que possamos enxergar um elemento de unicidade entre as obras:”Amarelo Manga é um filme sobre as coisas que fazemos quando amamos errado; Baixio é um filme que retrata a mulher e a terra muito maltratados, e a Febre é um filme contra o preconceito sexual e sobre os poetas”, categorizou. Sua reflexão faz coro à fala de Kleber Mendonça Filho, curador do Festival:
“A programação do Janela 2011 está voltada para trabalhos que retratam o espaço urbano do Recife”, observou.

A trama conta a história de Zezo (Irandhir Santos), um poeta anarquista que é o fio condutor para apresentar diversos personagens da periferia de Recife e Olinda e suas histórias cheia de amor, sexo e discurso político. Estão presentes atores que já trabalharam nos dois filmes anteriores de Cláudio Assis, Amarelo Manga e Baixio das Bestas, como Conceição Camarote, Dira Paes (em ponta), além do próprio Matheus. Também estão presentes aqui Maria Gladys, Juliano Cazarré, Vitor Araújo e Nanda Costa (em interpretação ousada que não veríamos nas produções da vênus platinada).

O filme foi muito aplaudido ao final da exibição. Mas, sua exibição não foi tranquila o tempo todo. Com a lotação do cinema, muitas pessoas assistiram ao filme de pé ou sentado nos corredores. Também houve alguns contratempos na entrada, mas logo contornado. Uma segunda sessão teve de ser aberta para dar conta do grande número de pessoas que formavam fila para comprar o ingresso. O som estava muito ruim, mas os predicados do trabalho superaram até isso.

O Janela Internacional de Cinema segue durante toda a semana com a retrospectiva de Stanley Kubrick, curtas brasileiros e internacionais e novos longos de Julia Murat, Beto Brant e outros. Veja a programação completa.

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