Ocidente, curta de Leo Sette foi um dos exibidos no festival

NOVO OLHAR
O novato “Janela” surpreendeu público recifense com boa seleção de curtas e longas e uma proposta de reflexão do filme enquanto mensagem e experimentação

Voyerísmo sem nenhuma culpa, podemos resumir assim a semana inteira passando por vidas, reais ou não, durante a Janela Internacional de Cinema. A semana assistindo a filmes dos mais diversos lugares do mundo, em diversos formatos, explorando todos os limítes e possibilidades da linguagem cinematográfica, foi além das espectativas, oferecendo aos frequentadores assíduous, sessões nas quais de certa forma, todos os seus curtas dialogavam e levavam ao final de cada bloco, a uma reflexão sobre o objetivo de seus realizadores e o papel do filme enquanto mensagem ou experimento estético.

Algumas sessões mais ousadas chamaram atenção e merecem destaque, como a Salvar Arquivo, que exibiu filmes simples e sempre fruto do resgate de imagens ou informações produzidas de um registro passado. Seja um casal teen discutindo a relação no messenger, como em Nossos Filhos Ponto Com de Eduardo Wotzik, ou uma família de evangélicos cearenses, recepcionando a parente que vêm de visita, com a leitura e interpretação de salmos da bíblia, como em Jarro de Peixes de Salomão Santana. São todas, provas de que a diferença entre um filme e um simples registro é apenas o significado dado ao segundo pelo ponto de vista de alguém.

Belíssimos, experimentos de forma, levaram ao extremo sua experiência narrativa, foi o caso do Ouço seu grito, co-produção entre paraguai e argentina, de Pablo Lomar, em que uma camera fixa filma as silhuetas formadas pelo contra-luz de um homem, uma casa e um funeral no alto de uma colina, triste, cheio de lamúria e isolamento. Alguns representantes pernambucanos, também são excelentes experiments e já deram o que falar aqui mesmo no O Grito!, é o caso dos curtas Ocidente e Muro, curtas bem diferentes em suas propostas mas que guardam o mesmo olhar universal sobre as experiências humanas.

Outros representantes nacionais também chamaram atenção, Longa Vida ao Cinema Cearense, filme manifesto dos Irmãos Pretty, mostra uma cena de jovens realizadores inconformados com os rótulos e as formas de financiamento e estruturas de equipe, a qual está quase sempre relacionada a forma de produção independente. Convite para Jantar com o Camarada Stalin, de Ricardo Alves Júnior, mostra um silencioso cotidiano de duas velhinhas, se preparando para receber visita, algo que vá quebrar aquela entediada rotina, que mesmo sem muita ação, não deixa de ser terna e replete de cumplicidade. Passo, de Alê Abreu, é mais um exemplo da diversidade da produção nacional presente no Festival, uma animação de quarto minutos que mostra um pássaro se debatendo, tentando sair de uma gaiola.

O cinema documentário também contou com diverso representantes importantes, as exibições criavam interseções entre os filmes, além de contra com a presença de alguns realizadores, o que proporcionou esclarecedores debates após cada sessão. Os documentários mais tocantes, foram os que conseguiram manter as relações mais respeitosas com seus personagens, caso de curtas como o Canosa One, de Fellipe Barbosa; O Menino Aranha, de Mariana Lacerda; O Priará Jô, Depois do Ovo, a Guerra do índio Komoi Panará, além dos curtas o festival ainda acomodou na sua programação o lançamento regional do longa KFZ-1348, co-dirigido por Gabriel Mascaro e Marcelo Pedroso. O longa apresenta através da história dos oito donos de um fusca entre a primeira compra e a corroção total no ferro velho, intervalo que nos oferece a história de vida de excelentes personagens e acaba traçando um panorama social e econômico do país nesse intervalo.

A semana ainda trouxe para os espectadores pernambucanos, alguns representantes de peso do que foi exibido recentemente, em festivais internacionais como o Festival de Berlim, Cannes, a Mostra Internacional de São Paulo e o Festival de Brasília 2007. Na contra-mão de todo esse inidétismo, também nos deu a possibilidade de revisitar a produção super-oitista local, movimento importante de realizadores que encontraram no acesso fácil a uma bitola doméstica, uma forma de expressão. Essa multiplicidade, o respeito ao valor agregado a uma obra, quando se fala e pensa sobre ela, foram alguns dos pontos fortes do festival e seus maiores diferenciais. Acompanhe também a analise feita sobre os filmes nas coberturas diárias realizadas durante toda a semana passada, ou no site oficial do festival, onde você encontra também o Janela Crítica, com pequenas resenhas sobre vários curtas exibidos no festival.

LEIA A COBERTURA DO FESTIVAL

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