O NOVO BUNKER MODERNO
Quatro letras escarlates anunciam o charme e mistério do mais inusitado dos redutos boêmios da cidade. Misto de residência e ímã de tipos alternativos, bem-vindo ao Iraq
Por Rafaella Soares

O Garagem is overrated. Dia desses o cantor Otto estava por lá, cercado de uma entourage que ficou difícil entender se era a galera de música ou cinema. Não tem mais charme, pronto. Depois de presenciar uma menina entalada no bueiro de ferro, coisas que beiram o satanismo, a coprofagia (sim! e não vale a pena estender sobre isso) e um Matheus Nachtergaele desnudo dançando, o cotidiano ficou entendiante.

“Morre-se” no “Gara” mais por contingência, e claro, pra fazer o censo da noite, pois Recife é uma aldeia e se nem todo mundo se conhece de dois beijinhos, de vista com certeza. A calçada ainda fica cheia – via de mão dupla: volume de frequentação não é indicativo pra um lugar descolado, sabemos. Ainda tem gente espalhada entre a calçada, o posto e os arbustos da ponte…cof, cof. Mas sempre que um inferninho vai ficando saturado de uma fauna separada por alguns anos da original, algum outro toma o seu lugar.

Se o Garagem é a esposa cansada de guerra, a amante dos boêmios também fica sediada num lugar insuspeito, a pacata Rua do Sossego, nas proximidades da Unicap. Na mesma rua, fica a casa / ateliê de Abelardo da Hora, mas isso é assunto pra uma outra história bacana que a gente pode hiperlinkar até, depois. Numa casa branca de fachada da década de 1940 ou coisa que o valha, quatro letras escarlates: IRAQ.

Você entra lá e parece a remontagem do Jack Caolho, reduto da diva Laura Palmer (R.I.P.). De cara um manequim dá as boas vindas sob uma luz lúgubre, seja tarde ou noite. De tarde é falta de iluminação natural, de noite, luz vermelha. Dezenas de cartazes, colagens, recortes de jornal, convivem hamonicamente com aforismos em francês.

É a mítica em torno desses lugares: o cenário é catalisado com a passagem do tempo, sem ser milimetricamente pensado. A premissa é a mesma, punk-do-it-yourself na hora de pegar a cerveja direto do dono e espalhar-se num dos sofás detonados de procedência desconhecida.

Grupos se dispersam do dancing até o quintal. É possível encontrar desde a turminha gótica, órfãos da boate Elfos até metaleiros, estudante e um eventual rapaz engravatado. David Byrne, Bauhaus, Depeche Mode, Fiona Apple saem do aparelho de som, não sendo exatamente coadjuvante e sim mais um elemento. Os lugares carregam a simbologia do que aconteceu lá e o ambiente do Iraq tem pouco ou nada do ver e ser visto de outros citados acima. É alternativo sem a pecha depreciativa da coisa, é sossegado, legalize, democrático sem ser torre de babel, seguro, até.

Falta uma idéia interessante pra aproveitar a banheira do wc e pronto, vira reduto. Depois, é só virar a maçaneta, atravessar a porta e …omg! mundo real como se diz por aí.

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