TODOS OS HOMENS DO CONGRESSISTA
Filme debate poder do Jornalismo atual e questiona poder dos “filmes inteligentes” nas bilheterias
Por Daniel Herculano

INTRIGAS DE ESTADO
Kevin Macdonald
[State of Play, EUA/ ING, 2009]

Intrigas de Estado (State of Play, 2009) de Kevin Macdonald, é um excelente emaranhado de informações, que envolve (com gosto) política, jornalismo (sobretudo o investigativo), o mundo corporativo e o jogo de interesses que corrói todas as relações do poder. Esta adaptação de uma minissérie inglesa traz um elenco afiado, drama e suspense em doses bem distribuídas, perspicaz e de substância crítica, sem espaço para o escapismo.

O congressista Stephen Collins (Ben Affleck) luta para provar que há algo errado no acordo entre o governo americano e uma empresa privada de segurança. As coisas começam a mudar de foco quando sua principal pesquisadora (e amante) aparece morta. Para o jornalista Cal McAffrey (Russel Crowe) a história parece ser maior do que aparenta. Os dois são velhos conhecidos, e tem histórico, tanto de amizade quanto de problemas, mas precisam um do outro novamente. E o interesse pela resolução do caso tem sentidos e sentimentos diferentes: McAffrey busca a verdade da história, sua editora (Helen Mirren) precisa de uma história para salvar seu jornal, uma blogueira (Rachel McAdams) quer o reconhecimento profissional, Collins e sua esposa (Robin Wright Pennn) tentam trazer a dignidade de volta.

Sim, sua trama requer atenção, relacionando nomes e funções, e à medida que planta mais pistas, mas também premia o espectador com resoluções que ultrapassam o eficiente, cravando sempre algo com inteligência. Assinado por três bons valores (Tony Gilroy de Conduta de Risco, Matthew Michael Carnahan de O Reino e Billy Ray de Quebra de Confiança), o roteiro de Intrigas de Estado bate na tecla ética moral com propriedade, e em vários níveis. Do político ao policial, passando pelo jornalismo investigativo e no interesse corporativo. São discutidas até o valor de uma amizade e o preço de uma paixão. Mas o tom malicioso de conspiração é que sombreiam as questões, sempre voltadas para o jogo de interesses, a guerra pelo poder e a ambição comercial. E mais, as relações tratadas no longa são totalmente plausíveis, e por isso mesmo inquietantes, onde cada vez menos importa a que preço (e da quantas vidas) podemos pagar pelo lucro dos outros.

Assim como o personagem de Russell Crowe, temos de seguir as pistas deixadas em cada cena, cada diálogo. Nada será entregue com facilidade, nem espere por diálogos explicativos ou a didática da trama. O roliço Crowe, aliás, está vibrante, cheio de camadas. Sua superfície é de uma maliciosa ironia, de comando. Mas por dentro tem dor, desespero, medo e angústia, além da apaixonante busca pela informação verdadeira, e tudo que ela acarreta. Sua usual companheira de cena, Rachel McAdams (O Diário de Uma Paixão) é a novata com sede de notícia. Seus olhos sempre procuram algo, como se estivessem não só notando, mas anotando o que está acontecendo. Já Ben Affleck leva seu personagem por vários caminhos, deixando a ótima impressão de ter amadurecido.

Excetuando Viola Davis (como uma médica legista), sem espaço nem para bater o ponto direito, com uma única cena, o elenco conta com significativos papéis. A belíssima Robin Wright Penn faz dignamente a esposa de Affleck, numa interpretação de olhares e gestos cuidadosos. A maravilhosa Helen Mirren (Oscar por A Rainha) é uma editora-chefe que luta por seu jornal como se fosse sua vida. Jeff Daniels demonstra mais uma vez seu valor como um aliado político. Jason Bateman (Juno) reafirma sua versatilidade, interpretando um RP colorido. E a boa surpresa em meio tanta competência é Michael Berresse, como o sempre ameaçador (e mortífero) Robert Bingham.

A (sensacional) fotografia de Rodrigo Prieto (indicado ao Oscar por O Segredo de Brokeback Mountain) é densa, com uma paleta de cores sóbrias, refletindo perfeitamente sua trama. Quando está de dia, geralmente chove. Quase todo tempo é nublado, nada ficam as claras. Quando estamos na redação do The Globe a composição da cena é tomada por muitos papéis (nada organizados), tons neutros e meia luz. Revelando sempre aos poucos, com uso de iluminação direcionada, sombras e até escuridão. Com o auxilio do bom ritmo da edição e de uma trilha discreta, acompanhando gradualmente o drama e a tensão, o belo conjunto é composto também pela direção de Kevin Macdonald (O Último Rei da Escócia, de 2006). Seus enquadramentos são interessantes, com sentido. Repare como ele põe seus personagens por vezes diminutos em cenários enormes, espelhando suas nulidades frente à situação. Seus momentos de tensão e dramaticidade invocam planos fechados, provocando maior envolvimento aos acontecimentos.

Intrigas de Estado é uma aula de jornalismo investigativo, com sua história atual, forte e provocativa, e mesmo assim (ou por isso mesmo) não rendeu o esperado nas bilheterias dos EUA. A inigualável Ana Maria Bahiana até escreveu em seu blog que “Na Hollywood da crise, o filme inteligente agoniza”. E se por lá não houve interesse (ou esforço) para pensar muito ao acompanhar o longa, garanto que quem quiser conferir seu conteúdo pode se preparar para experiência substantivamente de primeira. Ah, e depois de tanta tensão, os créditos finais nos reservam uma admirável homenagem ao jornal impresso. Sendo ou não do meio da comunicação, sintam-se premiados com suas belas e nostálgicas imagens.

NOTA: 9,0

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