A NEGAÇÃO DA UNANIMIDADE
Discos novos do Interpol e Klaxons geram sentimentos contraditórios no público e na mídia

Por Lidiana de Moraes
Colaboração para a Revista O Grito!

O ano de 2010 está repleto de grandes trabalhos musicais aptos a figurar em listas de melhores do ano, entre outras premiações que pipocam por ai sem parar. No entanto, os discos mais recentes de duas bandas que são, ou foram, sensação acabaram despertando emoções distintas nos fãs e também nos veículos especializados em música. Interpol e Klaxons passam por esse ano dez com dificuldades para se firmar como nomes essenciais entre os melhores. No entanto, mais do que se perguntar por que Interpol e Surfing the void estão abaixo da média, é necessário averiguar se eles são realmente tão decepcionantes assim.

Apesar da estranheza de discutir dois álbuns tão distintos de artistas com trajetórias bem diferentes, tanto o grupo de Nova York quanto o de Londres se encontram mal das pernas perante a audiência e os meios de comunicação. Mesmo despertando certa curiosidade com as obras que estavam prestes a lançar, é justo afirmar que nenhuma das duas bandas conseguiu atiçar o interesse e a curiosidade a ponto de gerar tamanha expectativa que pudesse alçar as novas criações ao patamar de grandes promessas do ano. E é neste fato que mora o pior pesadelo de Klaxons e Interpol: ambos estão em um momento na carreira em que já não são catalisadores de esperança de “número um” nas paradas, ou de surpresas musicais. Contudo, não há nada de mal em não ser o grande campeão da indústria fonográfica.

O Interpol lança seu quarto disco, que de forma muito mais perspicaz do que não criativa, foi batizado com o nome da banda, sem criar grande comoção. Grande parte da insatisfação com esse trabalho vem da crítica e não tanto dos ouvintes em geral. Alguns sites atribuíram conceitos tão baixos ao trabalho que chegaram a ser injustos, beirando o pedantismo. O site Pitchfork, por exemplo, deu nota 4.6 em uma crítica centrada em análises conceituais impossíveis de serem comprovadas. Chega a ser maçante ler tantas críticas negativas focadas apenas na saída do baixista Carlos D. (que ironicamente ainda faz parte desse disco).

O pior pesadelo de Klaxons e Interpol: ambos estão em um momento na carreira em que já não são catalisadores de esperança de “número um” nas paradas, ou de surpresas musicais

De certa forma, tantos defeitos parecem ser encontrados uma vez que a cada trabalho o Interpol se distancia mais do rótulo de novo Joy Division e isso deve ser frustrante para tantos críticos já programados para falar bem da banda apenas por essa referência. Na verdade, é um fato que Interpol não tem a possibilidade de se tornar um clássico tanto quanto Turn on the bright lights, mas também, quem disse que todos os lançamentos devem figurar na lista de obras indefectíveis? Certo mesmo é que Paul Banks, Daniel Kessler e Sam Fogarino já têm experiência e renome o suficiente para fazer a música que tem vontade. Eles não são mais novidade e por isso não chamam mais tanta atenção, mas para os fãs fiéis canções como Lights e Barricade dão conta do recado Interpoliano.

Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, o Klaxons sofre com a falta de receptividade, muito mais do público do que sites e revistas em si. Mais de três anos depois do lançamento da sensação Myths from the near future, o grupo que foi rotulado de new rave sofre com a perda de espaço de um estilo musical que mesmo no seu período mais prolífico não conseguiu angariar muitos seguidores. Os londrinos eram a personificação de um gênero que nitidamente não foi feito para perdurar; e convenhamos, com a velocidade da indústria cultural hoje, três anos entre trabalhos são o suficiente para que a grande novidade se torne obsoleta.

Surfing the void não é um disco ruim, apenas fora do prazo de validade. E isso serve apenas para pontuar a constante mudança do mundo da música. Infelizmente para Jamie Reynolds e companhia, os fãs cresceram rápido demais e deixaram para trás aquela sonoridade que os fazia dançar alguns anos atrás. Sorte do Interpol que canções bem construídas e letras psicologicamente profundas nunca saem de moda.

SURFING THE VOID
Klaxons
[Universal, 2010]

NOTA: 5,0

INTERPOL
Interpol
[Matador, 2010]

NOTA: 6,5

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