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ENTRE O INSULTO POÉTICO E O MISTICISMO RASO

Nem tudo é esoterismo em Caótica Ana e elementos do bom-e-velho Medem comparecem aqui para redimi-lo um pouco. O diretor, que se notabilizou por conseguir inserir cenas de um erotismo sofisticado e altamente plástico em filmes que permaneciam sempre de muito bom-gosto (as cenas “pornô” em Lucia e o Sexo não parecem o supra-sumo do que deveria ser uma “estética erótica refinada”?), prossegue na mesma toada neste longa. A linda Manuela Vallès tem seu corpitcho mui apreciável retratado várias vezes em nus artísticos muito bonitos, que mais agradam aos olhos do que causam ereções. Ponto pra ele por não ficar o tempo todo envolvido com os fantasmas e os transes hipnóticos e fazer seus pousos na carnalidade do corpo humano real. Ainda mais considerando-se o talento que Medem tem para filmar lindamente o corpo feminino.

O diretor só ultrapassa, com ousadia inédita, a barreira do politicamente correto e da estética-de-bom-tom no fim do filme, quando estoura na tela uma surpreendente cena à la Pasolini que envolve defecação e “terrorismo sexual”. Pode até soar desconexo que a personagem, de repente, resolva praticar um ato de punição simbólica contra um big-shot do Governo americano responsável pelas guerras no Iraque e no Afeganistão. Quem imaginava que Julio Medem, cineasta chiquérrimo e sempre tão preocupado com o bom-gosto, criasse uma cena que não ficaria mal em Salò ou Os 120 Dias de Gomorra? Depois de tanto esoterismo e superstição, essa cena redime um pouco o cineasta, que tem seu momento de “enfant terrible” e, numa fina travessura, constrói uma cena de simbolismo claro: ele está cagando no olho de George W. Bush.

Sua intenção com Caótica Ana, afinal de contas, parece ter sido criar com esta personagem uma espécie de mulher arquetípica, símbolo da opressão feminina de dois milênios, e que afinal de contas consegue, à entrada do século 21, levantar-se em revolta e não pagar com a própria vida por sua insubmissão. As feministas, pois, tem tudo para vibrar, até porque o filme está repleto de um certo endeusamento da mulher e uma sugestão de que Ana será o começo de uma longa linhagem de bons filhos. Afinal de contas, como se o filme já não transbordasse de pretensão, Caótica Ana, como era até de se prever num filme tão mísitico, se abre para uma dimensão utópica. Ele aponta para a necessidade da recuperação de uma cultura matriarcal, de um equilíbrio mais harmonioso entre o yin e o yang e parece ainda sugerir que a personagem criada é de um caráter mítico, digna de ser estudada por discípulos de Joseph Campbell.

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O veredicto? Difícil. Como é comum em personalidades de ambições desmesuradas, Julio Medem parece ser o tipo de artista que não deixa de parecer confuso em meio a tantos interesses diferentes e um grau de pretensão tão estratosférico. Em Caótica Ana, ele parece oscilar entre um cinema que é puro insulto poético (abutres devorando olhos de cadáveres, predadores violentando suas presas no selvagem mundo animal, cenas de defecação humana…) e uma estética refinada e sensual que desliza às vezes para um virtuosismo um tanto vazio ou um cinema que é muito “arte pela arte”. Eu, pessoalmente, prefiro o lado punk e pornô de Julio Medem às facetas prog e new age que ele às vezes demonstra.

Neste filme, o diretor cometeu seu escorregão mais feio, mas nada está perdido: ele continua um artista do cinema instigante, poderoso, cuja obra riquíssima merece ser interpretada e esmiuçada com cuidado. Só esperemos que daqui para frente ele deixe de lado essa preocupação com os fantasmas e os mortos e volte a centrar seu olhar nestas coisas muito mais impressionantes que existem em nosso mundo: os vivos. [Eduardo Carli de Moraes]

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