GÓTICO SIMPÁTICO
Livro de Carlos Fuentes, que completa 80 anos traz novo sopro ao surrealismo noir
Por Rafael Dias

Se 2007 foi o ano dos 80 anos do colombiano Gabriel García Márquez na literatura hispânica, outro escritor latino-americano fará o público tecer loas por efeméride semelhante. Carlos Fuentes, um dos artífices do realismo mágico junto com Octavio Paz, Jorge Luis Borges e Isabel Allende, também chega à faixa octagenária (no dia 11 de novembro) com o sopro de vida de uma criança de fantasia solta. Nem do alto de seus mais de 30 livros e inúmeras láureas de um totem, esse escritor nascido no Panamá, naturalizado mexicano, senta sobre o próprio orgulho, impondo à obra uma mediocridade leviana. Pelo contrário. Continua a escrever com viço e energia.

Em seu mais recente livro, Inquieta Companhia, que saiu há poucos meses com tradução no Brasil pela editora Rocco, Fuentes não só renova o próprio fôlego, como dá uma nova demão a um gênero clássico da fase vanguardista do Século 20, o surrealismo noir. Nesta compilação de contos, trafegam, com suave tranqüilidade, fantasmas, assombrações, figuras míticas e seres reais de carne e osso em cenários aparentemente inofensivos, que escondem, porém, algum tipo de inquietação e força oculta. É como se deparar com as histórias fantásticas de Edgar Allan Poe no Século 21, com um sabor contemporâneo e ambiência no México de hoje. Gótico sem teias de aranha.

Aqui Fuentes deixa-se fluir: as ações flertam menos com o factual que com o mistério. Até mesmo o seu engajamento político fica camuflado em meio à atmosfera embaçada e sem luz. Sem pavor ou receio, o autor leva a sondagem psicológica às últimas conseqüências. Mesmo que aceitemos ou não, somos conduzidos pelos personagens a adentrar nos buracos negros do inconsciente, a pena de não voltar mais.

Em cada uma das seis histórias que preenchem o livro, há uma visão particular sobre a luta eterna entre o eros e o tânatos. Em comum, todas giram em torno da inconformidade do ser humano frente à morte e as suas diversas formas burlescas de se fazer presente, esperta, indesejável visita, como num jogo de xadrez bergmaniano. Temos, por exemplo, a senhora morte, lívida e misteriosa, no conto A bela adormecida, em que o coração de uma donzela em coma há três décadas volta a pulsar ao leve toque de um morto. Ou um jovem atormentado entre os mundos dos vivos (que mais parecem mortos) e das assombrações, anjos caídos, em Boa Companhia.

O sentimento de ruínas e cinzas mais aterrador talvez seja o que não é palpável, fruto de nossa abstração e sede de sublimação. Em O amante do teatro, um homem entediado com sua vida tacanha em uma ilha de edição canaliza sua paixão por uma atriz que encarna Ofélia, de Hamlet, numa peça de teatro. Mas, no final da encenação, ele não suporta a dor que é ver sua amada desfalecer, todas as noites, no palco, e avança porta afora. São maneiras que Fuentes encontra para lidar com o que há de mais frágil em nossa procura existencial – o que lhe é mais caro em seus livros anteriores que neste. Uma investigação cíclica, mas que ultrapassa o umbral da finitude de nós mesmos.

INQUIETA COMPANHIA
Carlos Fuentes
Tradução de Ebréia de Castro Alves
[Rocco, 272 págs, R$ 38]

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