Laura Dern, Inland Empire (2006)

LYNCH DESBRAVADOR
Em mais um exercício de ousadia em sua filmografia, cineasta americano explora labirinto de incertezas em seu novo filme Inland Empire
Por Claudia Vital

INLAND EMPIRE (Império do Interior) é o novo filme do cineasta americano David Lynch. O diretor, conhecido por ser o cineasta mais “doidão” de Hollywood, já fez filmes como O homem Elefante (1980), Veludo Azul (1986), Coração Selvagem, Twin Peaks (1992) e Cidade dos Sonhos (2001). Em seu último filme, David Lynch chegou ao ápice de sua conhecida complexidade. Ao perguntarem a ele de que finalmente se tratava a história, os jornalistas tiveram a seguinte resposta: “Trata-se de uma mulher em apuros, e um mistério, e é tudo o que eu quero dizer sobre o filme”. INLAND EMPIRE, assim mesmo em maiúsculas, como pede o diretor, foi escrito, dirigido, editado, parcialmente financiado e distribuído por Lynch. As cenas se passam entre Los Angeles e a Polônia e não houve um roteiro pré-concebido, tudo foi escrito e entregue aos atores durante os dias de filmagem. Injuriado por tantos questionamentos sobre suas obras, desabafou. “É um absurdo um cineasta precisar dizer em palavras o que o filme significa. Você não precisa dizer nada além da obra. Às vezes, as pessoas dizem que têm problemas em entender um filme, mas eu penso que elas entendem muito mais do que percebem, porque fomos todos abençoados com a intuição”.

Segundo rumores, Lynch não tinha a intenção inicial de tornarINLAND EMPIRE um filme, era apenas uma experiência digital. Mas, logo percebeu que as diferentes histórias que estava gravando tinham pontos relacionados e decidiu fazer seu primeiro longa digital. Segundo ele, a liberdade que o que esse formato proporcionou, quer na rodagem, quer na pós-produção, foi espantosa. Apesar de digital, Lynch teve de transferir o resultado final para película, de modo que o filme pudesse ser exibido nas salas tradicionais. Seguindo a proposta do experimentalismo, o cineasta usou uma câmera relativamente acessível aos meros mortais (Sony DSR – PD150) e se deu muito bem.

Depois de dois anos e meio o filme ficou pronto, e para distribuí-lo nos Estados Unidos o independente diretor usou e abusou do bom-humor. Levou vacas para passear e carregou pôsteres da atriz Laura Dern para que ela fosse indicada ao oscar de melhor atriz. Laura Dern interpreta Nikki, a protagonista da história, que faz par romântico com Devon Berk (Justin Theroux). Também fazem parte do elenco Jeremy Irons, Harry Dean Stanton, Grace Zabriskie, Diane Ladd, com aparições especiais de Nastassja Kinski, William H. Macy, Laura Harring, Jordan Ladd.

Império do Interior se enquadra na tradição surreal do cineasta cult favorito de Hollywood. Segundo o New York Times, “há poucos lugares no cinema tão assustadores para se ficar quanto a cabeça de David Lynch”. Considerado precursor do novo cinema independente norte-americano, Lynch abriu caminho para diretores como Coen, Jim Jarmush, Spike Lee, Quentin Tarantino, etc. Admiradores da obra de Lynch, os cineastas Stanley Kubrick e Bernardo Bertolucci já lhes fizeram públicos elogios.

Por outro lado, há também quem não suporte as viagens Lynchianas. Seu cinema abstrato leva o espectador a um labirinto de incertezas onde não há uma estrutura inteligível, com uma relação causal entre as cenas e diálogos que se assemelhem a coerência que estamos acostumados. Ele faz perguntas, mas não dá as respostas. Seus filmes são difíceis porque exigem que o espectador pense, repense e tire suas próprias conclusões. Grande parte das pessoas vê o cinema só como diversão, passatempo e não como uma obra de arte que mereça atenção. Para Lynch, que fez meditação transcendental durante 33 anos, “Se você quer pegar peixes pequenos, pode ficar em água rasa. Mas, se quer peixes grandes, precisa ir mais fundo. Esses são mais poderoso e puros. São fortes, abstratos e são muito bonitos”. Há de se convir que se não existissem cineastas atrevidos como ele, o cinema estaria condenado à estagnação da normalidade, à mesmice Hollywoodiana.

Lynch desafia expectador a desatar nós surreais em mais de três horas de filme

Inland Empire

INLAND EMPIRE está longe de ser um filme fácil. Com histórias sobrepostas, representadas pelos mesmos personagens, a trama tece nós difíceis de desatar. A princípio o filme tem uma narrativa linear, a história começa com Nikki Grace, uma atriz que em sua mansão recebe a visita de uma vizinha com ares bastante sinistros. A mulher faz algumas revelações e começa a dizer coisas um tanto absurdas, iniciando o clima de suspense que permeará toda a narrativa. Como foi adiantado pela vizinha, Nikki consegue o papel principal em um filme que pode lhe devolver o estrelato. Quando estava no set de filmagem, passando o texto com seu par romântico Devon Berk algo de estranho acontece e o diretor lhes revela que o longa que estavam ensaiando se tratava de um remake e o primeiro filme não chegou a ser concluído porque os protagonistas foram assassinados.Durante as gravações, a vida de Nikki e Devon começa a se fundir com a dos seus personagens, Sue e Billy. Neste momento há o primeiro nó, o espectador passa a não conseguir separar a realidade da fantasia. É apenas o começo da dúvida. Daqui para frente somos induzidos a mergulhar na psique Nikki e da sua personagem Sue, que oscila entre perturbações e momentos oníricos. O surrealismo ganha a tela em cenas com pessoas fantasiadas de coelhos marrons em um apartamento sombrio, dublados por Naomi Watts, Laura Harring e Scott Coffey. Mais misterioso que engraçado, a aparição súbita dos coelhos desnorteiam qualquer um. Possivelmente os coelhos marrons foram inspirados em sua série de curtas Rabbits.

Da mansão na Califórnia, a protagonista passa inexplicavelmente a viver em um modesto apartamento na Polônia, onde lugares lúgubres compõem um cenário revelador. É como se penetrássemos em sua mente obscura, onde a distinção entre memórias, sonhos e a realidade passam a não importar tanto. Parece que atriz, personagem e loucura encontraram um ponto comum, inseparável. A fotografia serve como um indicador e varia de acordo com a atmosfera de cada situação, sendo ora muito escura e desfocada, ora nítida e estourada. A edição é o que dá forte identidade ao filme, construindo uma narrativa fragmentada, própria do universo Lynchiano.

As fusões, passagens de uma cena para outra, são detalhes de reconhecível mérito. Um exemplo interpretativo. A personagem fura uma peça de roupa com o cigarro, a câmera perpassa o furo que mostra do outro lado algo que, muito de perto, se parece com o tecido humano. O olhar da câmera atravessa a “pele” e somos transportados a mais uma cena nebulosa, só que agora com um indicativo quase que didático: a câmera atravessou a pele, estamos dentro de alguém e o que vemos não são órgãos, mas sim revelações do que se passa na mente, no imaginário, no império do interior.

Inland Empire Com três intermináveis horas e um final um pouco irritante, este filme não deve ser assistido por aqueles que procuram somente diversão no cinema. Pode ser decepcionante e nem um pouco prazeroso ficar tanto tempo à mercê de inserts que não fazem tanto sentido, procurando montar um quebra cabeça incompleto. Há quem não goste de tanta complexidade e após um dia cansativo esteja a fim de apenas relaxar. Já para aqueles que admiram a arte cinematográfica e suas ousadias, o risco se torna bem menor. Para ver o novo filme de Lynch, no mínimo é importante ter uma vontade tranqüila de prestar atenção à história, sem exigir dela a convencionalidade do começo, meio e fim. Império do Interior teve sua estréia durante o Festival de Veneza de 2006, onde Lynch recebeu o Leão de Ouro pelo conjunto de sua obra. Aqui no Brasil, o filme estreou, em sessões esgotadas, durante o último Festival do Rio e de São Paulo.

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