ESTRANHOS AMORES À MODA TUPINIQUIM
Com Incuráveis, pseudo-cinemão brasileiro quer ser cult e não fatura o público
por Fernando de Albuquerque

Quem não gosta, de vez em quando, de uma comédia romântica? Acompanhada de uma pipoca e um refrigerante bem engordativo o programa começa a soar irresistível. Mas quando se fala nesse gênero cinematográfico a primeira coisa que vem a mente é a forma como americanos fazem comédias românticas. Sempre repletas de muito açúcar e trilha sonora bem pop. Mas o braço devemos torcer: a narrativa sempre envolve o mais bruto dos humanos.

Talvez por falta de prática, desinteresse ou simplesmente teimosia, o cinema brasileiro nunca soube fazer filmes românticos capazes de seguir as regras do manual ianque. Até as produções nacionais com grandes ambições comerciais tratam o gênero de forma desengonçada, sem intimidade com os mais batidos lugares-comuns. O lado menos convencional do tema, porém, sempre bateu forte no coração dos cineastas do país. De Arnaldo Jabor a Domingos de Oliveira, não são poucos os que filmaram casais às voltas com o lado mais corriqueiro ou obscuro dos relacionamentos amorosos. Para tanto basta dar uma olhada na última safra de produções, principalmente patrocinada pela Globo Filmes.

O ineditismo no circuito comercial faz de Incuráveis, do carioca Gustavo Acioli, o maior destaque entre todas as produções nacionais. Exibido no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro do ano passado e disponível no e-mule (só para aqueles que conseguem fuçar a máquina), o filme venceu o prêmio de melhor ator (Fernando Eiras, que contracena com Dira Paes e agora faz um personagem gay em Páginas da Vida) e intrigou a platéia com um roteiro circular sobre um casal que, em um quarto barato, se envolve em um jogo misterioso de sedução.


Da esquerda para a direita: Gustavo Acioly, Fernando Eiras, Luiz Guimarães de Castro (editor) e André Weller (diretor de arte) na 9ª Mostra de Cinema de Tiradentes Minas Gerais

A inspiração teatral, da peça A dama da Lapa, de Marcelo Pedreira, é notada de forma explícita na tela. “Este é um filme de sentimento, que aposta nos atores”. Usar diálogos realistas seria banalizar o texto original. Preferimos apostar que os atores soubessem como aproveitar esses diálogos não-coloquiais”, disse o diretor em uma entrevista concedida do Correio Braziliense na época.

Com ação confinada em um único espaço, Incuráveis pertence a uma linha de cinema brasileiro que remete a duas outras produções reconhecidas, mas pouco exibidas: Um copo de cólera, de Aluízio Abranches, Filme de amor, de Júlio Bressane, e Eu sei que vou te amar, de Arnaldo Jabor. O filme de Acioli dialoga muito com o de Jabor. E, com Um copo de cólera, tem a semelhança de não abandonar a origem – no caso do filme de Aluízio, literária. Ainda há outras produções que merecem certo destaque como Amores, que marcou o retorno elogiado de Domingos Oliveira nos anos 1990, e O primeiro dia, de Walter Salles e Daniela Thomas.


Dira Paes e Fernando Eiras, os protagonistas do filme de Gustavo Acioli

Com estréia no Rio de Janeiro e em São Paulo programada para 10 de novembro e sem previsão de chegar às telinhas nordestinas (como sempre ocorre com filmes bons), “Incuráveis” enfrentará o gargalo da distribuição comercial em um ano especialmente difícil para o cinema brasileiro. Acioli vê no filme potencial para ir além do circuito alternativo de salas, mas reconhece que os mecanismos de produção brasileiros dificultam a performance de produções à margem dos multiplexes e sem amparo de empresas de divulgação como a Globo Filmes que domina a cena nacional. “É um sistema auto-condenatório. Há pouco dinheiro para publicidade, e esses filmes pequenos já nascem para um circuito determinado de antemão. Não dá para concorrer com a máquina de filmes norte-americanos. O problema é quando a mídia diz que a falta de público tem a ver com a má qualidade dos filmes”, observa o diretor em entrevista por e-mail. O filme será lançado com apenas cinco cópias. “Mas confio que, apesar de todas as dificuldades, o filme terá uma boa propaganda informal. Estamos distribuindo filipetas”, avisa. Faça-se uma campanha a favor de uma atípica love story e viva o pseudo-cinemão nacional.

Clique aqui para ver mais imagens do filme: 1 2 3 4.

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