A DÉCADA PASSADA DE HUNTER S. THOMPSON
As entranhas de um gênero literário que bagunçou o jornalismo tradicional e impôs tendências são recontadas em novo livro sobre a vida do escritor
Por Felipe Attie, colunista da Revista O Grito!

Hunter Stockton Thompson criou o gonzo jornalismo no momento em que decidiu dar um tapa na cara da objetividade e da imparcialidade características do jornalismo tradicional e mergulhar de cabeça nas matérias que cobria, adotando um estilo subjetivo e subversivo baseado nos excessos. Para quebrar tais regras, criar um novo estilo literário e se eternizar no jornalismo mundial, Thompson precisou fazer apenas uma coisa: ser ele mesmo.

O gonzo jornalismo é a mistura de literatura, reportagem investigativa e contracultura. Seu texto é uma redação marginal escrita em primeira pessoa, com ritmo e riquezas literárias superiores ao padrão jornalístico convencional e toda sua medíocre e ambiciosa agilidade informativa. Para fazer gonzo é preciso tempo e dedicação. O jornalista, antes de tudo, tem que se deixar apaixonar pelo assunto em questão e se jogar de corpo e alma dentro do universo desconhecido que se apresenta à medida que é explorado. E isso, Thompson fazia como ninguém: lançava-se em cada reportagem que fosse levar sua assinatura, trocando o olhar de espectador, típico das páginas dos jornais, pelas ações de um protagonista, interferindo nos fatos, interagindo com o ambiente, sem se preocupar com as conseqüências por pior que pudessem ser.

Descontrole foi tudo que Hunter sempre buscou. Proprietário de uma personalidade excêntrica e inconseqüente, tudo que ele fez foi levar sua carga nervosa para as páginas que escreveu e relatar em suas reportagens os fatos que viveu. Após conhecer sua obra, fica claro que para escrever gonzo é preciso ser gonzo. Não basta observar o ocorrido, é preciso viver seus riscos e sofrer suas conseqüências. A regra número um desse estilo é participar dos acontecimentos e depois relatar de maneira sarcástica, tudo o que aconteceu com você durante tais instantes, exatamente como uma confissão. Na maioria das vezes, o gonzo se apóia em assuntos e temas não convencionais, retratados por situações politicamente incorretas, no melhor estilo Hunter Thompson de ser, que se dizia atraído por tudo que é estranho. Exemplo dessa mórbida obsessão está nas páginas de “Hell’s Angels – Medo e Delírio sobre Duas Rodas”, sua primeira grande reportagem, considerada o embrião do gonzo Jornalismo.

Em 1965, Carey McWilliams, até então editor da revista The Nation, sugeriu que Thompson escrevesse uma matéria sobre o fenômeno das gangues de motociclistas que surgia. Aceitando tal sugestão, Hunter Thompson escolheu a gangue de motoqueiros Hell’s Angels, liderada por Sonny Barger, famosa por cometer inúmeras infrações e conter entre seus membros, mafiosos e estupradores. Durante o período de pesquisa, com o intuito de obter e lançar ao público o máximo de informações sobre o grupo, Thompson não só acompanhou os motoqueiros por 18 meses, como fingiu ser um deles, testemunhando os delitos comuns naquele meio. Tamanha ousadia rendeu um texto escrito em primeira pessoa, com uma riqueza de detalhes impressionante. Um retrato completo, sociológico, antropológico, psicológico e político do fenômeno das gangues de motociclistas, seus problemas com a polícia, seu envolvimento com a contracultura da época e seu tratamento na grande mídia americana. Após ter sido descoberto e rotulado como traidor, o jornalista levou uma surra e foi ameaçado de morte. Para muitos, um grande sinônimo de loucura e risco de vida. Para Thompson, apenas o preço a ser pago pelo prazer de sentir o sabor do risco mesclado à satisfação de seus objetivos concluídos.

O gonzo não surgiu por acaso, tão pouco de uma hora pra outra, Thompson freqüentou inúmeras redações até formatar seu estilo e oferecê-lo ao mundo. O livro “A Grande Caçada aos Tubarões – Histórias Estranhas de um Tempo Estranho” retrata alguns escritos desse período ao compilar artigos, matérias e reportagens que escreveu e publicou nos veículos que sua vida profissional manchou. Incluindo um episódio vivido no Rio de Janeiro, em Copacabana, onde o jornalista morou e trabalhou nos primeiros anos de sua carreira como correspondente do Brazil Herald, um periódico diário publicado em língua inglesa no início da década de 1960. Em 1962, Hunter escreveu sobre o Rio, “a Avenida Copacabana está sempre cheia à noite, no estilo de Miami. Aliás, o Rio lembra Miami, fisicamente, mas o esmagaria num confronto espiritual”. Citações como essa está presente em toda obra de Hunter, que nunca perdia uma oportunidade de ironizar e alfinetar quem – ou o quê – estivesse na mira do seu olhar e caneta.

Mas Thompson só o alcançaria o estrelato em 1971, quando a revista estadunidense Rolling Stone o chamou para cobrir uma corrida de motos em Las Vegas, a Mont 400. Mais uma vez, estimulado pela sua vida desregrada ele decide gastar o orçamento da revista de forma nada convencional: alugou um Chevy vermelho conversível, entupiu o porta-malas de todos os tipos conhecidos de drogas, chamou seu amigo Oscar Acosta, um advogado junkie samoano, e partiu rumo à diversão do Sonho Americano. Dormindo o mínimo necessário e se alimentando de tudo que não fosse saudável, os dois freqüentaram festas, cassinos, boates e bordeis, deixando um rastro de confusão, brigas e inúmeras contas em nome da revista, tudo movido pela busca desenfreada de experiências e a necessidade de relatar as loucuras vividas naqueles momentos. O produto final foi uma série de artigos publicados nas páginas da Rolling Stone, intitulados Medo e Delírio em Las Vegas, que apresentou a Thompson o significado da palavra “sucesso”. Um clássico da contracultura e fonte inspiradora de um novo gênero de reportagem, Medo e Delírio virou livro e foi levado aos cinemas em 1998, em adaptação dirigida por Terry Gilliam e estrelada por Johnny Depp e Benício Del Toro — Sr. Gonzo e seu advogado respectivamente.

Paul Scanlon, coordenador de produção da Rolling Stone, relata com precisão o impacto que Medo e Delírio causou na redação da revista, no momento em que foi entregue por Thompson nos idos anos 70. “Havia uma mesa de carvalho redonda na redação da revista e Hunter sempre chegava e abria sua bolsa, de onde tirava infinitas coisas lá dentro. Todos nós ficávamos por perto para ver o que iria sair dali – blocos de anotações, um gravador, cigarros e cigarreiras, bebidas, facas de caça, coisas do tipo. Um dia, Hunter chegou, e eu estou lá parado junto a Grover – um dos editores –, e ele pega uma pilha de folhas de um manuscrito, grampeia e entrega uma cópia a cada um de nós. Era o primeiro capítulo de Medo e Delírio em Las Vegas. Fui para a minha sala ler e comecei a urrar logo no primeiro parágrafo. Quando terminei de ler, estava batendo na mesa com a mão e não conseguia me conter. Entrei na sala de Grover e ele estava debruçado em cima da mesa, respirando com dificuldade. Ele se virou, e tinha lágrimas nos olhos, e não conseguia parar de rir. Passamos o resto do dia relendo trechos em voz alta um pro outro. Todos ficamos extremamente chapados. Ninguém esperava aquilo”. Após o relato do episódio, fica claro o impacto que a obra de Thompson causou e as sensações que ele era capaz de proporcionar a quem o acompanhasse em suas aventuras.

Foi nessa época que Thompson foi apresentado ao artista britânico, Ralph Steadman que, com seu traço nervoso, viria a ilustrar seus textos gonzo, adicionando assim, mais um ingrediente em sua fórmula: a ilustração ao invés de fotografias. Ralph acrescentou a literatura gonzo, ilustrações tão surreais quanto os relatos jornalísticos de Thompson. Juntos, Hunter S. Thompson e Ralph Steadman formaram a dupla “texto-imagem” do gonzo jornalismo.

O termo “gonzo” surgiu quando o jornalista Bill Cardoso, amigo de Hunter, ao ler o texto chamado “O Kentucky Derby é Decadente e Degenerado” – que, a princípio, deveria ser um artigo sobre uma famosa corrida de cavalos de Louisville, terra natal de Thompson, mas que rendeu uma forte crítica à população local e seu modo de vida, no qual o nome do vencedor do evento não é mencionado em nenhum momento –, escrito para o Scalan’s Monthly, em junho de 1970, exclamou, “eu não sei que porra você está fazendo, mas você mudou tudo. Isso é totalmente gonzo”. A expressão pegou e passou a definir uma forma de jornalismo sem barreiras, que hoje é alvo de estudos acadêmicos.

Em 1979, o Dicionário Webster’s definiu “gonzo” como “algo bizarro; desenfreado; extravagante; estilo pessoal de jornalismo”, definições que retratam não só a obra, como o próprio autor. Isso nos faz crer que, sem Hunter Thompson, não existiria o gonzo e tudo que ele viesse a fazer seria gonzo. A maneira como trabalhava era tão intensa e fiel aos seus princípios e jeito de ser, que alcançou o invejável ponto onde a obra se mescla ao criador, uma façanha para poucos. Há quem considere o gonzo o filho bastardo do New Journalism, estilo criado por Truman Capote ao escrever seu famoso livro “A Sangue Frio”, acreditando que a reportagem poderia ser uma arte tão requintada como qualquer outra prosa. Filho bastardo ou não, odiado por muitos e adorado por tantos outros, o gonzo marcou uma época, bagunçou o comportado universo jornalístico, se estabeleceu como estilo literário e lançou seu autor ao hall da fama.

Thompson também alimentava interesse por esporte e política. Esse segundo tópico lhe rendeu certa visibilidade ao cobrir as eleições presidenciais americanas entre o democrata George McGovern e o presidente republicano Richard Nixon. As críticas ácidas aos oponentes de McGovern, que se tornou seu amigo, e principalmente ao presidente Nixon tornaram o livro “Fear and Loarthing on the Campaign Trail” – sem edição brasileira – um clássico da sátira política. Thompson se tornou um dos mais ferozes críticos de Nixon, e ao escrever o seu obituário na Rolling Stone em 1994, o descreveu como “um homem que pode apertar sua mão e o apunhalar nas costas ao mesmo tempo”. Isso deixa óbvio o quanto o gonzo estava enraizado em seu jeito de ser e trabalhar, tornando o deboche e a prepotência presentes em tudo que se referisse.

Nascido em 1937 no Kentucky, interior dos EUA, o Dr. Gonzo, como era conhecido, publicou mais de dez livros ao longo da carreira, quase todos de reportagens, e colaborou com inúmeras revistas, entre elas Rolling Stone e Playboy. Após viver mais de meio século se entupindo de todo tipo de drogas, um forte desencanto o contagiou e a depressão o levou ao suicídio em 20 de fevereiro de 2005, aos 67 anos, metendo um tiro de espingarda na própria cabeça enquanto falava com a esposa no telefone. Suas últimas palavras antes de apoiar o aparelho sobre o mármore da cozinha, carregar a arma e puxar o gatilho foram: “Gonzo has left the building” – em tradução livre, “O gonzo está deixando a arte”.

“Como é estranho e bom ser pago para se divertir”
Hunter S. Thompson

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