Autor norte-americano lança luz sobre o obscurantismo no debate pela legalização da cannabis

HQ de mostra o racismo por trás da proibição da
NOTA8.5

A história da proibição da maconha em todo o mundo esconde muito do racismo e preconceito de classe contra negros, latinos e comunidades nativas. É isso que mais se destaca na HQ Cannabis – A Ilegalização da Maconha nos Estados Unidos , um misto de ensaio e documentário assinado por Box Brown, uma das principais vozes do quadrinho alternativo nos EUA hoje. O livro saiu pela Mino no mês passado.

A maconha é uma das drogas mais antigas do mundo e seus usos fazem parte da cultura de diversos povos e tem benefícios comprovados enquanto erva medicinal. Já os seus malefícios têm sido refutados por pesquisas científicas pelo menos desde 1930. Mas como a cannabis foi ilegalizada, afinal, de contas? É esta pergunta que  Box Brown responde em seu livro de maneira bem elucidativa e didática (mas sem abrir mão do humor e da ironia).

A pesquisa história de Brown remonta às primeiras civilizações humanos perfazendo um percurso antropológico bastante rico, das raízes religiosas na Índia, passando pelos povos pré-colombianos na América até chegar à perseguição institucional do governo norte-americano a partir da primeira metade do século 20.

A erva chegou a América através do invasor espanhol Hernán Cortés, que usava as fibras do cânhamo nas cordas e velas dos navios. Os astecas, no entanto, já utilizavam plantas com poderes “transcendentais”, as chamadas “plantas do poder” muito antes da chegada dos conquistadores. Isso influenciou a cultura latina – sobretudo mexicana – de fumar coletivamente. O hábito acabou chegando aos EUA através dos primeiros imigrantes, juntamente com os primeiros negros escravizados da África, que foram trabalhar nos estados que faziam fronteira com o México.

Foi, portanto, a cultura negra e mexicana que iniciou o uso da cannabis nos EUA. Brown pontua que isso sustentou as explicações racistas para a proibição da droga no território americano. Entre os boatos que circulavam estava de que a maconha deixava as pessoas violentas, incentivava o estupro e fazia com que pessoas pacatas se transtornassem a ponto de matar familiares e amigos. Também começou a ganhar corpo a ideia de que fumar coletivamente a cannabis era um “hábito sujo” de imigrantes, de vagabundos, de “pessoas de má índole”, um “vício típico de raças inferiores”.

A narrativa de Box Brown é contada com recursos visuais simples, que lembram infográficos, mas que ao mesmo tempo são visualmente sofisticados, o que torna a leitura viciante. As ilustrações também reproduzem muito dos cartazes e manchetes que foram fruto da desinformação sobre a maconha nos EUA.

A jornada histórica sobre a maconha, na verdade, prepara o terreno para o debate mais relevante do livro, que é a batalha ética e política de governos norte-americanos contra a droga. Figuras históricas como Richard Nixon foram responsáveis por medidas proibitivas que iam de encontro a evidências científicas e sociais e que tinham como alvo, em sua maioria, negros, pobres e imigrantes, “inimigos” da nação para o então presidente dos EUA.

Mas foi Harry J. Aslinger (1892-1975) o personagem mais importante para a campanha anti-maconha na América. Baseado em informações falsas, ele incutiu no imaginário nacional diversos mitos sobre a cannabis, muitos em voga até hoje (que ela é uma “porta de entrada para outras drogas, etc”). Primeiro comissário do departamento de narcóticos dos EUA, Aslinger refutava pesquisas e baseava suas políticas públicas em relatos racistas e fatos sem comprovação que circulavam nos anos 1930. Seu controle da opinião pública foi tão grande que ele conseguiu que a lei de regulamentação da cannabis fosse aprovada em outubro de 1937.

Diversos estudos sobre a maconha foram encomendados ao longo do século 20 e todos evidenciavam sua segurança. Mas as políticas públicas dos EUA ignorou todos. (Divulgação).

As políticas de perseguição e desinformação de Aslinger influenciaram políticas anti-drogas em diversos outros países e chegaram até mesmo à recém-fundada Organização das Nações Unidas (ONU), que naquele período formulava suas diretrizes sobre narcóticos. Os EUA pressionaram para que países como a Índia, cujo uso do cânhamo era algo cultural há mais de dois mil anos, votassem a favor de leis mais duras contra o uso da maconha.

O livro é um importante documento em tempos de retrocessos e forte avanço de políticas que refutam a ciência e a cultura. Brown dissipa a cortina de fumaça no importante debate sobre a legalização da maconha nos EUA e no mundo. O autor é bastante objetivo nas suas abordagens: sustenta tanto suas propriedades benéficas do uso recreativo, seu uso medicinal/terapêutico, mas também destaca os potentes efeitos colaterais (ainda que temporários e inofensivos), como a paranoia.

Com a crescente liberação de seu uso em diversos países, a cannabis vem vencendo o pânico da desinformação e ganhando cada vez mais respaldo da opinião pública (ao menos em relação à sua importância terapêutica). Brown faz um ensaio rico e ancorado na linguagem dos quadrinhos para trazer razão a um tema ainda muito cercado de preconceito.

CANNABIS - A ILEGALIZAÇÃO DA MACONHA NOS ESTADOS UNIDOS
De Box Brown
[Mino, 256 páginas, R$ 69,90 / 2019]
Tradução de Diego Gerlach

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