Se fosse apenas pela característica de ser bairro praiano povoado de tipos meio urbanos, meio caiçaras, Candeias, bairro de Jaboatão (cidade da Região Metropolitana do Recife), poderia ser berço de cantores de voz e violão reproduzidos aos montes em barzinhos bucólicos de beira-mar. Não que eles não existam.

Mas a verdade é que as diversas placas indicativas de que aquele trecho não é recomendado para banho nem tampouco para surfistas afoitos, devido à incidência de ataques de tubarões, bem que poderiam indicar “Atenção: aqui se faz boa música”. Citar Candeias é importante para falar sobre a Pé Preto, uma das bandas pernambucanas autorais mais criativas surgidas na leva dos anos de 2000 e que só agora lançam disco de estreia.

Funk americano, soul e afrobeat são algumas das principais influências sonoras. Formada atualmente por Filipe Niero (voz e letras), Vinicius ‘Lezo’ Nunes (baixo), Pedro ‘Chainha’ Sanchez (guitarra), Heverton ‘Bilisca’ Lima (bateria) mais Chico Rocha (guitarra), João Nogueira (teclas) Gilmar Black (sax), Enok Chagas (trompete), Marconi Tulio (trombone) e Júnior Do Jarro (percussão), a banda completa 10 anos em 2014, mesmo ano que vai enfim marcar a gravação do seu primeiro álbum. Entre viagens de integrantes e dedicação a projetos solos, a banda passou um tempo parada para agora retornarem com tudo. É Candeias que está impressa sutilmente no estilo de vida dos artistas que a habitam ou que de lá saíram para ganhar o mundo.

“A gente se conhece desde os 13, 14 anos. Começamos a tirar um som despretensiosamente nessa época e surgiu a ideia de fazer uma banda. Quando a gente tinha entre 18 e 16 anos, começamos a pensar o nome até que “Pé Preto” surgiu. Isso em 2003. A gente tava no colégio ainda, eu indo pra faculdade. Depois que a gente foi conceituar o nome” conta Vinícius Nunes, o ‘Lezo’, sobre o início com os parceiros Pedro ‘Chainha’ Sanchez e Heverton ‘Bilisca’.

“Em 2004 eu conheci Felipe Niero. Numa volta de carro, mostrei o Tim Maia Racional pra ele, que ficou muito empolgado. Sempre gostei de ir atrás de disco, pesquisar a respeito. Através do meu pai também conheci muitas obras de samba, funk, desde guri. Já Niero teve uma criação musical de muito samba, MPB, João Bosco, Chico Buarque, João Gilberto. E a influência de Pedro é mais rock’ n’roll, de Led Zepellin, Pink Floyd”, completa.

A banda até então era Vinícius e Pedro, quando Niero foi convidado a se juntar ao grupo, que não sabia que ele cantava. Foi ele que veio com a ideia de convidar o baterista Belisca, e recém-chegado de Brasília e tinha uma banda. Por coincidência, todos moravam muito próximos, coisa de um quarteirão do outro. “Conheci Niero e Glauco por causa de Iuri, que era baixista da Comuna (atualmente toca n’A Rua), e é amigo meu de infância, relembra.

Nessa época, a turma de Candeias costumava se reunir pelo menos uma vez por mês, aos domingos, pra levar jam sessions instrumentais que reunia na casa de alguém os futuros integrantes de bandas como Monomotores, Comuna, Pé Preto, Johnny Hooker. “Foi uma época muito construtiva. E muitos ainda tocam ainda hoje a carreira de músico: o próprio Johnny, Iuri (Pimentel), Amaro (Mendonça), Glauco, tá todo mundo de alguma forma ligado à música”, revela Vinícius.

O primeiro show aconteceu no extinto Capibar. O grupo seguiu ensaiando, entre covers de Jorge Ben e outras inspirações, com o primeiro vocalista (Cioba, que tocava na banda de reggae Malakai). Em um dos ensaios, o músico faltou, o que criou a oportunidade para Niero assumir o microfone pra cantar. Depois que a banda viu o potencial dele no vocal dele, ficou decidido que ele assumiria o posto. “A gente passou a tocar o Tim Maia Racional, umas coisas de Jorge Ben, Beatles”, relembra Vinícius.

No começo dos trabalhos, em 2006, a banda gravou um EP no Estúdio Flautin (SP). “Nessa temporada em SP, no bairro Perdizes, a gente ensaiava de 8 da manhã até 20hrs, de segunda a sexta, só parando pra almoçar. Eu tinha 20 anos, na época, Niero 19, Heverton (Bilisca) 18 e Pedro (Chainha) Sanchez 17. Fim de semana cada um tinha que ir prum lado! A convivência era intensa. A gente saia de noite, via alguns shows. Mas como em São Paulo tudo é distante, a gente não tinha carro e transporte encerrava de meia-noite, a gente ficava em casa tirando um som e bebendo cerveja. Vivendo música, acordando e dormindo com música”, relembra. Quando voltaram, depois de uns dois meses sem olhar pra cara do outro, por causa da convivência intensa em SP, os músicos alugaram uma sala em Candeias pra ensaiar todo dia, numa rotina que durou por uns 3 anos. “Niero foi fazer faculdade, eu comecei Engenharia de Som. Tocamos intensamente entre 2007 e 2009, em Recife, em Maraca, Pipa, datas fixas no Burburinho, na rua também. O público também por essa época começou a se formar: em boa parte, uma galera que curte surf, mergulho, praia”, conta Vinícius.

Em 2008 a banda participou de uma coletânea nacional em homenagem aos 40 anos do White Album, dos Beatles, com uma versão para a música “Sour Milk Sea”, de George Harrison. Entre shows pelos Estados vizinhos, gravou, em 2010, o programa Oi Novo Som Recife, no estúdio Fábrica, lançando uma versão de Trilha do Sumé, música de Lula Côrtes e Zé Ramalho, do disco Paêbirú. Em 2011, tocou como banda de apoio de Di Melo. No ano passado, o grupo fez uma temporada de 10 dias de shows em Fernando de Noronha.

O ano de 2013 foi o grande marco dos trabalhos da Pé Preto, que está em estúdio finalizando seu primeiro disco. Algumas músicas, como Estudando Uzôto e Galo Véi (duas das músicas de trabalho), já estão disponíveis no SoundCloud (soundcloud.com/pepreto).

Paralelo ao trabalho com a Pé Preto, os músicos levam outras atividades. Heverton ‘Bilisca’ toca em algumas bandas de reggae, e tem projetos de MPB também. Pedro toca com diversas bandas, Niero é engenheiro de pesca, e Vinícius toca o Estúdio Base.

Quando perguntado sobre quem anda fazendo um som por Candeias atualmente, destaca: “La Pedra, uma banda de reggae de Bilisca e Pedro e Felipe Monstrão (ex-Mandala). Também o pessoal da Monomotores e Quarto Astral. Uma galera que faz um trabalho massa, mas as vezes só fica tocando por Candeias.

Neste ano, a Pé Preto fez uma mini-turnê no Rio de Janeiro e, juntamente com Aninha Martins e Sem Peneira para Suco Sujo, foi destaque do Rec Beat Apresenta, uma espécie de prévia do festival pernambucano Rec Beat, que acontece durante o Carnaval. O evento surgiu da necessidade, segundo o próprio produtor Antonio Gutierrez (Gutie), de abrir espaço para bandas novas que não estavam na edição 2014 e da necessidade de celebrar a constante renovação da cena musical local.

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