O que te motiva a fazer um filme? Para a artista plástica e figurinista pernambucana Joana Gatis, 38 anos, foi raiva. O primeiro curta-metragem da diretora, Soledad, está pronto para começar a circular por festivais de cinema. Após trabalhar em dezenas de longas e curtas pernambucanos como figurinista, dentre os quais estão Baixio das Bestas e Febre do Rato de Claudio Assis, Joana dirigiu um filme de faroeste ao lado de mais dois amigos e uma grande equipe.

Foi num sonho que Joana teve a ideia inicial para Soledad, filme que leva o nome da personagem-título interpretada pela própria autora. Joana estava morando em São Paulo e, motivada por raiva, deu origem ao roteiro sobre vingança, sexo e violência. No retorno para Recife, ela encontrou na Praia do Janga, em Paulista, o cenário para o filme. “É um filme que tem muita coisa pessoal minha. É um desabafo meu sobre coisas pessoais”, contou.

“Tem muito do cinema spaghetti italiano. Eu gosto do faroeste tradicional, do Sergio Leone, porque ele tem uma pseudo-calma, uma tensão e sabe usar muito bem o tempo. E também tem muito do Mad Max, dos originais”, explicou Joana sobre as referências que serviram de inspiração para o roteiro de Soledad. O filme é completamente sem diálogos, pois segundo Joana, neste futuro não muito distante, as palavras foram esquecidas.

No meio do processo entraram dois amigos que colaboraram com o roteiro e também assinam a direção do filme: Flávia Vilela e Daniel Bandeira. Na primeira versão do roteiro, escrita em conjunto com Flávia, a atmosfera era puramente feminina e o desejo de vingança era muito mais latente. Com a chegada de Daniel, que lançou um terceiro olhar sobre a história, o faroeste ganhou outras arestas. “Daniel nos ajudou a fazer um filme possível de ser filmado, com um olhar mais técnico sobre as cenas”, contou.

A equipe contou com o talento de Dani Vilela e Diogo Costa na direção de arte, Andrea Monteiro no figurino, Tayce Vale na maquiagem, Pedro Sotero na direção de fotografia, Clayton Martin (da banda Cidadão Instigado) na trilha sonora, Daniel Bandeira na montagem, entre muitos outros.

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Cinema de mulher?

Recentemente no Recife houve uma forte discussão em torno de filmes dirigidos por mulheres, cujo foco da discussão era uma mostra de cinema segmentada. Joana, que há uma década trabalha com cinema, diz que sempre viu mulheres marcando presença nas produções e que dispensa o rótulo “cinema de mulher” pelo fato de não entender que um filme pertença unicamente a quem assina a sua direção, mas sim a toda a equipe envolvida no trabalho. “As mulheres não têm que se intimidar. Elas têm que fazer filmes. E tem que ter mais filmes feitos por todo mundo”, declarou ela. “Não tem que existir festival de mulher ou festival de homem”, completou.

Soledad é descrito por Joana como um filme feminino, mas que ela não concebe a ele o título de filme feminista, embora tenha convicção de que ele assim será chamado. A diretora estreante declarou: “Eu queria que não olhassem para o meu filme de modo diferente só porque uma mulher dirigiu. Para mim existe filme ruim e filme bom, independente de quem o dirigiu”.

“As mulheres não têm que se intimidar. Elas têm que fazer filmes. Não tem que existir festival de mulher ou de homem.”

A carreira de figurinista começou como assistência de moda em diversos trabalhos realizados em São Paulo, para onde ela mudou-se em 1997. O currículo acumula desde editoriais de moda a produção de figurino para TV. Sem nunca ter feito assistência de figurino para cinema, Joana entrou na equipe de Baixio das Bestas (2007) assinando o figurino do filme e vem traçando um caminho de sucesso desde então. O filme pernambucano mais recente com figurino produzido por Joana foi Amor, Plástico e Barulho (2012). Além de figurinista, ela é artista plástica e agora, cineasta. Seu talento se estende desde cerâmicas, arte herdada através da mãe, a telas e tecidos.

Nas telas pintadas por Joana, os corpos nus são elementos recorrentes. Em Soledad os corpos nus também estão lá. Ela não sabe explicar a recorrência do sexo em suas obras, mas assume que a sedução é algo que lhe interessa muito. O sexo é uma questão muito bem resolvida para a artista, que assume o gosto pelo tema e não nega falar sobre o assunto. Aliás, seu corpo serviu de inspiração para os desenhos do filme Deixem Diana Em Paz (2013) de Júlio Cavani.

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Ansiosa para ver o filme sendo exibido em telas grandes, Joana conta que a finalização foi um período de amadurecimento de tudo. Há 1 ano, os três diretores pensaram estar com o filme pronto, quando decidiram prolongar a estreia e trabalhar a montagem por mais algum tempo. A finalização excedeu o orçamento previsto para o filme, que foi de R$ 100 mil do edital Funcultura Audiovisual. O trio de diretores iniciou uma campanha de financiamento coletivo para arrecadar fundos para os trabalhos necessários para finalizar o filme e arrecadaram pouco mais de R$ 4 mil reais. A campanha contou com apoio de 54 pessoas.

“É um filme caro, se você assistir você verá”, conta Joana, explicando que sequências de tiroteio exigiram muitos efeitos de maquiagem e a arte do filme foi caprichada. O filme tem inclusive efeitos visuais, um capricho que poucos filmes podem ter. Soledad pode virar uma série de TV, caso os planos que Joana Gatis têm em mente se concretizem. A ideia está sendo trabalhada ainda na cabeça dela. O filme, ainda inédito, deve estrear em festivais de cinema no segundo semestre de 2015. A sessão de estreia no Recife ainda não está marcada, mas Joana prevê que deve acontecer em poucos meses.

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