Revista O Grito!

Holofotes —

Category: Música

As coisas belas de Isadora Melo

O jeito tímido de Isadora Melo contrasta com a segurança e firmeza de sua voz. Basta alguns minutos para convencer o ouvinte sobre a verdade de seu canto, uma certeza que fica clara em cada interpretação. Um dos principais nomes da nova cena musical independente do Recife, Isadora está conectada ao círculo de nomes talentoso de sua geração. O seu primeiro disco, ainda inédito, tem tudo para se tornar um dos registros-chave para entender o bom momento desta nova safra.

Encontramos Isadora no Edifício Pernambuco em uma tarde de quarta-feira de muito sol no Recife. O local é um dos principais polos de economia criativa do Estado e se beneficia desses dias claros por causa de suas janelas largas e longas varandas. Isadora divide seu tempo entre a produção de seu disco de estreia e seu emprego de designer. Ela assinou cartazes do festival Excentricidades e trabalhou nas peças do longa A História da Eternidade, de Camilo Cavalcanti. Diz que está em um processo de escolher caminhos, assume a pouca experiência e avisa que está feliz.

“Escolhi a música por casualidade e me sinto feliz. É isso que quero fazer pelo resto da minha vida”, diz com a voz mansa, mas assertiva, sentada em um sofá confortável no andar sem divisórias e bem arejado do edifício. O disco está quase pronto e tem produção de Juliano Holanda, amigo e nome importante da nova geração de músicos pernambucanos. Ainda sem título, o álbum deve sair em setembro e terá ainda composições de Zé Manoel, Areia, Clara Simas, Hugo Linns, Paulo Paes e Caio Lima.

Tudo será gravado ao vivo com uma atmosfera acústica.

O trabalho terá um tom nostálgico, assume Isadora, fã de Elizete Cardoso – “a melhor cantora de todos os tempos” -, mas também irá trazer o olhar da cantora sobre coisas belas. “O disco é muito do que quero dizer e muito do que estou vivendo agora”. Como outros artistas de sua geração, Isadora olha o passado não como uma reverência, mas na busca de referências para compreender o presente. Um pouco da proposta artística dela está disponível no EP homônimo com três músicas.

dora_holo2

Teste, palco e turnê de supetão

Apesar de surgir como uma boa surpresa na música pernambucana, a história de Isadora Melo como artista começou bem antes, ainda criança. Sua lembrança mais remota é se empolgar com o clima dos bastidores e ensaios em trabalhos de seus pais. Ela é filha da atriz Sônia Cristina, que fez Manual Prático da Felicidade, entre outros e do cantor Karlson Correia. Estudou violoncelo no Conservatório Pernambucano de Música, mas abandonou para estudar para o vestibular.

Já no curso de design da Universidade Federal de Pernambuco se deparou com um cartaz para testes da peça O Baile do Menino Deus, uma das mais tradicionais do ciclo natalino do Recife. “Fui bem despretensiosa para a audição e consegui o papel. O diretor também me deu um solo”, lembra. “Foi meu primeiro trabalho profissional.” De zero experiência passou direto para um palco com 10 mil pessoas no Marco Zero, Centro do Recife. Ainda lembra bem daquele dia de estreia quando no momento em que tinha todas as atenções voltadas para si, errou a letra. “Eu errei a letra. Na verdade, achei que tinha errado e por isso parei e disse ‘ai meu deus'”, conta rindo.

“Escolhi a música por casualidade e me sinto feliz. É isso que quero fazer pelo resto da minha vida”

Foi no Baile que Isadora conheceu o bandolinista Rafael Marques, nome decisivo para seu ingresso na carreira de cantora. Ele estava precisando de uma cantora para seu projeto de chorinho, Arabiando. “A cantora tinha acabado de sair e eles estavam atrás de alguém para seguir em turnê”. Foi apenas um mês de ensaio e lá estava Isadora em Viçosa do Ceará em um festival cheio de nomes importantes do gênero. Estavam lá Jorge Cardoso e o Choro das Três, grupo de garotas de São Paulo sucesso no meio.

“Entrei sem saber nada de chorinho, mas acabou sendo uma experiência incrível. Eles já estavam no nivel de profissionalização muito além do que eu estava na época e isso foi incrível para mim.” A experiência do choro levou Isadora ao samba. Chegou a trabalhar com o Trio Pouca Chinfra e a Cozinha. Conforme a segurança crescia, seu círculo aumentou além dos gêneros que a colocaram no mundo da música. “O início da vida que estou vivendo hoje foi quando conheci Mery Lemos, hoje minha produtora. Ela procurava uma cantora para fazer os shows do novo disco de Juliana Holanda.

Nome importante da atual cena recifense, Juliano tinha cinco músicas cantadas por mulheres e precisava de uma cantora fixa para excursionar junto com sua banda. Na turnê, Isadora fez laços que se fortaleceram para gerar sua estreia em disco. “Juliano Holanda e Areia me instigaram a fazer outras histórias. Comecei a ampliar meus interesses e percebi que poderia experimentar na música outras experiências de vida que eu tinha”. Passado os shows, a cantora estava pronta para estrear ao vivo em um projeto onde sua voz era o centro de tudo.

Sexto andar e além

A estreia de Isadora Melo foi no Coletivo Sexto Andar em um show intimista com apenas sete músicas. Em seguida ela foi ao estúdio Muzak para registrar as faixas do EP. A repercussão foi boa e marcou o início da carreira solo. “Eu perguntei que nome daria para o projeto e Mery disse ‘coloca Isadora Melo mesmo’.” A afirmação foi acertada: a música reflete bem a personalidade da intérprete, que assume um estilo muito próprio já neste início.

“Apesar de não serem minhas as letras, consigo me conectar com que elas dizem e tornar aquilo parte de mim”, explica. “Tive sorte de trabalhar com Juliano que é um artista foda, muito talentoso”. Para quem começou de maneira despretensiosa, Isadora já enfrentou muitos desafios. Agora, é a vez do público desfrutar dessa visão das coisas belas que ela trouxe para seu canto.

dora_holo3

Conheça mais do trabalho de Isadora Melo:

Aninha Martins: Não quero ser a cantora fofinha

Visceral e verdadeira, essas palavras definem com precisão a cantora Aninha Martins. Aos 24 anos ela está naquele momento decisivo da carreira de qualquer artista: seguir a onda para ver onde vai dar ou trabalhar a emoção que nasce de sua voz para fazer o que realmente deseja? Ver suas apresentações e os primeiros shows que vem realizando não deixa pairar dúvidas. Aninha vem traçando um caminho singular, ainda de buscas, é verdade, mas com uma vitalidade e energia que nos leva a não temer darmos uma de adivinho: essa moça vai longe.

Aninha sempre foi balançada para o lado das artes. Na escola já gostava de participar de apresentações teatrais e de dança. Fez cursos de teatro e até então a música estava presente na sua vida pelos discos do Pink Floyd que o pai gostava de ouvir em casa, nas idas ao Abril pro Rock no dia do heavy metal ou aos shows do Cordel do Fogo Encantado até quando, em 2006, com apenas 18 anos, encontrou o Sabiá Sensível.

Eu quero estar podre, suada no palco, o povo vem me entregar uma toalha e eu digo não!

ana11

Participar do grupo formado por Germano Rabelo, Anaíra, Vina, Enio, Hugo, Karla e Vicente marcou profundamente Aninha. A banda ficou conhecida na cena recifense por suas performances lúdicas e pelas canções com letras bem humoradas. O Sabiá investia no trabalho vocal, quase todos os integrantes cantavam, e também na interpretação das histórias contadas pelas composições de Germano a exemplo de “Capivara” ou “Magaiver Profissão Perigo”.

A vivência coletiva, o improviso e a liberdade criativa é algo ainda vivo na memória de Aninha. “A gente improvisava, brincava, os shows eram meio caóticos, mas eram incríveis. Tudo era muito espontâneo. Teve um show no Iraq que no meio da apresentação rolou uma briga entre nós e parecia uma performance, mas não era. Depois a galera ficou dizendo ‘pô devia ter gravado esse show, ficou muito massa'”.

Com o fim do Sabiá, Aninha se sentiu um pouco desamparada e resolveu entrar no Conservatório Pernambucano de Música para estudar canto popular. Nos dois anos em que ficou lá, ela começou a aperfeiçoar a voz. “Eu gritava muito e passei a cantar melhor e sem dor”. Outro ganho positivo foi as pesquisas que realizou sobre a música brasileira e que a levou a se interessar por gravações antigas das primeiras décadas do século XX e a fazer apresentações cantando antigos chorinhos.

ana8

Ao deixar o conservatório, depois do estímulo com a linha performática vivida com o Sabiá, participar de oficinas de trabalho corporal com voz e movimento, foi o caminho mais natural para Aninha voltar ao teatro. Por conta da reaproximação com as artes cênicas acabou sendo convidada para substituir Natasha Falcão no musical infantil Caxuxa no papel de Graxa, uma engraxate sonhadora, que canta a música final do espetáculo. Por esse tempo também foi chegando cada vez mais perto da nova cena musical pernambucana. Trabalhou com D Mingus e a Fantástica Kazoo Orquestra e acompanhou Matheus Mota. Foi neste período que Juvenil Silva a convidou para participar da Noite do Desbunde Elétrico no ano passado.

Ritmo frenético na nova fase

A apresentação no Desbunde assinala o início da nova fase de Aninha Martins. “Meu primeiro grande show foi no Desbunde Elétrico, lá em Dois Irmãos. Foi meio caótico, nem eu nem a banda estávamos muito preparados, mas como a gente foi com muita verdade e eu tava muito feliz, o povo gostou. Isso rendeu frutos incríveis como o vídeo da Ostra Monstro. Foi também a partir do Desbunde que Gutie [Antonio Gutierrez, produtor do Rec-Beat] viu a gente e chamou pro Recbeat. Paulo André [produtor do Abril Pro Rock] tava lá, e rendeu uma filmagem com um cara de uma banda de Nova York que veio fazer um documentário sobre a música daqui e fui uma das entrevistadas, foi bem legal.”

De 2013 para cá, Aninha está num ritmo frenético. Antes do Rec Beat no carnaval deste ano participou do Cena Beto apresenta O Boratcho é mais embaixo, na Galeria Joana D’Arc, onde fez dupla com Matheus Mota; no Solar da Marquesa, em Olinda fez o Sexta Feira 13 ao lado do Ex-Exus e já está com banda fixa que a está acompanhando, formada pelo tecladista Hugo Coutinho e o baterista Vicente, ambos tocando com ela desde a Sabiá Sensível, e mais Rodrigo Padrão na guitarra, Aline Borba na flauta e o baixista Vitor Geovani. Também participou do Outros Críticos ao lado da cantora Isaar.

Minha música trata de questões existenciais. E a questão da mulher é uma busca.

aninha_interna_post

Mas sem dúvida, um dos momentos mais importantes para Aninha foi dividir a mesma noite do Rec Beat, no domingo de carnaval com a banda americana Jonathan Dolls e o paulistano Arrigo Barnabé, um dos músicos que ela mais admira. “O show do Rec Beat foi fuderoso, tocar ali naquele palco no carnaval no mesmo dia de Arrigo, com mesmo equipamento, palco incrível. Era o dia do Quanta Ladeira, era no domingo, foi lotado”, lembra entusiasmada.

O Ocupe Estelita também deu um grande prazer para Aninha na apresentação que ela fez em apoio ao movimento em julho último. “O show no Estelita foi o meu segundo grande show solo, deu um público muito bom e eu gostei dessa experiência de estar na mesma altura do público e poder trabalhar realmente o olho no olho, conversar com eles interagindo comigo”.

Cena Beto, Abril pro Rock, Recbeat, Estelita, show com Isaar, essas experiências estão delineando os passos de Aninha. O teatro, segundo ela, está sendo decisivo para moldar sua atuação no palco. “Eu agora estou mais braba”, diz rindo. “Gosto de sair do lugar da cantora fofinha. Eu quero estar podre, suada no palco, o povo vem me entregar uma toalha e eu digo não queeero!. No último show do Pai da Mata, a banda colocou sangue na boca, enquanto escorria o sangue eu cantava. Eu gosto dessas coisas assim, que é muito da energia do teatro. Eu estou inteira, o corpo é meu, eu estou ali daquele jeito porque eu gosto de dançar no palco, mas eu não sou uma bailarina, eu treino o corpo e eu danço desse jeito”.

Em suas buscas e pesquisas, Aninha Martins vai de Bessie Smith a Maria Bethânia, e não esconde seus afetos pelas vocalistas que acompanhavam Itamar Assumpção, por Vânia Bastos, e entre as revelações mais recentes cita os nomes de Tulipa Ruiz, por ser uma cantora visceral como ela, sem esquecer a performance de Karina Buhr. “A bicha no palco arrasa”. A presença dessas cantoras no universo de preferências de Aninha revelam também a sua afinidade com um tema central que a vem mobilizando tanto nas apresentações que vem fazendo quanto na elaboração do projeto Esquartejada, assim como o seu primeiro disco: o feminino. “Minha música trata de questões existenciais. E a questão da mulher é uma busca. Quero trabalhar mais sobre isso”, diz.

Mulher e sangue

A questão da mulher para a cantora, contudo, ganha um olhar peculiar, fruto de sua trajetória artística pessoal. Ela escolhe as músicas e Rodrigo Padrão faz os arranjos. “No carnaval eu cantei uma música de Paulinho do Amparo que é Ó Linda Morte, Carnaval Caveira que cabe muito no meu repertório”. O parceiro Germano também é lembrado por “Útero” que narra a história de uma pessoa que vivia no útero da mãe e não queria se desvencilhar proque tinha uma história triste.

Outro compositor de quem Aninha quer incluir músicas é Goemon. Ele participou da vanguarda paulistana nos anos 1980 com Arrigo Barnabé. “Conheci as canções dele através de Graxa e Juvenil. É bem bizarro, uns teclados muito anos 80 e as letras sei lá, tem alguma coisa que me puxa meio pra morte, as letras dele são foda, ‘Belzebu’, ‘Satã Tinhoso’, eu gosto dessas linhas meio assim”. Eu já canto ‘Paola’, sobre um travesti e agora quero cantar ‘De porrada em porrada'”.

Com a espontaneidade que vem marcando sua atuação, Aninha é enfática: “são aspectos que acredito e vivencio, são questões bem pontuais assim tipo Paola a travesti, o útero, a mulher que quer fagocitar e engolir um homem, o Esquartejada, mulher e sangue porque tem sangue na boca. Essa música ‘De Porrada em Porrada diz: ‘de puro ódio você me bateu um murro na boca’, toda relação de mulher e homem, de violência. Coisas que estão aí”.

E para levar seus projetos a cabo Aninha está se preparando. Diz que pisou no freio para ir com mais calma, mas já sabe as músicas as quais quer trabalhar. “Quero trabalhar timbres, timbre de tudo. Voz com timbre, flauta com timbre, baixo com timbre. Não que seja tão timbrístico assim, mas que soe diferente”.

E quer no horizonte convocar as amigas para compartilhar a experiência. “Eu gosto das vozes femininas e noto que as mulheres são meio desunidas. Sei lá, eu vejo que os meninos são bem unidos na cena, por isso eu sempre tento trazer as mulheres para os meus shows. A gente não é amiga, mas se entende. Quando vai fazer a coisa entende o timbre da outra, compartilha”.

gutie ANTÔNIO GUTIERREZ (GUTIE)“Acho que Aninha Martins traz um grande diferencial entre as novas cantoras que surgiram recentemente no país. Ela se diferencia principalmente no timbre de voz e na postura cênica. Ela tem consciência da importância das performances ao vivo e explora muito bem isso. E também sabe escolher muito bem seu repertório. Aposto muito no futuro dela. E esses foram os motivos de ela ter subido no palco do Rec-Beat deste ano.”
juvenil JUVENIL SILVA“Acompanho Aninha desde muito tempo, quando estávamos começando. Particularmente acompanhei e observei o desempenho evolutivo dela desde dos tempos da “Sabiá”, acreditando que aquela menina podia e pode muito mais. Como postura artística acho ela uma potencia deslumbrante, e pronta pra tudo que possa pintar. Estou ansioso por um disco dela, e tenho boas expectativas, pois o que ela faz é forte e apaixonante. Quase irresistível. Muito orgulho dela…”

 

FICHA TÉCNICA
Maquiagem: Elton Abrahmovic.
Aninha Martins veste: Acervo Pessoal.
Agradecimentos: Galeria Mau Mau e Irma Brown.

Pé Preto: Candeias não é para amadores

Se fosse apenas pela característica de ser bairro praiano povoado de tipos meio urbanos, meio caiçaras, Candeias, bairro de Jaboatão (cidade da Região Metropolitana do Recife), poderia ser berço de cantores de voz e violão reproduzidos aos montes em barzinhos bucólicos de beira-mar. Não que eles não existam.

Mas a verdade é que as diversas placas indicativas de que aquele trecho não é recomendado para banho nem tampouco para surfistas afoitos, devido à incidência de ataques de tubarões, bem que poderiam indicar “Atenção: aqui se faz boa música”. Citar Candeias é importante para falar sobre a Pé Preto, uma das bandas pernambucanas autorais mais criativas surgidas na leva dos anos de 2000 e que só agora lançam disco de estreia.

Funk americano, soul e afrobeat são algumas das principais influências sonoras. Formada atualmente por Filipe Niero (voz e letras), Vinicius ‘Lezo’ Nunes (baixo), Pedro ‘Chainha’ Sanchez (guitarra), Heverton ‘Bilisca’ Lima (bateria) mais Chico Rocha (guitarra), João Nogueira (teclas) Gilmar Black (sax), Enok Chagas (trompete), Marconi Tulio (trombone) e Júnior Do Jarro (percussão), a banda completa 10 anos em 2014, mesmo ano que vai enfim marcar a gravação do seu primeiro álbum. Entre viagens de integrantes e dedicação a projetos solos, a banda passou um tempo parada para agora retornarem com tudo. É Candeias que está impressa sutilmente no estilo de vida dos artistas que a habitam ou que de lá saíram para ganhar o mundo.

“A gente se conhece desde os 13, 14 anos. Começamos a tirar um som despretensiosamente nessa época e surgiu a ideia de fazer uma banda. Quando a gente tinha entre 18 e 16 anos, começamos a pensar o nome até que “Pé Preto” surgiu. Isso em 2003. A gente tava no colégio ainda, eu indo pra faculdade. Depois que a gente foi conceituar o nome” conta Vinícius Nunes, o ‘Lezo’, sobre o início com os parceiros Pedro ‘Chainha’ Sanchez e Heverton ‘Bilisca’.

“Em 2004 eu conheci Felipe Niero. Numa volta de carro, mostrei o Tim Maia Racional pra ele, que ficou muito empolgado. Sempre gostei de ir atrás de disco, pesquisar a respeito. Através do meu pai também conheci muitas obras de samba, funk, desde guri. Já Niero teve uma criação musical de muito samba, MPB, João Bosco, Chico Buarque, João Gilberto. E a influência de Pedro é mais rock’ n’roll, de Led Zepellin, Pink Floyd”, completa.

A banda até então era Vinícius e Pedro, quando Niero foi convidado a se juntar ao grupo, que não sabia que ele cantava. Foi ele que veio com a ideia de convidar o baterista Belisca, e recém-chegado de Brasília e tinha uma banda. Por coincidência, todos moravam muito próximos, coisa de um quarteirão do outro. “Conheci Niero e Glauco por causa de Iuri, que era baixista da Comuna (atualmente toca n’A Rua), e é amigo meu de infância, relembra.

Nessa época, a turma de Candeias costumava se reunir pelo menos uma vez por mês, aos domingos, pra levar jam sessions instrumentais que reunia na casa de alguém os futuros integrantes de bandas como Monomotores, Comuna, Pé Preto, Johnny Hooker. “Foi uma época muito construtiva. E muitos ainda tocam ainda hoje a carreira de músico: o próprio Johnny, Iuri (Pimentel), Amaro (Mendonça), Glauco, tá todo mundo de alguma forma ligado à música”, revela Vinícius.

O primeiro show aconteceu no extinto Capibar. O grupo seguiu ensaiando, entre covers de Jorge Ben e outras inspirações, com o primeiro vocalista (Cioba, que tocava na banda de reggae Malakai). Em um dos ensaios, o músico faltou, o que criou a oportunidade para Niero assumir o microfone pra cantar. Depois que a banda viu o potencial dele no vocal dele, ficou decidido que ele assumiria o posto. “A gente passou a tocar o Tim Maia Racional, umas coisas de Jorge Ben, Beatles”, relembra Vinícius.

No começo dos trabalhos, em 2006, a banda gravou um EP no Estúdio Flautin (SP). “Nessa temporada em SP, no bairro Perdizes, a gente ensaiava de 8 da manhã até 20hrs, de segunda a sexta, só parando pra almoçar. Eu tinha 20 anos, na época, Niero 19, Heverton (Bilisca) 18 e Pedro (Chainha) Sanchez 17. Fim de semana cada um tinha que ir prum lado! A convivência era intensa. A gente saia de noite, via alguns shows. Mas como em São Paulo tudo é distante, a gente não tinha carro e transporte encerrava de meia-noite, a gente ficava em casa tirando um som e bebendo cerveja. Vivendo música, acordando e dormindo com música”, relembra. Quando voltaram, depois de uns dois meses sem olhar pra cara do outro, por causa da convivência intensa em SP, os músicos alugaram uma sala em Candeias pra ensaiar todo dia, numa rotina que durou por uns 3 anos. “Niero foi fazer faculdade, eu comecei Engenharia de Som. Tocamos intensamente entre 2007 e 2009, em Recife, em Maraca, Pipa, datas fixas no Burburinho, na rua também. O público também por essa época começou a se formar: em boa parte, uma galera que curte surf, mergulho, praia”, conta Vinícius.

Em 2008 a banda participou de uma coletânea nacional em homenagem aos 40 anos do White Album, dos Beatles, com uma versão para a música “Sour Milk Sea”, de George Harrison. Entre shows pelos Estados vizinhos, gravou, em 2010, o programa Oi Novo Som Recife, no estúdio Fábrica, lançando uma versão de Trilha do Sumé, música de Lula Côrtes e Zé Ramalho, do disco Paêbirú. Em 2011, tocou como banda de apoio de Di Melo. No ano passado, o grupo fez uma temporada de 10 dias de shows em Fernando de Noronha.

O ano de 2013 foi o grande marco dos trabalhos da Pé Preto, que está em estúdio finalizando seu primeiro disco. Algumas músicas, como Estudando Uzôto e Galo Véi (duas das músicas de trabalho), já estão disponíveis no SoundCloud (soundcloud.com/pepreto).

Paralelo ao trabalho com a Pé Preto, os músicos levam outras atividades. Heverton ‘Bilisca’ toca em algumas bandas de reggae, e tem projetos de MPB também. Pedro toca com diversas bandas, Niero é engenheiro de pesca, e Vinícius toca o Estúdio Base.

Quando perguntado sobre quem anda fazendo um som por Candeias atualmente, destaca: “La Pedra, uma banda de reggae de Bilisca e Pedro e Felipe Monstrão (ex-Mandala). Também o pessoal da Monomotores e Quarto Astral. Uma galera que faz um trabalho massa, mas as vezes só fica tocando por Candeias.

Neste ano, a Pé Preto fez uma mini-turnê no Rio de Janeiro e, juntamente com Aninha Martins e Sem Peneira para Suco Sujo, foi destaque do Rec Beat Apresenta, uma espécie de prévia do festival pernambucano Rec Beat, que acontece durante o Carnaval. O evento surgiu da necessidade, segundo o próprio produtor Antonio Gutierrez (Gutie), de abrir espaço para bandas novas que não estavam na edição 2014 e da necessidade de celebrar a constante renovação da cena musical local.

Juliano Holanda: Uma novidade veterana

Quando pensamos em música pernambucana, impossível não lembrar de Juliano Holanda. Ele, que tem mais de 20 anos de carreira, deu seu primeiro voo solo em 2013 com a gravação de A Arte de Ser Invisível e Para Saber Ser Nuvem de Cimento Quando o Céu for de Concreto é um verdadeiro às na manga quando o assunto é música autoral. Músico bem sedimentado na cena local, ele já participou de um sem número de shows e conta com mais de 100 músicas gravadas por outros intérpretes. A partir de atuações diversas, já participou dos discos de Mônica Feijó, Geraldo Maia, Cascabulho, Gonzaga Leal, Zeh Rocha, Silvério Pessoa, Alessandra Leão e Academia da Berlinda.

Dono de uma trajetória nada embrionária, ele colhe os louros de anos de estrada e hoje oxigena sua carreira com voos solos. A Arte de Ser Invisível conta com a participação de músicos importantes como Benjamin Taubkin, Jam da Silva e Siba. Para além de ser um neófito quando o assunto é carreira solo, Juliano é músico desde os 13 anos de idade, quando ainda vivia em Goiana, cidade da Mata Norte de Pernambuco. Para se aperfeiçoar e ganhar profissionalismo passou pelo Conservatório Pernambucano de Música (CPM) e também pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e conta no seu currículo participações em eventos importantes – como o Domingo no Campus, Abril pro Rock, Mercado Cultural, Na Mira da Música Brasileira – e em espaços como o Sesc Pompéia, Estação Arte e no Festival Rotas Culturais e Comunidades.

juliano

Sua produção mais notável e reconhecida pela crítica local e nacional, A Arte de Ser Invisível tem 11 composições interpretadas pelo próprio Juliano. Há ainda convidados de peso e estirpe como Marcelo Preto, Tatiana Parra, Carlos Ferreira, Siba, Laya Lopes e Geraldo Maia. A presença de sons locais é uma dos principais diferenciais de Holanda. A música traz uma autoralidade e uma pernambucanidade de fácil identificação. O ouvinte sente-se à vontade com a sonoridade de Juliano.

Essa diversidade de parcerias mostra em uníssono a qualidade do artista cujas composições cabem em qualquer voz. “Kama Sutra” é a música que abre a obra e em tom confessional convida o ouvinte a passear pelas próximas 10 faixas. “Na Primeira Cadeira” também merece atenção especial pela força de afirmação contida em cada verso. Um disco para sedimentar e fincar raízes.

Pra Saber Ser Nuvem de Cimento Quando o Céu For de Concreto chega a ser ainda mais autoral e foi gravado com as participações de Isadora Melo, Tom Rocha e Walter Areia.

Holofotes é um blog da Revista O Grito!. Todos os direitos reservados. © 2013–2019