O jeito tímido de Isadora Melo contrasta com a segurança e firmeza de sua voz. Basta alguns minutos para convencer o ouvinte sobre a verdade de seu canto, uma certeza que fica clara em cada interpretação. Um dos principais nomes da nova cena musical independente do Recife, Isadora está conectada ao círculo de nomes talentoso de sua geração. O seu primeiro disco, ainda inédito, tem tudo para se tornar um dos registros-chave para entender o bom momento desta nova safra.

Encontramos Isadora no Edifício Pernambuco em uma tarde de quarta-feira de muito sol no Recife. O local é um dos principais polos de economia criativa do Estado e se beneficia desses dias claros por causa de suas janelas largas e longas varandas. Isadora divide seu tempo entre a produção de seu disco de estreia e seu emprego de designer. Ela assinou cartazes do festival Excentricidades e trabalhou nas peças do longa A História da Eternidade, de Camilo Cavalcanti. Diz que está em um processo de escolher caminhos, assume a pouca experiência e avisa que está feliz.

“Escolhi a música por casualidade e me sinto feliz. É isso que quero fazer pelo resto da minha vida”, diz com a voz mansa, mas assertiva, sentada em um sofá confortável no andar sem divisórias e bem arejado do edifício. O disco está quase pronto e tem produção de Juliano Holanda, amigo e nome importante da nova geração de músicos pernambucanos. Ainda sem título, o álbum deve sair em setembro e terá ainda composições de Zé Manoel, Areia, Clara Simas, Hugo Linns, Paulo Paes e Caio Lima.

Tudo será gravado ao vivo com uma atmosfera acústica.

O trabalho terá um tom nostálgico, assume Isadora, fã de Elizete Cardoso – “a melhor cantora de todos os tempos” -, mas também irá trazer o olhar da cantora sobre coisas belas. “O disco é muito do que quero dizer e muito do que estou vivendo agora”. Como outros artistas de sua geração, Isadora olha o passado não como uma reverência, mas na busca de referências para compreender o presente. Um pouco da proposta artística dela está disponível no EP homônimo com três músicas.

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Teste, palco e turnê de supetão

Apesar de surgir como uma boa surpresa na música pernambucana, a história de Isadora Melo como artista começou bem antes, ainda criança. Sua lembrança mais remota é se empolgar com o clima dos bastidores e ensaios em trabalhos de seus pais. Ela é filha da atriz Sônia Cristina, que fez Manual Prático da Felicidade, entre outros e do cantor Karlson Correia. Estudou violoncelo no Conservatório Pernambucano de Música, mas abandonou para estudar para o vestibular.

Já no curso de design da Universidade Federal de Pernambuco se deparou com um cartaz para testes da peça O Baile do Menino Deus, uma das mais tradicionais do ciclo natalino do Recife. “Fui bem despretensiosa para a audição e consegui o papel. O diretor também me deu um solo”, lembra. “Foi meu primeiro trabalho profissional.” De zero experiência passou direto para um palco com 10 mil pessoas no Marco Zero, Centro do Recife. Ainda lembra bem daquele dia de estreia quando no momento em que tinha todas as atenções voltadas para si, errou a letra. “Eu errei a letra. Na verdade, achei que tinha errado e por isso parei e disse ‘ai meu deus'”, conta rindo.

“Escolhi a música por casualidade e me sinto feliz. É isso que quero fazer pelo resto da minha vida”

Foi no Baile que Isadora conheceu o bandolinista Rafael Marques, nome decisivo para seu ingresso na carreira de cantora. Ele estava precisando de uma cantora para seu projeto de chorinho, Arabiando. “A cantora tinha acabado de sair e eles estavam atrás de alguém para seguir em turnê”. Foi apenas um mês de ensaio e lá estava Isadora em Viçosa do Ceará em um festival cheio de nomes importantes do gênero. Estavam lá Jorge Cardoso e o Choro das Três, grupo de garotas de São Paulo sucesso no meio.

“Entrei sem saber nada de chorinho, mas acabou sendo uma experiência incrível. Eles já estavam no nivel de profissionalização muito além do que eu estava na época e isso foi incrível para mim.” A experiência do choro levou Isadora ao samba. Chegou a trabalhar com o Trio Pouca Chinfra e a Cozinha. Conforme a segurança crescia, seu círculo aumentou além dos gêneros que a colocaram no mundo da música. “O início da vida que estou vivendo hoje foi quando conheci Mery Lemos, hoje minha produtora. Ela procurava uma cantora para fazer os shows do novo disco de Juliana Holanda.

Nome importante da atual cena recifense, Juliano tinha cinco músicas cantadas por mulheres e precisava de uma cantora fixa para excursionar junto com sua banda. Na turnê, Isadora fez laços que se fortaleceram para gerar sua estreia em disco. “Juliano Holanda e Areia me instigaram a fazer outras histórias. Comecei a ampliar meus interesses e percebi que poderia experimentar na música outras experiências de vida que eu tinha”. Passado os shows, a cantora estava pronta para estrear ao vivo em um projeto onde sua voz era o centro de tudo.

Sexto andar e além

A estreia de Isadora Melo foi no Coletivo Sexto Andar em um show intimista com apenas sete músicas. Em seguida ela foi ao estúdio Muzak para registrar as faixas do EP. A repercussão foi boa e marcou o início da carreira solo. “Eu perguntei que nome daria para o projeto e Mery disse ‘coloca Isadora Melo mesmo’.” A afirmação foi acertada: a música reflete bem a personalidade da intérprete, que assume um estilo muito próprio já neste início.

“Apesar de não serem minhas as letras, consigo me conectar com que elas dizem e tornar aquilo parte de mim”, explica. “Tive sorte de trabalhar com Juliano que é um artista foda, muito talentoso”. Para quem começou de maneira despretensiosa, Isadora já enfrentou muitos desafios. Agora, é a vez do público desfrutar dessa visão das coisas belas que ela trouxe para seu canto.

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