Visceral e verdadeira, essas palavras definem com precisão a cantora Aninha Martins. Aos 24 anos ela está naquele momento decisivo da carreira de qualquer artista: seguir a onda para ver onde vai dar ou trabalhar a emoção que nasce de sua voz para fazer o que realmente deseja? Ver suas apresentações e os primeiros shows que vem realizando não deixa pairar dúvidas. Aninha vem traçando um caminho singular, ainda de buscas, é verdade, mas com uma vitalidade e energia que nos leva a não temer darmos uma de adivinho: essa moça vai longe.

Aninha sempre foi balançada para o lado das artes. Na escola já gostava de participar de apresentações teatrais e de dança. Fez cursos de teatro e até então a música estava presente na sua vida pelos discos do Pink Floyd que o pai gostava de ouvir em casa, nas idas ao Abril pro Rock no dia do heavy metal ou aos shows do Cordel do Fogo Encantado até quando, em 2006, com apenas 18 anos, encontrou o Sabiá Sensível.

Eu quero estar podre, suada no palco, o povo vem me entregar uma toalha e eu digo não!

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Participar do grupo formado por Germano Rabelo, Anaíra, Vina, Enio, Hugo, Karla e Vicente marcou profundamente Aninha. A banda ficou conhecida na cena recifense por suas performances lúdicas e pelas canções com letras bem humoradas. O Sabiá investia no trabalho vocal, quase todos os integrantes cantavam, e também na interpretação das histórias contadas pelas composições de Germano a exemplo de “Capivara” ou “Magaiver Profissão Perigo”.

A vivência coletiva, o improviso e a liberdade criativa é algo ainda vivo na memória de Aninha. “A gente improvisava, brincava, os shows eram meio caóticos, mas eram incríveis. Tudo era muito espontâneo. Teve um show no Iraq que no meio da apresentação rolou uma briga entre nós e parecia uma performance, mas não era. Depois a galera ficou dizendo ‘pô devia ter gravado esse show, ficou muito massa'”.

Com o fim do Sabiá, Aninha se sentiu um pouco desamparada e resolveu entrar no Conservatório Pernambucano de Música para estudar canto popular. Nos dois anos em que ficou lá, ela começou a aperfeiçoar a voz. “Eu gritava muito e passei a cantar melhor e sem dor”. Outro ganho positivo foi as pesquisas que realizou sobre a música brasileira e que a levou a se interessar por gravações antigas das primeiras décadas do século XX e a fazer apresentações cantando antigos chorinhos.

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Ao deixar o conservatório, depois do estímulo com a linha performática vivida com o Sabiá, participar de oficinas de trabalho corporal com voz e movimento, foi o caminho mais natural para Aninha voltar ao teatro. Por conta da reaproximação com as artes cênicas acabou sendo convidada para substituir Natasha Falcão no musical infantil Caxuxa no papel de Graxa, uma engraxate sonhadora, que canta a música final do espetáculo. Por esse tempo também foi chegando cada vez mais perto da nova cena musical pernambucana. Trabalhou com D Mingus e a Fantástica Kazoo Orquestra e acompanhou Matheus Mota. Foi neste período que Juvenil Silva a convidou para participar da Noite do Desbunde Elétrico no ano passado.

Ritmo frenético na nova fase

A apresentação no Desbunde assinala o início da nova fase de Aninha Martins. “Meu primeiro grande show foi no Desbunde Elétrico, lá em Dois Irmãos. Foi meio caótico, nem eu nem a banda estávamos muito preparados, mas como a gente foi com muita verdade e eu tava muito feliz, o povo gostou. Isso rendeu frutos incríveis como o vídeo da Ostra Monstro. Foi também a partir do Desbunde que Gutie [Antonio Gutierrez, produtor do Rec-Beat] viu a gente e chamou pro Recbeat. Paulo André [produtor do Abril Pro Rock] tava lá, e rendeu uma filmagem com um cara de uma banda de Nova York que veio fazer um documentário sobre a música daqui e fui uma das entrevistadas, foi bem legal.”

De 2013 para cá, Aninha está num ritmo frenético. Antes do Rec Beat no carnaval deste ano participou do Cena Beto apresenta O Boratcho é mais embaixo, na Galeria Joana D’Arc, onde fez dupla com Matheus Mota; no Solar da Marquesa, em Olinda fez o Sexta Feira 13 ao lado do Ex-Exus e já está com banda fixa que a está acompanhando, formada pelo tecladista Hugo Coutinho e o baterista Vicente, ambos tocando com ela desde a Sabiá Sensível, e mais Rodrigo Padrão na guitarra, Aline Borba na flauta e o baixista Vitor Geovani. Também participou do Outros Críticos ao lado da cantora Isaar.

Minha música trata de questões existenciais. E a questão da mulher é uma busca.

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Mas sem dúvida, um dos momentos mais importantes para Aninha foi dividir a mesma noite do Rec Beat, no domingo de carnaval com a banda americana Jonathan Dolls e o paulistano Arrigo Barnabé, um dos músicos que ela mais admira. “O show do Rec Beat foi fuderoso, tocar ali naquele palco no carnaval no mesmo dia de Arrigo, com mesmo equipamento, palco incrível. Era o dia do Quanta Ladeira, era no domingo, foi lotado”, lembra entusiasmada.

O Ocupe Estelita também deu um grande prazer para Aninha na apresentação que ela fez em apoio ao movimento em julho último. “O show no Estelita foi o meu segundo grande show solo, deu um público muito bom e eu gostei dessa experiência de estar na mesma altura do público e poder trabalhar realmente o olho no olho, conversar com eles interagindo comigo”.

Cena Beto, Abril pro Rock, Recbeat, Estelita, show com Isaar, essas experiências estão delineando os passos de Aninha. O teatro, segundo ela, está sendo decisivo para moldar sua atuação no palco. “Eu agora estou mais braba”, diz rindo. “Gosto de sair do lugar da cantora fofinha. Eu quero estar podre, suada no palco, o povo vem me entregar uma toalha e eu digo não queeero!. No último show do Pai da Mata, a banda colocou sangue na boca, enquanto escorria o sangue eu cantava. Eu gosto dessas coisas assim, que é muito da energia do teatro. Eu estou inteira, o corpo é meu, eu estou ali daquele jeito porque eu gosto de dançar no palco, mas eu não sou uma bailarina, eu treino o corpo e eu danço desse jeito”.

Em suas buscas e pesquisas, Aninha Martins vai de Bessie Smith a Maria Bethânia, e não esconde seus afetos pelas vocalistas que acompanhavam Itamar Assumpção, por Vânia Bastos, e entre as revelações mais recentes cita os nomes de Tulipa Ruiz, por ser uma cantora visceral como ela, sem esquecer a performance de Karina Buhr. “A bicha no palco arrasa”. A presença dessas cantoras no universo de preferências de Aninha revelam também a sua afinidade com um tema central que a vem mobilizando tanto nas apresentações que vem fazendo quanto na elaboração do projeto Esquartejada, assim como o seu primeiro disco: o feminino. “Minha música trata de questões existenciais. E a questão da mulher é uma busca. Quero trabalhar mais sobre isso”, diz.

Mulher e sangue

A questão da mulher para a cantora, contudo, ganha um olhar peculiar, fruto de sua trajetória artística pessoal. Ela escolhe as músicas e Rodrigo Padrão faz os arranjos. “No carnaval eu cantei uma música de Paulinho do Amparo que é Ó Linda Morte, Carnaval Caveira que cabe muito no meu repertório”. O parceiro Germano também é lembrado por “Útero” que narra a história de uma pessoa que vivia no útero da mãe e não queria se desvencilhar proque tinha uma história triste.

Outro compositor de quem Aninha quer incluir músicas é Goemon. Ele participou da vanguarda paulistana nos anos 1980 com Arrigo Barnabé. “Conheci as canções dele através de Graxa e Juvenil. É bem bizarro, uns teclados muito anos 80 e as letras sei lá, tem alguma coisa que me puxa meio pra morte, as letras dele são foda, ‘Belzebu’, ‘Satã Tinhoso’, eu gosto dessas linhas meio assim”. Eu já canto ‘Paola’, sobre um travesti e agora quero cantar ‘De porrada em porrada'”.

Com a espontaneidade que vem marcando sua atuação, Aninha é enfática: “são aspectos que acredito e vivencio, são questões bem pontuais assim tipo Paola a travesti, o útero, a mulher que quer fagocitar e engolir um homem, o Esquartejada, mulher e sangue porque tem sangue na boca. Essa música ‘De Porrada em Porrada diz: ‘de puro ódio você me bateu um murro na boca’, toda relação de mulher e homem, de violência. Coisas que estão aí”.

E para levar seus projetos a cabo Aninha está se preparando. Diz que pisou no freio para ir com mais calma, mas já sabe as músicas as quais quer trabalhar. “Quero trabalhar timbres, timbre de tudo. Voz com timbre, flauta com timbre, baixo com timbre. Não que seja tão timbrístico assim, mas que soe diferente”.

E quer no horizonte convocar as amigas para compartilhar a experiência. “Eu gosto das vozes femininas e noto que as mulheres são meio desunidas. Sei lá, eu vejo que os meninos são bem unidos na cena, por isso eu sempre tento trazer as mulheres para os meus shows. A gente não é amiga, mas se entende. Quando vai fazer a coisa entende o timbre da outra, compartilha”.

gutie ANTÔNIO GUTIERREZ (GUTIE)“Acho que Aninha Martins traz um grande diferencial entre as novas cantoras que surgiram recentemente no país. Ela se diferencia principalmente no timbre de voz e na postura cênica. Ela tem consciência da importância das performances ao vivo e explora muito bem isso. E também sabe escolher muito bem seu repertório. Aposto muito no futuro dela. E esses foram os motivos de ela ter subido no palco do Rec-Beat deste ano.”
juvenil JUVENIL SILVA“Acompanho Aninha desde muito tempo, quando estávamos começando. Particularmente acompanhei e observei o desempenho evolutivo dela desde dos tempos da “Sabiá”, acreditando que aquela menina podia e pode muito mais. Como postura artística acho ela uma potencia deslumbrante, e pronta pra tudo que possa pintar. Estou ansioso por um disco dela, e tenho boas expectativas, pois o que ela faz é forte e apaixonante. Quase irresistível. Muito orgulho dela…”