O nome da banda reflete o estilo do quinteto: “Bule lembra algo quente, dá uma ideia de um som que ferve e remete também ao verbo bulir”.

Fotos: Jonatan Oliveira

Demorou virou problema
Passa o tempo e você não
Quase sempre a mesma cena
Que maltrata de aflição
Fumei duas, três carteiras
Era minha passagem de busão
Me sentei a dez cadeiras
Assim não crio laço, relação
Coro, coro, coro a cada aparição…

Essa música de letra juvenil, dançante, com jeito de hit pop dos anos 1980 grudou na minha cabeça desde que a escutei na programação da Rádio Frei Caneca. Antes que ela terminasse acionei o Shazam e lá estava: “Coro”, da banda . Bule? Nunca tinha ouvido falar. Fui nas redes sociais, tecla aqui, tecla acolá e descobri essa rapaziada super alto astral: Pedro Leão, Bernardo Guimarães, Carlos Filizola, Daniel Ribeiro e Kildare Nascimento, todos na faixa etária entre 25 e 27 anos, dando os primeiros passos de um projeto musical com pinta de que vai decolar. 

Conversando com eles não demorei muito para perceber o quanto eles estão se divertindo trabalhando juntos, mas ao mesmo tempo levando a sério a empreitada de fazer um som de qualidade e contemporâneo.  Com pouco mais de um ano e meio de formada, a Bule está com duas músicas nas plataformas de streaming Deezer e Spotify – “Coro” e “Azul”, fez alguns shows em Recife e Olinda nos últimos meses – já tocaram com a Kalouv e recentemente se apresentaram com Romero Ferro  e prepara, para breve, o lançamento do primeiro EP. 

O nome Bule surgiu porque seus integrantes queriam um título curto e marcante. “Bule lembra algo quente, dá uma ideia de um som que ferve e remete também ao verbo bulir”, diz Pedro.

A trajetória dos meninos buliçosos da Bule, como tantas outras bandas recifenses, começou na adolescência. Todos tocavam em um ou mais grupos e foi dessa teia de vivências de quase dez anos, desde os tempos de colégio, compartilhando shows, tirando som em festinhas e construindo amizades pautadas pelos mesmos gostos musicais, que surgiu a ideia de um projeto autoral.

A partir de novembro de 2016, os integrantes da Bule passaram a se reunir regularmente todas as semanas para maturar uma sonoridade que desse uma identidade ao grupo. Pedro Leão (teclado, guitarra e vocal) e Carlos Filizola (teclado e guitarra) fizeram o curso de produção fonográfica e, durante o período em que estudaram juntos, construíram a base estética do projeto.

Com a chegada dos demais músicos – Bernardo (baixo)Daniel (percussão) e Kildare (bateria) – essa discussão cresceu e quando eles encontraram um caminho comum, começaram então a compor e a realizar ensaios. No início de 2018, com um material musical já definido, passaram a ensaiar todos os dias e gravaram os primeiros singles. Em março, eles realizaram o primeiro show, no Tropicasa, na Boa Vista e, mesmo sem ter nenhuma música conhecida, conseguiram reunir cerca de 200 espectadores. 

A Bule apresenta uma variedade razoável de ritmos e percebe-se claramente a intenção deles em fazer uma música de estilo alegre. O percussionista Daniel Ribeiro confirma ser isso que o grupo deseja. “O foco é bem esse, uma música dançante, uma mescla da sonoridade pop dos anos 80 com uma pegada tropical brasileira”, diz ele. A construção dessa sonoridade segundo Bernardo é diária. “Nós sempre trocamos ideias para saber exatamente o que nós vamos querer atingir, a razão do uso de cada instrumento”, completa. 

Pedro ressalta que nos ensaios ficou bem claro para o grupo que eles pretendiam apostar num pop dançante, mas tendo como referencia a música brasileira. “Não queremos ficar parecendo uma banda estrangeira”, diz. Eles não negam influências que vão de DaftPunk, passando por New Order, mas buscam investir em elementos de brasilidade. “Nós gostamos da sonoridade de Gilberto Gil, no disco Realce, por exemplo, e também ouvimos artistas atuais como Céu, ouvimos muito seu  disco Tropix”, acrescenta. A percussão, pelas possibilidades de um som mais solto e aberto, é outro elemento que eles trabalham, buscando uma maior sintonia com os ritmos nacionais. 

As composições e a linha melódica das músicas da banda também são frutos de um processo de construção compartilhada. “Desde as primeiras músicas que compomos, fomos trabalhando elas nos nossos encontros. Geralmente Carlos e Pedro chegavam com alguma levada de bateria ou uma ideia ainda embrionária e juntos íamos formando a textura da música instrumental. Então Pedro depois fazia a letra com um amigo da gente, Toni Lamenha que compõe todas as nossas letras”, conta Daniel. “Eu pensava a harmonia, fazia a melodia sem letra, gravava, cantando palavras aleatórias para marcá-la e, muitas vezes, essas palavras acabavam sendo a base da letra final”, completa Pedro.

A partir de agora a Bule vai focar nos festivais e shows por cidades do Nordeste. Segundo Daniel, durante o período de preparação, além do amadurecimento musical, eles também pensaram onde eles querem e podem chegar, para não ser mais uma banda de existência efêmera. “Nós somos muito novos ainda, mas estamos querendo entender como é que funciona o mercado, conhecendo pessoas. Temos mais uma música, “Cabe Mais Ainda”, disponibilizada na Rádio Frei Caneca, temos 17 músicas prontas para shows e também sinto que estamos crescendo em nossas apresentações ao vivo”, garante ele

A banda anuncia que logo estará lançando mais três músicas em streaming: “Cabe Mais Ainda”, “Aliás” e “Havia Tempo” e também um EP com as canções anteriores “Coro” e “Azul”. O EP é produzido por Benke Ferraz, da Boogarins. A gravação foi totalmente caseira e ganhou uma repaginada feita por Benke no sentido de fazer elas funcionarem melhor. 

A Bule também estará lançando até o final do mês um live gravado no terraço de um casarão em Ponte d’Uchoa, pertencente a família de Pedro, local onde eles tem se reunido para produzir “a montanha russa de emoções musicais”, referência feita por eles próprios para suas apresentações ao vivo, e que agora poderá ser conferida na internet.

Holofotes é projeto da Revista O Grito! que mapeia e dá destaque para novos nomes da cena musical de Pernambuco.

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